Como gerir um restaurante pode se tornar sinônimo de cuidado

GastronomiaComo gerir um restaurante pode se tornar sinônimo de cuidado

Para que serve um restaurante?

Mocotó e Quebrada Alimentada respondem a pergunta de milhões. Crédito: Joaquim Macruz (Edição)

Uma das principais premissas da gastronomia é o cuidado e atenção aos detalhes para garantir uma boa experiência. No entanto, essa ideologia vai muito além da conexão com o cliente – ela se espalha por toda a dinâmica de um restaurante. Garçons, cozinheiros, ajudantes… a equipe faz da experiência do cliente a melhor, prestando atenção em cada detalhe. Mas tão importante quanto a gastronomia é o cuidado com quem trabalha atrás do balcão.

Essa foi a premissa do painel Gerir um restaurante é também cuidar de pessoas, realizado na quinta-feira, 14, no São Paulo Innovation Week, festival global de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos.

O encontro foi mediado por Danielle Nagase, editora-assistente de Paladar, e reuniu Duilio Lin, fundador dos restaurantes Mapu e Aiô, Veronica Souza Gama, gestora de RH do Aiô, e Ricardo Garrido, sócio da Cia. Tradicional de Comércio, detentora de marcas como Bráz, Pirajá e Lanchonete da Cidade.

São Paulo Innovation Week é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Por que é preciso cuidar?

Para Duilio, cuidar começa com propósitos e valores pessoais, partindo do princípio de que “o restaurante é para restaurar pessoas”, incluindo os trabalhadores. Todos fazem parte de uma coisa só. No Mapu, ele destaca que é importante entregar cuidado e alegria para os funcionários tanto quanto entregar uma boa gastronomia aos clientes.

O principal aspecto em um restaurante, reforça Ricardo, é cuidar de gente. “Normalmente, as pessoas que não conhecemos por nomes são as mais importantes”, reflete. O sócio da Cia. Tradicional de Comércio conta que, quando entrou no mercado, aos 26 anos, abriu um bar com cinco amigos e logo percebeu que “não sabia nada”. Os funcionários é que sabiam como fazer uma casa funcionar.

Eles também lembram que os membros da linha de frente querem segurança e construir um plano de carreira. “Pelo preconceito e ignorância, achamos que os profissionais da hospitalidade não querem crescer, o que é completamente errado. Depois de ouvir e entender, me foi mostrado que eles querem uma carreira, não apenas um emprego”, diz Ricardo.

Para ele, os restaurantes devem dar a possibilidade de o funcionário crescer – acompanhando a caminhada de cada pessoa, incentivando, profissionalizando e mostrando quais passos devem ser seguidos rumo a uma posição maior. “Eu quero crescer e abrir novas casas, e os profissionais querem crescer e conseguir novos cargos melhores”, diz.

Como fica a escala 6×1?

Duilio comenta que, desde o início, ele e os sócios queriam um negócio que cuidasse das pessoas na mesma proporção da preocupação com a culinária. Por isso, nos seus restaurantes, sempre houve dois dias de descanso.

Na visão de Ricardo, fazer essa migração é delicada: “O problema é que um garçom que ganha muito por comissão e ‘caixinha’, ao trabalhar menos vezes por semana, consequentemente ganhará menos gorjetas, desestabilizando o salário ‘móvel’”, diz. Para ele, será impossível o funcionário que trabalha na escala 6×1 manter os mesmos ganhos ao migrar para o 5×2.

Nesse conflito entre estabilidade financeira e o descanso de dois dias, Ricardo assume não saber onde se colocar: “Não sei exatamente como me posicionar, pois acredito que, como em todas as outras profissões, os funcionários da gastronomia também merecem dois dias de descanso”.

Como implementar uma gestão de RH mais saudável?

Veronica também reforça a importância de dar segurança aos funcionários. “Mostrando o que será feito e, principalmente, dando possibilidade de crescimento, incentivando e entendendo os propósitos de quem está entrando”, ensina ela.

Para estimular a confiança, ela orienta ensinar as bases da empresa, falando da cultura e política do estabelecimento, desde a aprovação no processo seletivo. A transparência e os valores são pontos importantes para garantir união. “Para cuidarmos de pessoas, precisamos de ferramentas, como feedbacks”, acrescenta Veronica.

Outro ponto é o diálogo. “Escutar as pessoas com quem você está trabalhando e não impor regras”, diz Ricardo. Dessa forma, são realizadas reuniões para treinamento mas, principalmente, para conversa. “Pactuar projetos e escutar é o mais importante.”

São Paulo Innovation Week

O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.



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