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A política sempre foi um teatro. Mas, nos últimos anos, o figurino ganhou um protagonismo inédito — especialmente entre as mulheres. Em um cenário em que imagem vale tanto quanto discurso, cabelo, maquiagem, postura e roupa passaram a funcionar como plataformas eleitorais silenciosas.
Em entrevista a VEJA pelos seus 50 anos de carreira, o hairstylist Celso Kamura resumiu essa percepção em uma frase simples, mas reveladora: “Existe uma estética mais produzida em parte das mulheres da direita. Já as de esquerda são mais naturais, menos performáticas”.
A observação ajuda a explicar um fenômeno visual que se consolidou na política contemporânea. De um lado, mulheres com imagem ultra-controlada, cabelo impecável, maquiagem polida, feminilidade clássica e visual milimetricamente calculado. Do outro, uma estética mais despojada, natural ou intelectualmente casual, que tenta transmitir proximidade e autenticidade.
Kamura, que por anos cuida de figuras como Dilma Rousseff e Martha Suplicy, vê a imagem como parte inevitável da narrativa política. “Mulher na política é observada o tempo inteiro. Cabelo, roupa, maquiagem… a cobrança é muito maior”, diz ele, que há 20 anos, ainda é embaixador da Wella Professionals.
A diferença estética entre esses dois universos ficou ainda mais evidente na era das redes sociais. Enquanto parte das conservadoras, como Michelle Bolsonaro e Melania Trump, investe em uma imagem quase aspiracional — muito alinhada à ideia tradicional de elegância e feminilidade —, mulheres ligadas à esquerda frequentemente apostam em uma construção visual menos rígida, às vezes até como reação simbólica à estética excessivamente perfeita – Marina Silva é um bom exemplo.

Nada disso é exatamente novo. Jacqueline Kennedy já entendia o poder político de um corte de cabelo. Margaret Thatcher treinava voz, postura e figurino como estratégia de autoridade. Mas a internet acelerou tudo: hoje, uma escova mal feita vira assunto nacional em minutos.
No Brasil, essa discussão ganhou novas camadas porque a aparência feminina ainda é tratada como extensão moral. “Visual de política é estratégia também”, diz Kamura. “Nada ali é totalmente sem intenção.”
Ao mesmo tempo, ele evita transformar beleza em trincheira ideológica. “Eu cuidaria de qualquer mulher que eu não achasse imoral, independente do partido político”, afirma. Porque, convenhamos, visual na política fala menos sobre vaidade e mais sobre linguagem. Em um mundo onde tudo comunica, é normal que o cabelo e a maquiagem também virassem discurso.


Fonte: veja.abril
