
A aproximação entre moda e vinho não é exatamente novidade. A marca italiana Dolce & Gabbana, em parceria com a vinícola siciliana Donnafugata, por exemplo, tem uma coleção que inclui brancos, tintos e até um espumante rosé. A moda, portanto, já descobriu que uma garrafa também pode ser uma tela. Neste caso, porém, imagem não é tudo: o que vem dentro da garrafa faz toda a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Durante uma breve passagem pela ProWine São Paulo 2026, a maior feira de vinhos e destilados das Américas, Alexandre Herchcovitch apresentou sua colaboração com a Casa Perini. A terceira edição dos baldes que levam a assinatura de artistas vendidos com sete espumantes da marca, desta vez, conta com criações exclusivas do estilista paulista. O conjunto custa R$ 479,90.
Nossa rápida conversa revelou algo ainda mais interessante do que a coleção de baldes. Perguntei sobre a possibilidade de criar um rótulo de vinho. Ele foi direto: “Na verdade, eu penso em fazer um vinho, sim”.
Não se trata, pelo menos por enquanto, de um projeto em andamento. “Ainda não”, explicou. Mas há ideias e, sobretudo, uma vontade de elaborar um vinho que tenha a ver com ele. Segundo Herchcovitch, seria um tinto, seu preferido, leve e fresco. “Algo que, na verdade, atenda a mim”, disse. E completou, com uma dose saudável de egoísmo criativo: “aquilo que atende a mim também pode atender a milhares de pessoas”. É uma ideia que parece fazer sentido para alguém que passou a carreira criando objetos que carregam identidade.
Na coleção para a Perini, por exemplo, sua preocupação não foi simplesmente transformar o balde em uma embalagem bonita. E, se você está pensando que as bolas cor-de-rosa têm alguma referência à perlage — as borbulhas do espumante —, definitivamente não foi essa a inspiração.
Ele diz que a ideia era criar objetos que tivessem vida depois que os espumantes acabassem, que pudessem continuar dentro da casa, com outras funções. “Banco, mesinha, cabeceira, o que você escolher transformar a lata”, explicou.
É justamente aí que a coleção ganha outra dimensão. O objeto deixa de ser apenas embalagem e passa a ser parte da casa — e, segundo Herchcovitch, uma maneira de levar seu pensamento para além da moda. “Não é só a moda, mas, ao colocar esse objeto em casa, a pessoa leva o meu pensamento como artista, como designer, para outros mundos, o que é importante”, explicou.
O vinho, nesse caso, entrou como mais um desses mundos. Herchcovitch, que gosta de ser surpreendido por rótulos menos conhecidos, parece interessado em ir um passo além. Em vez de apenas desenhar o que está do lado de fora da garrafa, quer descobrir o que colocar dentro.
Por enquanto, o vinho de Alexandre Herchcovitch existe apenas como ideia. Mas, conhecendo o estilista, talvez seja melhor prestar atenção. Quando um designer como ele começa dizendo que está pensando em fazer um vinho, é bastante provável que alguém já esteja plantando a uva. E, desta vez, o rótulo pode ser a parte menos interessante da história.
Fonte: veja.abril
