Palco de protestos célebres do passado e do presente em Paris, a Place de la République sediou no último dia 28 um evento teoricamente mais ameno: o desfile de uma grife em ascensão no mundo da moda. Na passarela improvisada, contudo, o que se testemunhou foi condizente com o espírito feroz de tantas manifestações que já ocorreram naquele espaço público. A marca Matières Fecales fez da apresentação, intitulada The Ninety-Nine Percent, um ruidoso manifesto político e social em plena programação da Semana de Moda na capital parisiense. Um time de 99 modelos — todos negros ou não brancos — se revezou em cena com criações que incluíam roupas feitas com notas de dólares, para denunciar os excessos do capitalismo, e modelitos de freiras com adereços de inspiração punk. Uma modelo surgiu embrulhada na bandeira da França, com a palavra Resist (resista) grafitada nela. No final apoteótico, uma mulher negra se exibiu carregando nos ombros bonecos hiper-realistas que representavam dois homens bilionários, idosos e brancos — um libelo contra a suposta opressão racial, econômica e de gênero dos 99% do mundo citados no título do desfile por 1% de super-ricos.

Assim, logo no primeiro dia da nova temporada de um dos principais eventos do calendário do estilo no planeta, a grife de origem canadense com sede na França fez mais barulho que qualquer concorrente ao resgatar um elemento que andava adormecido: a moda como motim. A provocação começa no nome da marca, que significa literalmente “matérias fecais” — uma forma de expor as contradições do mercado do luxo e seu estímulo ao “consumo irrefletido”. A própria dupla de estilistas em questão, o casal Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, traz o escândalo em sua aparência. Carecas, com maquiagem andrógina e roupas de outro mundo, eles se parecem mais com alienígenas que seres humanos, digamos, convencionais. O objetivo desse visual-manifesto e de suas criações, já declarou Bhaskaran, é “encorajar o pensamento crítico nas pessoas”.
Na primeira fila do desfile estava a popstar Rihanna — o que atesta como o choque e a provocação podem ser o caminho para construir prestígio no mundo da moda. Além dela, celebridades como as atrizes Sarah Paulson e Zendaya (sempre ela) promoveram com entusiasmo as coleções da Matières Fecales ultimamente. Em suma, a grife se encontra naquele limiar eloquente em que um fenômeno de vanguarda passa a ser cortejado e absorvido — suprema ironia — pelo mesmo circuito estabelecido do luxo tão denunciado por seus estilistas.

Ao longo de sua história, a moda já viu esse filme outras vezes. Em meados dos anos 1970, ela foi sacudida pela inglesa Vivienne Westwood e seu marido, o empresário Malcolm McLaren. Ambos inventaram a estética punk, ao abrirem uma loja que abalou a honorável King’s Road, em Londres, com seus modelitos sadomasoquistas. O máximo de seu poder comportamental disruptivo veio na forma de uma banda de rock ostensivamente fabricada, os Sex Pistols, cujos integrantes chocavam ao subirem aos palcos com muito couro e correntes, roupas que mais pareciam trapos rasgados e até suásticas. Nos anos 1990 e 2000, a bandeira da transgressão foi encampada pelo estilista britânico Alexander McQueen (1969-2010), com seus desfiles históricos que exploravam a violência, as deformidades e a nudez como armas para perturbar e fazer questionamentos políticos.

Agora, a Matières Fecales reaviva essa trincheira sob o signo da era digital. Dalton e Bhaskaran começaram a chamar atenção em 2018, com um trabalho que bebia do legado de McQueen: no desfile de estreia, apresentaram botas que pareciam pés humanos deformados, com extensões de silicone que davam aspecto de ETs aos modelos. De lá para cá, o casal redobrou a aposta no escândalo. A diferença em relação ao passado é que hoje a tendência passa pela lógica das redes sociais: a provocação virou conteúdo e construção de marca. O choque nas passarelas é, no final das contas, uma bela estratégia para viralizar.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016
Fonte: veja.abril
