O ano mal começou e o repolho já roubou a cena. Sim, aquele vegetal humilde que costuma dividir espaço no prato virou protagonista nas cozinhas mais criativas de São Paulo — e do mundo. Segundo o Pinterest Predicts 2026, relatório que antecipa as principais tendências do ano, o repolho é a grande aposta para os próximos meses. E não é à toa: versátil, acessível e cheio de possibilidades, ele vem ganhando espaço em preparos que vão muito além da tradicional salada.

No Ikemem Ramen, repolho entra no lamen vegetariano Foto: Luiz Vinhão/Divulgação
Nos últimos meses, as buscas por “guioza de repolho” cresceram 110% na plataforma. Receitas como “bok salteado com shoyu” e “repolho fermentado” também registraram alta de mais de 35%. O movimento reflete uma gastronomia mais consciente, que valoriza ingredientes simples e explora suas múltiplas facetas — da crocância ao sabor defumado, da fermentação à textura sedosa quando cozido lentamente.
O fenômeno não é passageiro. Há alguns anos, ingredientes como couve-flor e cogumelos já haviam conquistado espaço semelhante nos cardápios, mostrando que a valorização de vegetais deixou de ser nicho para se tornar mainstream. O repolho, porém, traz um diferencial: é democrático. Encontrado em qualquer feira ou mercado, com preço acessível e disponível o ano todo, ele representa uma gastronomia que dialoga tanto com a alta cozinha quanto com o dia a dia das casas.
“O repolho é um ingrediente que surpreende justamente pela simplicidade”, afirma o chef Fábio Lazzarini, do Varanda Dinner. “Quando bem trabalhado, ele ganha camadas de sabor, textura e profundidade, seja cru, fermentado, grelhado ou lentamente cozido. Ver o repolho despontar como uma das tendências de 2026 mostra uma gastronomia mais consciente, que valoriza o produto em si e explora ao máximo suas possibilidades criativas, sem excessos”.

Varanda Dinner serve Fish Sando com repolho Foto: Henrique Peron/Divulgação
Da brasa ao fermentado: as múltiplas faces do repolho
No Bodega Pepito, o chef Oscar Bosch prova que criatividade é a palavra-chave quando o assunto é repolho. Ele desenvolveu uma receita de repolho na brasa que foge completamente do esperado. “Queria ter uma seção só de vegetais no cardápio, e um dos ingredientes de que mais gosto é o repolho. Acrescentei amendoim, que traz um toque torrado, chili oil e parmesão. Esses ingredientes, combinados com o repolho na brasa, funcionam muito bem”, explica. Para o chef, o segredo está na técnica. “O repolho pode ser preparado na brasa, no forno ou na frigideira. Temos que ser criativos”, diz.
A versatilidade do vegetal também conquista quem busca opções vegetarianas saborosas. No Ikemen Ramen, o chef Takamasa Kurachi destaca o papel do repolho em pratos que não abrem mão de sabor. “Temos muitos pratos vegetarianos que entram em destaque, como o ramen veggie, feito com cebolinha, repolho, mini milho e carne de soja”, conta. A textura do repolho no caldo quente do ramen, levemente cozido mas ainda com alguma firmeza, é um exemplo de como o vegetal se adapta a diferentes preparos sem perder a identidade.
Para Thiago Cerqueira, dos bares Guilhotina e O Carrasco, o repolho tem um trunfo especial: a capacidade de surpreender. “Repolho pode ser sempre aquela surpresa do prato. Ele pode dar crocância, ele tem como agregar sabor, ele pode entrar como um veículo que liga os demais ingredientes. É interessante ver que ele ganha o merecido protagonismo, além de ser um alimento fácil de encontrar, e fácil de trabalhar”, afirma. Essa flexibilidade faz com que o repolho transite com naturalidade entre preparos asiáticos, mediterrâneos e brasileiros, sempre agregando sem dominar.
A força da fermentação e a memória afetiva
A fermentação, aliás, é um dos caminhos que mais cresce quando o tema é repolho. O chef alemão Heiko Grabolle, do Biergarten Pomerânia, em Pomerode (SC), é categórico ao defender o chucrute. “No Biergarten Pomerânia, o chucrute não é apenas acompanhamento, é protagonista. A fermentação transforma o repolho em um ingrediente vivo, com múltiplas camadas de sabor e complexidade. Essa valorização dos fermentados é uma tendência forte para 2026, porque une técnica, benefícios à saúde e memória afetiva”, diz.
O chef alemão Heiko Grabolle com seu famoso joelho de porco Foto: Danilo/Biergarten Pomerânia/Divulgação
O interesse por fermentados não é novidade, mas ganha força em um momento em que as pessoas buscam não apenas sabor, mas também funcionalidade nos alimentos. O chucrute, rico em probióticos e com perfil ácido que equilibra pratos mais gordurosos, é um exemplo perfeito de como tradição e contemporaneidade caminham juntas. O processo de fermentação, que exige tempo e paciência, também dialoga com um movimento de valorização do slow food e de técnicas ancestrais de conservação.
Mas o repolho não precisa passar por processos elaborados para brilhar. Ele pode ser o coadjuvante perfeito em uma salada refrescante, o elemento crocante em um sanduíche, ou o protagonista grelhado que rouba a cena. De tacos a bifes vegetais, de sopas a bolinhos, o repolho está por toda parte. E a mensagem é clara: ingredientes simples, quando trabalhados com técnica e criatividade, são capazes de transformar qualquer prato em uma experiência memorável.
