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Quando figuras influentes no universo do estilo aparecem com um item ainda estranho para a maioria, pode-se desconfiar: é sinal de uma nova tendência saindo do forno. Isso ocorreu recentemente com a modelo Bella Hadid. Ela elegeu um tênis flat, retrô e de camurça marrom para dar suas caminhadas em Nova York. Sua irmã mais velha, Gigi, não menos influente, também aderiu a essa cor do calçado em Paris. Não deu outra: o tênis de camurça marrom virou a mais nova mania no imaginário do luxo nos pés. Até aí, nada de inédito sob o sol da moda, na qual cores e modelos de tudo se sucedem ao sabor dos humores comportamentais. Mas a entronização do tênis nos tons terrosos ilustra um fenômeno curioso na indústria: como se dá a substituição de um item até então cobiçado e tido como chique por outro de ascensão fulminante.

Em alta nas variações marrom, camurça, areia ou bege, o novo item logo recebeu o epíteto de “anti-white sneaker” — ou o tênis antibranco. Este último reinou como símbolo de elegância nos últimos anos, saindo das quadras de esporte para se consolidar como calçado capaz de dar um twist de refinamento informal a qualquer produção. Ao acompanhar vestidos, ternos e peças de alfaiataria, era saudado por conferir ao visual uma identidade única, chique e moderna. Mas então aconteceu o inevitável: o tênis branco ficou tão desejado que entrou na linha de produção de todas as fabricantes e, assim, deixou de ser um símbolo de individualidade para encarnar o oposto disso: um acessório que não nos diferencia, apenas engrossa o gosto da multidão. O que em moda significa fim da linha, morte de uma tendência. O tênis camurça já estava à espreita para tomar seu lugar.

Como uma onda fashion não se consolida a um estalar de dedos, a primeira semente para a mudança surgiu em 2024, quando a badalada Miu Miu fechou parceria com a New Balance. A grife levou para o universo do luxo uma nova releitura do modelo 530, da década de 1990. Ele surgiu revestido de camurça marrom, mas com solado original, recuperado para dar o ar vintage à peça. A operação foi precisa: preservava o conforto e a familiaridade do tênis esportivo, mas alterava os códigos que permitiam reconhecê-lo como novidade — a camurça e a paleta terrosa. Mais recentemente, grifes como Dior e Prada acompanharam o movimento, com modelos que custam entre 10 000 e 13 000 reais.
A partir daí, a novidade começou a ganhar escala. Marcas de moda esportiva como Adidas e Nike investiram na tendência. Na última Semana de Moda de Paris, a Puma, por fim, tirou do baú um de seus clássicos da década de 1990, o Suede. Entre as cores escolhidas, justamente o “coffee brown”. “Faz parte do processo criativo da indústria da moda recuperar inspirações aprovadas no passado para servir de suporte das novas tendências”, diz João Braga, professor de moda da Faap.

Não é à toa que as gradações do marrom sejam as queridinhas da hora. Elas remetem à natureza e à descontração ligada ao bem-estar. “Trazem sofisticação mais natural, menos perfeita que a do chamado luxo silencioso”, analisa Kauê Machado, gerente de produto da Schutz, grife brasileira de luxo. Além disso, a nova tendência tem simbologia inclusiva. Ela enaltece os “tons de nudes”, como são designadas as nuances de cor da pele humana, traduzindo-se num raio que vai do rosa-claro ao bege. “Faltava incluir a gama das peles mais escuras”, diz Braga. A moda, enfim, reflete aqui o comportamento da sociedade, que está mais plural em suas expressões culturais, do cinema às passarelas. Quando consumidores atentos como Bella Hadid farejaram essa conexão, deu-se a mágica de a tendência invadir as vitrines. Mas o tênis camurça que se cuide: ele pode virar o “ultrapassado” branco de amanhã.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
Fonte: veja.abril
