Com mais de R$ 2 bi em caixa, Fleury faz “análise clínica” para novos M&As. Mas há desafios

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Com atuação direta em 14 estados e market share de 13% no mercado de medicina diagnóstica, o grupo Fleury enxergou nas aquisições uma avenida forte de crescimento nos últimos anos. De 2017 até agora, a empresa realizou 22 M&As, com investimentos de R$ 2,4 bilhões.
Esse movimento fez com que a empresa saltasse de um faturamento de R$ 4,2 bilhões, em 2021, para uma receita total de R$ 9,2 bilhões, levando em conta o cenário anualizado do primeiro trimestre de 2026. O crescimento no período alcançou 119%.
Mas hoje o cenário sobre novas aquisições é um pouco diferente. Dado um cenário macroeconômico ainda mais desafiador, principalmente a partir de uma taxa Selic atual a 14,25% ao ano, o foco é ter um “diagnóstico” ainda mais criterioso.
Tanto é que, do fim de 2024, quando efetivamente a taxa de juros passou a subir mais rápido até chegar ao pico de 15%, até agora, das 99 propostas de possíveis aquisições estudadas pela companhia, somente cinco acabaram se concretizando. Entre elas, o grupo São Lucas, Hemolab e Femme. Nestas compras, o aporte total do Fleury foi de R$ 480 milhões, justamente com aquisições menores.
“Hoje o custo de capital está muito alto. Todo o processo de consolidação de vários setores diminuiu com esta alta dos juros. O Fleury não parou, mas continua fazendo aquisições pequenas, a partir de ativos maduros que já geram caixa”, diz Jeane Tsutsui, CEO do grupo Fleury, em entrevista ao NeoFeed.
Neste contexto, a empresa mirou em empresas justamente em regiões em que a companhia não tinha presença física relevante com sua marca, como o interior de São Paulo, para ganhar participação. Um exemplo foi a compra da Confiance, da região de Campinas, por R$ 130 milhões.
“Na cidade de São Paulo a gente tem uma penetração muito alta. Mas tem o interior. A gente entrou agora em muitas cidades, como Rio Claro, Vinhedo, Hortolândia e Campinas. Hoje nós só estamos nos grandes centros econômicos”, explica Tsutsui. “Há muitos municípios para avançar.”
Mesmo com participação relevante no setor, a empresa está hoje em 65 cidades no Brasil, o que, de fato, mostra uma grande concentração nas principais regiões metropolitanas. E é justamente nesta avenida para cidades menores, com bom potencial econômico, que o Fleury transita.
Atualmente, o grupo tem sob controle 39 marcas, ainda que a força maior esteja sob o nome do Fleury. Ao todo, são 570 unidades de atendimento no Brasil.
Mas, com tantas marcas menores entrando no guarda-chuva da empresa de medicina diagnóstica, há um grande desafio, que é de manter a mesma rentabilidade da marca principal do grupo.
Segundo o Itaú BBA, a tese de aquisições traz justamente uma preocupação sobre a manutenção da margem. Segundo o banco, a previsão é que a empresa registre uma contração de 20 pontos-base no Ebitda, em 2026, em comparação com o ano anterior.
“A dinâmica das margens será afetada por fusões e aquisições (M&A) em 2026. Esse tema permanece como um ponto central de discussão na tese de investimento do Fleury”, dizem os analistas Vinicius Figueiredo, Lucca Marquezini e Felipe Amancio em relatório divulgado em junho.
Eles afirmam que a aceleração da marca Fleury continuará sustentando a lucratividade da companhia e que a captura de sinergias administrativas e ganhos de escala contribuirão para maior alavancagem operacional. No entanto, a expansão de outras marcas, com margens mais baixas, deverão reduzir a rentabilidade consolidada da companhia.
No próprio balanço do primeiro trimestre, a empresa indica uma estabilidade da margem Ebitda no período, sem crescimento expressivo. O indicador alcançou 27,3%, contra 27,2% do primeiro trimestre do ano anterior. No consolidado de 2025, a margem Ebitda teve zero de crescimento.
Justamente por isso, cada M&A tem sido avaliado com lupa. Com cerca de R$ 2,2 bilhões em caixa, a companhia avalia três pontos centrais. O primeiro deles é estratégico, se o ativo está em uma área em crescimento e com boa penetração na saúde suplementar.
Outro aspecto é o cultural, levando em conta se a marca é forte na cidade, tem história relevante e se tem bom relacionamento com pacientes e médicos. “Em geral, a gente adquire o principal ou o segundo maior ativo de uma determinada região”, afirma.
O terceiro aspecto, aí sim, é o econômico-financeiro. “Comprar caro pode significar destruir valor. Nosso múltiplo hoje [EV/Ebitda] é de 5,5 vezes. Se eu pagar acima disso, está caro. Há 22 mil laboratórios no Brasil. Mas eles estão à venda ou em uma região boa? É essa conta que precisa ser feita”, diz.
Neste horizonte, ainda há uma condição importante para que o negócio seja, de fato, fechado: o tamanho do cheque assinado não pode colocar em risco a disciplina financeira e nem afetar a alavancagem do grupo, que hoje está em 1 vez a relação dívida líquida sobre o Ebitda. Se essa variável for afetada de forma significativa, o negócio não fecha.
“A gente deve ficar entre 1 e 1,2 vez até o fim do ano, com essas pequenas aquisições. A gente tem espaço, mas é preciso fazer muito cálculo. Eu não preciso comprar. Eu compro se tiver uma boa oportunidade e se tiver uma convergência em todos os pilares”, completa.
Em 2023, o grupo comprou o Hermes Pardini, em uma das maiores transações da empresa que completou 100 anos em 2026, e ampliou sua atuação no cenário B2B, conhecido como lab to lab.
Neste segmento, o Fleury tem parcerias com cerca de oito mil laboratórios em 2,2 mil municípios. Por esse canal, a empresa atende outros laboratórios menores, que contratam o Fleury e enviam as amostras para a realização dos exames.
Segundo a CEO do Fleury, as aquisições são importantes para a ampliação do resultado financeiro, mas a companhia também foca no crescimento orgânico. No primeiro trimestre, o faturamento cresceu 10,1% sobre o ano anterior, e alcançou R$ 2,4 bilhões. O lucro foi 12,2% acima da mesma base de 2025.
Do total da receita da companhia, 91% vêm justamente do core business, que é medicina diagnóstica. Nesta conta, o segmento B2C, a partir das unidades próprias e de exames diretos dos pacientes, responde por 70%.
O lab to lab corresponde hoje a 21% do faturamento. E os outros 9% são do segmento chamado de novos elos, com presença em outros serviços nos segmentos de oncologia, ortopedia, oftalmologia e infusão de medicamentos.
O “não” para a compra da Oncoclínicas
Ainda que o raciocínio agora seja de comprar ativos menores, a empresa não descarta a possibilidade de uma aquisição considerada “transformacional” pela companhia, como foi o caso do Hermes Pardini.
E justamente a partir deste contexto de olhar para oportunidades maiores que surgiu o interesse inicial do Fleury pela Oncoclínicas, companhia que se viu envolvida no escândalo do Banco Master e que afetou diretamente a operação.
No fim de março, a companhia anunciou a adesão a um termo de compromisso para a criação da NewCo, pela Fleury e Porto, e investimentos de R$ 500 milhões de cada uma. A Oncoclínicas entraria com os ativos e operações das clínicas oncológicas, e seus passivos no valor de até R$ 2,5 bilhões. Só que, menos de um mês depois, as conversas foram encerradas.
Segundo Tsutsui, faltou tempo para uma análise mais apurada. Para a executiva, seriam necessários meses para uma diligência bem detalhada dos números da companhia. “A Porto entrou e nos convidou para avaliar, porque sabe que a gente entende do negócio ambulatorial. A capilaridade da empresa é grande, de um serviço que para nós faria sentido. Mas a gente só teve três semanas para avaliar”, explica.
A CEO diz que a empresa chegou a pedir mais prazo, mas a urgência da Oncoclínicas em encontrar uma saída para a crise inviabilizou a ampliação do tempo. “É um ativo grande, com R$ 6 bilhões de receita. A gente até pediu, mas não foi possível negociar. E a gente não queria atrapalhar o momento deles”, afirma.
Na prática, o Fleury hoje já tem uma atuação neste segmento, a partir da Croma Oncologia, uma joint-venture em parceria com a Beneficência Portuguesa (BP) e a Atlântica Hospitais, que hoje integra a Bradsaúde. Mas a penetração ainda é pequena. Por isso, a compra da Oncoclínicas faria sentido.
“É o mesmo segmento, mas a Croma tem quatro unidades. E a Oncoclínicas tem 148. Unidade ambulatorial é justamente o nosso DNA. Seria uma forma de crescer mais rápido. Onde eu não consigo crescer organicamente, eu faço por aquisições.”
Com 33% de participação na Croma, o Fleury não consolida o resultado financeiro da JV em seu balanço. Agora, para o CEO do Fleury, a Oncoclínicas é página virada. Com a saída das negociações, ela deixa a prateleira de uma possível aquisição futura.
Por ano, o grupo Fleury processa 368 milhões de exames laboratoriais. O maior volume é de coletas de sangue.
No acumulado de 2026, as ações FLRY3 na B3 registram alta de 5,5%. Em 12 meses, a valorização é de 20,3%.
O balanço de resultados do segundo trimestre será divulgado no dia 6 de agosto. O grupo Fleury tem valor de mercado de R$ 8,5 bilhões.

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Fonte: Neofeed

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