Munique Busson conta como a fé transformou sua forma de agir nas operações e deu novo sentido à rotina na corporação

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No front mais sensível da segurança pública do Rio de Janeiro, onde decisões cabem em segundos e o risco é rotina, a trajetória da policial Munique Helena Busson passou a incorporar um elemento que não aparece nos relatórios operacionais: a fé. Entre incursões em áreas conflagradas e a exposição nas redes sociais, a militar encontrou na espiritualidade um eixo que reorganiza não apenas sua vida pessoal, mas também o sentido da própria farda.

Aos 37 anos, nascida em São Gonçalo, leste fluminense, Munique ingressou na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em dezembro de 2015. Desde então, acumulou passagens por Unidades de Polícia Pacificadora e operações em territórios considerados dos mais problemáticos do estado, como os complexos da Penha e do Alemão. Foi nesse ambiente de tensão constante que, de forma quase paradoxal, ela afirma ter encontrado espaço para algo silencioso: a construção de uma vida espiritual.

A visibilidade nacional veio acompanhada de controvérsia. Nas redes sociais, onde soma mais de 800 mil seguidores, Munique ganhou destaque ao rebater críticas da professora Jacqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense, defendendo a atuação policial e expondo o cotidiano da tropa. O episódio a projetou ainda mais, levando-a a programas e entrevistas, além de consolidar sua presença como apresentadora do podcast Papo Reto. Mas, por trás da firmeza pública, uma narrativa mais íntima começava a se desenhar.

Munique Helena Busson

Evangélica e convertida já na vida adulta, a policial descreve sua aproximação com a fé como um processo gradual, marcado por rupturas pessoais. “Eu comecei a orar já adulta, por volta dos 30 anos. Não foi algo que veio de uma criação cristã ou de uma orientação espiritual dentro de casa. Pelo contrário, eu cresci sem uma referência paterna e isso sempre trouxe uma dificuldade muito grande de entender o amor de Pai, de confiar, de me sentir cuidada”, relata.

Antes disso, sua visão de mundo era pautada pela autossuficiência. “Talvez por isso, por muito tempo, eu achei que bastava não fazer mal a ninguém e seguir a vida do meu jeito. Não acreditava no mundo espiritual, não tinha esse entendimento, e achava que ser uma pessoa correta já era suficiente”, conta.

Primeiro contato espiritual

O primeiro contato mais profundo com a espiritualidade surgiu durante um trabalho como segurança em uma igreja. “Eu estava ali por causa do trabalho, não por fé. Mas foi naquele ambiente que comecei a ver coisas que eu não conseguia explicar. Vi o agir de Deus na vida de outras pessoas, vi transformação, gente sendo restaurada”, lembra.

A virada definitiva, no entanto, veio em meio à dor. “Em janeiro de 2024 veio um dos momentos mais difíceis da minha vida: descobrimos o câncer da minha mãe”, relata. Quinze dias antes de morrer, no dia 1º de abril, a mãe, que era espírita, tomou uma decisão que marcou profundamente a policial.

“No dia 1° de abril, no leito, minha mãe aceitou a Jesus. Eu estava ali. Eu vi. Eu senti. Aquilo me impactou profundamente, mexeu com tudo dentro de mim”, conta. Mesmo assim, a sua decisão final levou tempo:

“Eu queria me batizar, mas sempre acontecia alguma coisa. Sempre surgia um impedimento, uma dúvida, um medo. Hoje entendo que existia uma luta espiritual e também uma luta dentro de mim, porque confiar em Deus como Pai não era fácil para alguém que nunca teve essa referência aqui na terra”, justifica.

A decisão pelo batismo

O desfecho veio em dezembro de 2025. “Finalmente, me batizei. E não foi sozinha. Me batizei junto com a minha filha mais velha. Não foi só um batismo, foi uma decisão, uma entrega, um posicionamento. Depois disso, muita coisa mudou dentro de mim, e isso refletiu diretamente no meu trabalho, na forma como eu falo, como me posiciono”, afirma a policial.

Em operações de alto risco, como as realizadas no Complexo do Alemão, essa convicção se traduz em algo invisível para quem observa de fora. “Hoje eu entendo que existe propósito, direção, proteção. A minha conversão não aconteceu de um dia para o outro. Foi um processo. Foi com dor, com dúvida, com resistência, mas foi real”, afirma.

No Brasil, onde a violência estrutural e a religiosidade frequentemente caminham lado a lado, a história de Munique Busson sintetiza essa tensão sem transformá-la em contradição. “Hoje eu sei que a fé que eu vivo não é emoção, não é aparência, não é tradição. É experiência. É vida. É transformação”, conclui.

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