Ler Resumo
Há um corredor quase totalmente escuro na sede da Gucci, nos arredores de Milão, na Itália, que leva até o escritório de Demna. Paredes pretas, chão preto, teto preto, tudo preto até um túnel que termina em luz quando a porta se abre. O próprio estilista brinca com a metáfora: é um “reset”. A imagem parece feita sob medida para o momento da marca e para o enorme desafio que ele aceitou.
Quando Demna foi anunciado como diretor criativo da Gucci, no ano passado, o choque foi imediato. O designer que transformou a Balenciaga em um fenômeno cultural, com desfiles apocalípticos e streetwear conceitual, agora teria nas mãos a maison italiana mais importante do grupo Kering. Não é pouca coisa: a Gucci responde por cerca de 40% da receita do conglomerado e emprega mais de 17 mil pessoas. E vinha de uma queda abrupta.
Entre 2022 e 2025, o faturamento despencou de cerca de 10,5 bilhões para 6 bilhões de euros — resultado de uma tentativa frustrada de virar a página após a saída de Alessandro Michele e apostar no “quiet luxury” de Sabato De Sarno. Demna foi, nas palavras do mercado, um verdadeiro “Hail Mary”: a jogada de desespero para salvar a galinha dos ovos de ouro da Kering.
Seu primeiro grande teste veio agora, em Milão. E, como esperado, dividiu opiniões. O desfile tinha ares de museu clássico — com esculturas de mármore falso lembrando deuses romanos —, mas o clima era outro: um retorno explícito ao fetiche sexy que marcou a era Tom Ford nos anos 1990. Não por acaso, quem fechou o desfile foi Kate Moss, aos 52 anos, em um vestido preto de paetês aberto nas costas que revelava uma calcinha fio dental com o duplo G em diamantes — referência direta ao lendário logo thong lançado por Ford em 1997.
A coleção mergulhou nesse imaginário de sensualidade exagerada: vestidos colados como meias, camisetas encolhidas abraçando o corpo, jeans quase como leggings e saias lápis tão justas que pareciam pintadas. Nos pés, saltos-agulha perigosos. Nos materiais, brilho, couro metálico e malhas de cristal. Era Gucci em modo bodycon, sem qualquer sutileza.
A estratégia parecia clara: recuperar o desejo que fez a marca explodir nos anos 1990. Mas, segundo parte da crítica internacional, algo ainda não encaixou. O “The New York Times” apontou que, apesar da atitude e das referências certas, faltou justamente o elemento que tornava o Gucci de Tom Ford irresistível: aquela sensação hedonista e libertária que fazia a moda parecer divertida e perigosa ao mesmo tempo. O resultado, para alguns, soou mais calculado do que espontâneo. Mas é fato que, mesmo já acontecendo a semana de Paris, só se fala na Gucci.
Ainda assim, havia boas ideias. As bolsas — coração comercial da marca — surgiram fortes, com releituras da Jackie 1961 e da Bamboo 1947. O desfile também costurou referências às várias eras recentes da casa: da estampa Flora dos tempos de Frida Giannini ao maximalismo de Alessandro Michele. Era quase um inventário da memória Gucci.
O próprio Demna parece estar em uma fase de reinvenção pessoal. Depois de uma década criando moda sombria e provocadora, ele fala agora em diversão, leveza e até bem-estar — fruto de anos de terapia, mudanças de vida e um ritmo mais saudável. Quer construir o que chama de “Gucci Core”, um guarda-roupa essencial da marca, ao lado das coleções de passarela.
Mas a pergunta é inevitável: será que ele consegue repetir o milagre que Tom Ford fez em 1995, quando transformou uma Gucci decadente na marca mais desejada da década? Por enquanto, o primeiro capítulo dessa nova fase deixa claro uma coisa: Demna não pretende ser discreto. E talvez seja exatamente isso que a Gucci precise. Ou não.




Fonte: veja.abril
