A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet entrou em 2026 sem medo de mudanças. Aos 56 anos, trocou de partido, saiu do MDB para o PSB, e de domicílio eleitoral para se colocar na disputa ao Senado pelo Estado de São Paulo.
Foram 30 anos no MDB, período em que se elegeu por seu Estado natal, o Mato Grosso do Sul, deputada estadual, prefeita de Três Lagoas duas vezes, e senadora por 8 anos. Agora ela se atreve a desbravar uma nova jornada, encorajada pelos quase 5 milhões de votos que conquistou como candidata à presidente da República em 2022. A maioria por São Paulo.
Em entrevista ao programa Eleições 2026, do NeoFeed, Tebet contou por que quer voltar ao Senado, que se tornou um campo estratégico em 2026. Está em jogo o poder dos senadores de pautar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
“Ninguém está acima da lei. Mas única e exclusivamente quando houver abuso de poder, corrupção, desvio de dinheiro, venda de sentenças. Se não, é colocar os ministros do STF numa coleira”, afirma Tebet.
A ex-ministra defende uma reforma do Judiciário, mas também do Executivo e do Legislativo. “Temos que discutir esse vergonhoso sequestro do orçamento brasileiro por emendas parlamentares no Congresso Nacional”, diz Tebet.
Neta de libaneses que se instalaram no interior de São Paulo, Simone conta que passou a infância na região de Andradina, de Araçatuba. Formada em Direito, fez mestrado na PUC de São Paulo e resume a importância do Estado que quer representar agora em uma frase. “Se São Paulo vai bem, o Brasil também”.
Leia a seguir alguns dos principais trechos da entrevista. A íntegra da conversa de uma hora pode ser vista em vídeo acima.
Pré-candidatura ao Senado por São Paulo
“Fui pré-candidata à Presidência da República e isso me deu a legitimidade não só de andar o Brasil, mas de ter podido me apresentar mais fortemente em São Paulo. Foi o Estado que mais me acolheu, mais me deu votos. São Paulo abraça todo mundo, e a pujança daqui também é feita pelo sangue da minha família. Meus avós foram imigrantes libaneses que vieram para São Paulo. Minhas filhas já moram aqui há muito tempo. Me sinto muito confortável de me apresentar, agora, como pré-candidata ao Senado. A importância de São Paulo para o cenário nacional eu sempre simplifico com uma única frase: Se São Paulo vai bem, o Brasil vai bem. Se São Paulo vai mal, o Brasil inteiro sente.”
Novo tarifaço dos EUA e PIX
“Me surpreende as pessoas acharem que essas decisões do governo americano têm a ver com as eleições brasileiras. Os Estados Unidos hoje veem em setores do Brasil uma grande ameaça. Então, no termo forjado pela política dito lá atrás: “É a economia, estúpido!”.
Tem o etanol do Brasil que é mais limpo, mais viável economicamente, que briga com o etanol de milho de lá. E tem as big techs. A gente não quer tirar liberdade de expressão de ninguém, mas a gente precisa regulamentar as redes porque não pode fazer das big techs um campo sem lei em que você pode estimular pedofilia ou violência contra a mulher. Esse tipo de conduta que a sociedade brasileira não aceita na vida real não pode aceitar na vida virtual. A gente sabe que as maiores big techs são americanas.
Tem o medo (dos EUA) de perder a hegemonia da moeda. A grande realidade que está por trás é que eles estão com medo de outros países, de outras potências e de que em um determinado momento – que eu acho que vai chegar –, haja uma diversidade de moedas para não ficar tão dependente do dólar. Aí entra a história do PIX.
“A única coisa que o Brasil não pode aceitar é abrir mão da nossa soberania. Os próximos 30 dias vão ser decisivos”
Acabar com o crime organizado no Brasil, que a violência vai diminuir, é de uma simplificação e de uma falta de conhecimento absurda. Não é isso que eles querem. Com essa questão da tarifa, eles (EUA) querem sentar e chamar para conversar. A única coisa que o Brasil não pode aceitar é abrir mão da nossa soberania. Os próximos 30 dias vão ser decisivos. E não podemos abrir mão do PIX porque democratizou a bancarização mais pobre. Agora, discutir terras raras, isso é o que a gente pode negociar.”
Terras raras
“As terras raras são um novo pré-sal para o Brasil, é uma oportunidade ímpar. Nós temos o que o mundo precisa. Temos a segunda maior reserva. Só que pode levar dez anos para ter a tecnologia, para extrair as terras do nosso subsolo de forma economicamente viável, segura e rápida. A China e os EUA têm, assim como alguns países asiáticos. A gente não tem que ter discriminação da cor desse dinheiro. Não interessa se é o Japão, se é a China, se são os Estados Unidos. Quem quiser ser parceiro do Brasil nessa exploração, nós temos que abrir as portas para eles.
Agora, sob as nossas regras. Nós não podemos fazer com as terras raras o que lamentavelmente a gente fez com o agronegócio brasileiro. A gente exporta nossos produtos in natura. Mas parte dessa produção deveria ter regulamentação para trazer a agroindústria para cá, o beneficiamento que traz emprego, gera renda, que traz investimentos. A gente tem que fazer parcerias público-privadas, do investidor nacional com capital estrangeiro, porque não há recursos suficientes para processar tudo isso que a gente tem.
E acho que esse é o filé mignon. É o futuro do Brasil, o futuro imediato. A gente consegue aprovar algo nesse sentido em seis meses no Congresso Nacional, trazer os investidores para cá. Em um ano e meio a gente tem uma nova realidade no Brasil em relação a isso. E com sustentabilidade. A gente não vai causar problema ambiental.”
“As terras raras são um novo pré-sal para o Brasil, é uma oportunidade ímpar”
Corte de gastos
“Essa faca tem que estar afiada para cortar dos dois lados. Eu comecei a fazer a contenção de gastos como ministra do Orçamento. Tinha muita denúncia e tiramos milhões de pessoas que não precisavam de programas sociais. A gente só não conseguiu avançar muito porque não tivemos um Congresso parceiro. Houve um erro da imprensa, e de análise minha, quando foi eleito o novo Congresso, em 2022. A gente tinha a sensação de que: “Agora vai porque nós temos um Congresso mais à direita e mais fiscalista”. Ledo engano. As três maiores medidas que a gente fez de contenção de gastos não passaram. Isso pelo lado da despesa.
Pelo lado da receita, da mesma forma. A gente tem um gasto tributário que chega a R$ 600 bilhões por ano. Eu sou a favor de renúncia fiscal para setores produtivos. A principal renúncia fiscal, que consome quase 22% de todo esse valor, é o Super Simples. Você não tem como acabar com ele. É a forma que você tem de garantir ao pequeno, ao microempreendedor e ao médio, que ele consiga competir. Mas você tem um restante de gastos tributários que eram necessários no passado, e que não são mais. Um exemplo foi o da desoneração da folha. Ela cumpriu uma missão lá atrás, mas agora pode acabar, está tudo certo.
A gente precisa revisar os gastos que não são mais prioritários, que são ineficientes. Enfrentar lobbies, a questão dos privilégios, penduricalhos.”
Arcabouço fiscal
“Foi feita uma engenharia muito inteligente pela equipe do Ministério da Fazenda. Era o possível naquele momento. Eu sustento que com esse mesmo arcabouço a gente seja um pouco mais restritivo, sem mudar a modelagem no percentual. Explico o porquê. A gente veio de uma pandemia, de um orçamento de ficção, fake. Muitas políticas públicas e muitos programas não constavam no Orçamento. A gente teve que, no primeiro ano, bater um déficit alto. Havia uma camuflagem ali, e a gente teve que incorporar o orçamento para políticas públicas existentes.
A gente fala muito na meta fiscal, que é fundamental. Mas a gente só pode gastar todo ano 70% do limite da receita. Então a receita sempre vai crescer mais do que a despesa. Se a gente tem que jogar isso para um pouco menos, se a gente vai ter que modelar em crescimento máximo de 2,5%, chegando a no máximo 2%, a gente tem mecanismos internos no arcabouço para sermos mais restritivos. Se a gente fizer uma modelagem ali, ela é suficiente para a gente tocar o país.
Lembrando que, paralelo a isso, fazer a revisão de gastos. A gente tem muita gordura para queimar. Mas naquele momento, foi feita justiça tributária. A gente pode até discutir: deve ou não deve cobrar tributos de dividendos? Isso é outra história. Eu mesma sou contra, por exemplo, taxar imposto sobre grandes fortunas. Eu acho que isso não vira nada. Você pode ter fuga de capital. Mas não tinha sentido na reforma do Imposto de Renda, que já era um compromisso de campanha do presidente, não isentar de imposto de renda quem ganha até R$ 5.000. Qual foi a compensação? Os super ricos, que são 140.000 contribuintes, que não pagam até 10% de impostos. Vão pagar. Se eu pago 7%, eu chego a 10%. Isso beneficiou milhões de brasileiros. Isso eu chamo de justiça tributária, necessária e justa num país tão desigual.”
“Eu sustento que com esse mesmo arcabouço a gente seja um pouco mais restritivo, sem mudar a modelagem no percentual”
Papel do Senado e impeachment de ministros do STF
“Entendo 2026 como a eleição mais importante da história das nossas vidas desde a redemocratização. Seja para o Executivo, seja para o Senado Federal. Por isso me coloquei à disposição desse processo, como uma pessoa de centro. O que está em jogo efetivamente é a democracia como nós a conhecemos, e a soberania do nosso país. É o Brasil que nós queremos não nos próximos quatro anos, mas para a próxima década. Eu conheço o projeto político do governo que passou [do ex-presidente Jair Bolsonaro], que está querendo agora passar para o filho. E conheço a história de vida de quem está do nosso lado, seja do presidente Lula, seja daquelas forças democráticas.
O Senado passou a ter projeção porque é um projeto deles enfraquecer a tal ponto um dos Poderes, que permitiriam a perpetuação no poder de uma forma absolutamente distorcida, com retrocessos civilizatórios. O Senado tem um poder na Constituição de “impichar”, ou não, um ministro do Supremo Tribunal Federal. Ninguém está acima da lei. Mas única e exclusivamente quando houver abuso de poder, corrupção, desvio de dinheiro, venda de sentenças. Abre-se o processo, com ampla defesa ao contraditório.
O que eu não posso, e é onde eles querem passar do limite, é impichar simplesmente porque eu divirjo de uma decisão judicial que ele deu. “Eu divirjo de que no dia 8 de Janeiro [de 2023] houve tentativa de golpe.” Se eu fizer isso, eu vou colocar ministros do Supremo numa coleira. Aí é o fim da democracia. Quem é que vai dar a última palavra contra o abuso de corrupção ou tentativas mais graves de golpe ou de permanência no poder de um chefe do Executivo, de um presidente da República? O Supremo, encoleirado, amordaçado ou intimidado, não vai fazer o papel que ele tem que fazer. Posso ter aí ditadores, em ditadura branca, se perpetuando no poder. É uma forma velada que autocracias no mundo, sejam de esquerda ou de direita, fazem.”
“O Supremo, encoleirado, amordaçado ou intimidado, não vai fazer o papel que ele tem que fazer”
Caso Master e o STF
“Não conheço o processo. Mas se chegar lá com provas, com denúncia, feito todo o processo e chegar lá, nós temos que investigar. Ninguém está acima da lei. Estamos ainda em fase, obviamente, de investigação. E somos meros representantes da sociedade brasileira.
O que o Brasil precisa fazer para os próximos anos passa por reformas. E a mãe de todas é a reforma política que passa, sim, pela do Judiciário. Eu sou a favor de mandato para ministro do Supremo. Acho que de 12 anos. A vitaliciedade já cumpriu o seu papel, não cumpre mais permanecer no cargo até morrer ou até se aposentar.”
Polarização política
“Andei o Brasil duas vezes como ministra do Planejamento, visitei todas as capitais, e vi o que as pesquisas agora estão mostrando. Um cansaço absurdo, majoritário com a polarização. O problema não é o eleitor. É a política brasileira que nesta eleição de 2026, ao contrário de 2022, não deu alternativa à terceira via. Nós temos o presidente Lula e nós temos o bolsonarismo sendo colocado aí nas urnas. Os outros candidatos que estão pontuando já se colocam como candidatos que já vão apoiar no segundo turno uma determinada figura.
A população não enxerga alternativas para furar essa bolha. Consigo enxergar um cansaço do eleitor. Ele viu que esses discursos de lacração da classe política como um todo, do Congresso Nacional, para ter 2 milhões, 3 milhões de likes e não sei o quê. Falar de coisas banais que não colocam comida na mesa do cidadão. A maior parte da população brasileira, que sequer acompanha a política pelas redes sociais – acompanha de diversas formas – está vendo a radicalização, esse discurso de ódio.
Não existe polarização do lado de cá. A defesa da Constituição, e dos direitos para impedir retrocesso, não é polarização. Eu falo que há uma divisão do país que queremos. Essa coisa que beira o irracional dos preconceitos, e tudo mais que acontece nas redes sociais, não é isso que a população brasileira quer. A população brasileira sequer quer armas, que é uma ilusão da extrema direita. Temos uma janela de oportunidade que está se fechando, não só nas terras raras. Precisamos avançar em educação formal, em produtividade do trabalhador. Sei que São Paulo é um ponto fora da curva em muitas questões. Mas tem problemas aqui que o Brasil não tem.”
Segurança pública
“Nós temos um problema de segurança pública, violenta. O Estado tem uma marca dolorosa, vergonhosa, que é de ser o Estado mais violento contra as mulheres. Estamos falando de um feminicídio por dia no estado de São Paulo. Nós temos furtos de celulares como nunca antes. Isso tudo para dizer o seguinte: Temos problemas muito mais sérios do que a discussão do nome de uma família ou de uma divisão que só gera ódio na população brasileira. E que bom que esse cansaço está acontecendo, porque é só assim que a gente vai tirar o Brasil da crise. É só assim que a gente vai avançar com políticas sociais, fiscais, com as reformas que nós precisamos fazer.”
Sequestro do orçamento
“Quando eu falo de reforma política, tem a do Legislativo. Temos que discutir esse vergonhoso sequestro do orçamento brasileiro por emendas parlamentares no Congresso Nacional. Eu não sou contra as emendas. É um valor pequeno para você poder atender municípios pequenininhos, que às vezes não conseguem chegar em Brasília e pedir verba para fazer a ponte, para recapear, para chegar na escola, comprar tablet para os alunos, tudo bem.
“Temos que discutir esse vergonhoso sequestro do orçamento brasileiro por emendas parlamentares no Congresso Nacional”
Mas hoje eu falo com toda a tranquilidade. Todo o orçamento discricionário livre do Congresso do orçamento brasileiro, tirando as despesas obrigatórias (Previdência, folha de pagamento, educação, saúde, etc.), o que sobra é algo em torno de R$ 200 bilhões, olhe lá, para atender o Brasil inteiro com esse valor. O restante fica na mão do Congresso Nacional. Eu estou falando de um parlamentar que antes tinha R$ 15 milhões para atender os municípios e hoje tem R$ 120 milhões por parlamentar. Aí o que acontece quando eu preciso de recursos para fazer as políticas públicas necessárias, obras de investimento, etc., o governo não tem orçamento e o Congresso fica distribuindo: “quem quer dinheiro?”.”
Siga o Neofeed nas redes e tenha mais informações
Fonte: Neofeed
