Diante de alegrias e desgraças, anunciadas ou de supetão, observamos, na linguagem humana, a forma como nos relacionamos com as consequências de nossas escolhas, sejam elas conscientes ou não.
Há quem delegue a algum campo espiritual ou político; há quem culpe qualquer feliz ou infeliz que tenha passado, não por acaso, pelo trajeto antecedente ao acontecimento.
Diante do que a psicanálise nos apresenta, essa é uma escolha inconscientemente eficiente, que evita que pensemos a partir das informações que nos levariam a entender que há muito mais “caroço no angu”. Há muito mais “nós mesmos” neste “destino” do que estamos dispostos, na maior parte do tempo, a admitir de bom grado.
Se pudéssemos separar, de forma cirúrgica, os campos político, afetivo, religioso, crítico e profissional, ainda assim iríamos delegar a responsabilidade por muita coisa . Sentiríamos uma velha e conhecida preguiça de pensar sobre o assunto.
Delego e passo batido. Deixo no raso. Minto para mim mesmo e me convenço de que foi “presente” ou “castigo” de “Deus”, dando por encerrado o caso antes mesmo da apresentação dos eventos contraditórios, eliminando a chance de me ver na minha própria contradição.
Pensar pesa.
Quem pesa pensa.
Quem pensa preso ao peso, tende a permanecer na preguiça.
Quem liberta o pensamento faz do pensar o vento do próprio barco.
Comecemos agora com duas perguntas simples: o que sou? Quem sou?
Se tentarmos responder honestamente com qualquer coisa que vier à mente, observando cada palavra e para onde ela nos levaria, veremos que não haverá nenhuma mísera palavra que será dita por acaso.
Pensar não garante tantas coisas assim. Pode até não garantir nada. A garantia é uma tentativa de controle e falha por si só.
Mas, na maior parte do tempo, vemos os preguiçosos de pensamento se entregando a ideologias radicais e sedutoras de todos os campos, que decidem por uma massa que se diz “abençoada” ou “perseguida”, “vencedora” ou “perdedora”, “superior” ou “inferior”.
Quem se questiona é capaz de questionar o mundo. Quem questiona o mundo é capaz de criar novos.
Em tempos de IA e de política descarada, para ser bem minimalista, questionar algo é, no mínimo, uma atitude valiosa-mente inovadora.
A política foi se tornando o circo, o pão porém, está estocado e inflacionado.
Me desculpem os circenses pelo uso desta triste metáfora.
No Brasil ser palhaço ou padeiro, porém, não anda compensando.
Já ser político…
Talvez o caminho não seja escolher rapidamente de que lado estamos, mas suportar o desconforto de pensar antes de escolher.
A política, como a vida, não cabe inteiramente em heróis e vilões, vencedores e derrotados.
Pensar com alguma liberdade exige reconhecer contradições, rever certezas e admitir que podemos estar errados e que nunca ganharemos tudo.
Talvez seja justamente aí que o pensamento deixe de ser preguiça ou repetição e se transforme em possibilidade: a de construir escolhas menos impulsivas, menos polarizadas e, quem sabe, um pouco mais coerentes.
