O limite da renda fixa: fundos de pensão ensaiam (lentamente) o retorno ao risco

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As entidades fechadas de previdência complementar fecharam 2025 com R$ 1,374 trilhão sob gestão e mais conservadoras do que nunca. A alocação em renda fixa chegou ao recorde de 85,2%, quase dez pontos percentuais acima de quatro anos atrás. Na outra ponta, a renda variável caiu para mínimas históricas, em 7,6%, segundo a Abrapp.
Apesar desse conservadorismo extremo, começa a surgir um movimento — ainda tímido — de reaproximação dos ativos de risco. Consultorias e fundações ouvidas pelo NeoFeed apontam que, embora a renda fixa siga dominante, há sinais de que o limite desse crescimento está próximo e que a diversificação pode voltar a ganhar espaço.
A primeira é que a indústria de previdência complementar fechada mudou nos últimos anos com o crescimento de planos mais novos de Contribuição Definida, os CDs, e de Contribuição Variável, os CVs, e que permitem que o participante escolha o seu perfil de risco. Mais da metade desses planos já permite a escolha de perfis.
A possibilidade de escolher perfis de risco transformou o comportamento dos participantes. Eles passaram a comparar seus resultados com os da previdência aberta e de outros produtos financeiros. E, como a média da indústria ficou abaixo do CDI — com CDs rendendo 14% e CVs 13,6% — cresce a pressão para que as entidades aceitem mais volatilidade quando houver migração para perfis moderados e arrojados.
Um estudo da Aditus, com 140 fundações que somam R$ 481 bilhões, mostra que 43 delas já oferecem essa escolha. Nos 12 meses até março, houve aumento de mais de sete pontos percentuais no perfil conservador, que chegou a 40% da amostra — um dos fatores que explicam o avanço da renda fixa em 2025.
Mas esse quadro começa a mudar. A consultoria já identificou migração positiva para perfis mais arrojados em janeiro e fevereiro, com alocações superiores a 20% em renda variável, que devem ser implementadas em breve.
O caso da Vexty, antiga Odebrecht Previdência, é um exemplo. A entidade, que tem mais de R$ 5,5 bilhões no Plano Vexty, possui cerca de 82% do portfólio consolidado em renda fixa local, tanto pós-fixada atrelada à Selic quanto indexada à inflação.
Segundo Vinicius Narcizo, diretor de investimentos e finanças da Vexty, essa alocação reflete o cenário de juros altos, mas também o perfil dos participantes.
“Nossos participantes ainda estão predominantemente no perfil conservador”, diz. “Nos perfis mais longos, recomendados para participantes com horizonte extenso de acumulação ou maior tolerância a risco, faz sentido uma maior exposição a ativos com maior volatilidade no curto prazo, mas com maior expectativa de retorno no longo prazo.”
Neste ano, no entanto, já houve um movimento para os perfis moderados e arrojados, que permitem alocação de 20% em renda variável ou mais, dependendo da política de cada plano.
Segundo Guilherme Benites, sócio da Aditus, a amostra acompanhada pela consultoria já mostrou uma migração positiva em janeiro e fevereiro para perfis mais arrojados, que possuem mais de 20% de alocação em renda variável. Que serão implementados em breve de acordo com as regras de cada plano.
“Agora com os perfis o participante decide a alocação, e à medida que fiquem mais arrojados, os gestores precisam mudar rápido. E, como os planos CDs estão em caixa, no CDI, isso pode acontecer bem rápido”, diz.
O retorno da bolsa em 2025 pode ter acendido o alerta para os participantes trocarem de perfil. O Ibovespa subiu 33,95%, e as entidades capturaram bem isso, com retorno médio de 40,54%, muito acima dos 11,73% entregues pela renda fixa. Mas a bolsa quase não estava nas carteiras, o impacto sobre o resultado consolidado foi limitado.
Principalmente se a Selic cair e o CDI perder atratividade, esse movimento de migração de perfil pode ganhar força. O consenso do mercado é que a taxa chegue a 13% no fim do ano. Mas, para especialistas, é a partir de 12% que o mercado deve começar a se mexer mais.
“O 1% ao mês é a maldição do mercado brasileiro”, afirma Benites. “Com CDI mais baixo, o participante vai ter que diferenciar os investimentos de longo do curto prazo.”
O que também não ajudou a diversificação nos últimos anos foi o desempenho dos gestores de classes de ativos mais arriscadas. Apesar da recuperação da bolsa em 2025, o histórico anterior ainda pesava na tomada de decisão das fundações.
“O histórico recente é de baixa performance das classes somada aos maus resultados da gestão ativa, que performou abaixo dos índices na maior parte do período, desincentivando a alocação”, afirma José Carlos Lakoski, diretor financeiro da Fundação Copel, com R$ 15 bilhões sob gestão.
Para Marco Tulio Coutinho, vice-presidente de clientes institucionais da Brunel, esse pessimismo com a performance dos fundos ativos pode levar as fundações a diminuírem a equipe que seleciona esses gestores e preferirem a alocação via ETFs, que permite agregar risco de forma mais rápida caso necessário e retirar também.
“Selecionar gestores é um processo longo e que demanda muito trabalho. Caso o fundo não vá bem, o gestor é questionado pela sua escolha. Então, porque tomar esse risco?”, afirma.
O segundo ponto é que nos planos em que há menos incentivo para diversificar e mais necessidade de casar ativos e passivos, esse processo já está praticamente concluído. Ou seja, não deve puxar muito mais a alocação em renda fixa.
É o caso dos planos antigos, de Benefício Definido, os BDs, que representam 53% da indústria e nos quais o participante tem garantido um valor a receber na aposentadoria. Neles, o importante é bater a meta atuarial, hoje em torno de IPCA + 5,5%. Com as taxas de juros elevadas e NTN-Bs pagando acima de 7%, foi um movimento natural travar o passivo com esses ativos, em uma estratégia conhecida como “imunização de carteiras”.
A Vivest, quarto maior fundo de pensão do País, com R$ 42 bilhões sob gestão, é um exemplo desse movimento. Nos planos de Benefício Definido, a fundação avançou em 2025 no processo de imunização das carteiras, com a marcação na curva de parcela relevante dos títulos públicos. Com esse casamento já feito, não há grande incentivo para mudar a alocação.
“Essa estratégia reduziu a sensibilidade dos investimentos às oscilações de mercado e proporcionou maior equilíbrio entre os ativos e os passivos”, diz Paulo Werneck, diretor de investimentos da Vivest.
A FAPES, com R$ 17,5 bilhões sob gestão, também avançou nessa direção. No plano de benefício definido da fundação, cerca de 75% da carteira está imunizada. O movimento foi financiado pela alienação de investimentos imobiliários e pela redução da exposição a classes de maior risco, como renda variável, exterior e crédito privado. A exposição a multimercados está zerada desde 2022.
“Sacrificamos um ano de retorno relativo para ganhar previsibilidade e retorno real por mais de 30 anos”, afirma Leonardo Mandelblatt, diretor de investimentos da FAPES.
Em 2025, o plano de benefício definido da FAPES teve rentabilidade de 13,1%, abaixo do CDI, mas equivalente a cerca de 130% da meta atuarial.
Na média da indústria, os planos BDs tiveram rentabilidade de 13,2% no ano passado, abaixo do CDI de 14,3%.
O que esperar então ao longo deste ano?
O NeoFeed conversou com cinco fundações para entender se elas já estão aumentando a exposição ao risco neste ano ou estruturando essa virada, e quais ativos podem crescer nos portfólios.
Na Vivest, a queda dos juros já entra no radar como um fator capaz de mudar a dinâmica de alocação.
“Quando os juros reais começam a cair, naturalmente cresce a necessidade de buscar mais diversificação e ampliar exposição a ativos de risco”, afirma Werneck. “Em alguns momentos, o portfólio precisa realmente ficar um pouco mais apimentado, mas sempre com responsabilidade e processo.”
A fundação diz avaliar oportunidades em renda variável, infraestrutura e crédito, sempre respeitando o perfil dos planos e os limites de risco. A lógica, segundo Werneck, é buscar uma carteira mais equilibrada e preparada para diferentes cenários.
Na FAPES, a leitura é mais cautelosa devido ao cenário de incerteza geopolítica. Ao mesmo tempo, a fundação acredita que essa volatilidade pode trazer oportunidades táticas interessantes ao longo do ano.
“Entendemos que somos mais bem remunerados por esperar, mantendo parte da carteira em CDI e capturando o carrego elevado das NTN-Bs”, afirma Mandelblatt. “A retomada de risco tende a ocorrer de forma gradual e disciplinada, aproveitando janelas específicas de estresse de mercado.”
Na Vexty, a queda da Selic também pode abrir espaço para ativos de risco, mas aos poucos. Como os perfis já são estruturados de acordo com horizonte de investimento e tolerância a risco, os ajustes tendem a ser graduais e dentro dos limites de cada carteira.
“Em um contexto de queda da taxa Selic, é natural que ativos de risco ganhem atratividade relativa, e isso pode abrir espaço para movimentos táticos dentro das carteiras, seja aumentando marginalmente a exposição a renda variável, seja explorando oportunidades em crédito privado, multimercados ou até alocações internacionais”, diz Narcizo.
Na Fundação Copel, a postura ainda é cautelosa. “A alocação estratégica definida na Política de Investimentos para o ano ainda carrega menor risco do que historicamente”, diz Lakoski. O cenário, segundo ele, ainda combina juros altos, turbulência geopolítica e volatilidade típica de ano eleitoral, embora a fundação possa fazer ajustes táticos se entender que algumas classes ficaram atrativas.
E a fundação Fachesf, com cerca de R$ 9 bilhões sob gestão, acredita que já está bem posicionada nos seus planos CDs para o cenário atual, com 6% de alocação em ações e 10% em estruturados, que incluem multimercados, fundos imobiliários e fiagros.
“Os planos CD já possuem exposição relevante a ativos de risco, o que permite capturar eventuais ganhos em um cenário de fechamento de juros e valorização dos ativos. Já posicionamos a carteira para um possível ciclo de queda de juros”, afirma Kepler Dias, gerente de investimentos da Fachesf.
As eleições presidenciais no fim do ano adicionam mais uma camada de volatilidade aos portfólios. No momento, as fundações observam o cenário e mantêm alguma flexibilidade em caixa, justamente porque o ruído eleitoral pode abrir oportunidades em ativos que ficaram fora do radar nos últimos anos.
“Períodos eleitorais costumam gerar mais volatilidade e, portanto, também oportunidades. Com o CDI em patamar elevado, faz sentido carregar um pouco mais de caixa para preservar flexibilidade e capturar movimentos mais agudos de mercado”, afirma Mandelblatt.

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Fonte: Neofeed

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