Quem investiria em um vinhedo que ainda não originou nenhum vinho, apenas porque o enólogo afirmou (e insistiu na afirmação) que ele daria bons frutos? Assim começa a história do Talinay, uma propriedade de 500 hectares em Limarí, localizada a cerca de 400 quilômetros ao norte de Santiago, e que dá origem a um dos grandes brancos do Chile. Essa história só existe porque o empresário Guillermo Lukcis (1956-2013), então dono da Viña San Pedro, cedeu as insistências de Felipe Muller, enólogo da Viña Tabali, também de sua propriedade – e elas foram muitas.
Muller lembra bem do telefonema que recebeu em 2009, perguntando se ele se interessaria em comprar algumas uvas, então em sua primeira safra, de um vinhedo próximo à Tabali, ao lado do Parque Nacional Fray Jorge, declarado patrimônio da biosfera pela Unesco. Na época, os vinhedos de Limarí eram plantados em direção à Cordilheira da Costa, mas este, em direção oposta, tinha vinhas escondidas entre as colinas rumo ao oceano Pacífico. Ao visitar os vinhedos, Muller se encantou não apenas com as plantas, mas principalmente com o solo. O granito predomina na região, mas aquelas vinhas estavam cultivadas em rochas calcáreas, um solo que ele sempre procurou no Chile. “É o solo da Borgonha e sabemos da importância do calcário para os vinhos que queríamos elaborar”, conta Felipe Muller.

Subsolo de calcário Foto: Suzana Barelli
Saiu da visita tentando disfarçar o seu contentamento. Fez uma proposta para comprar as uvas – o que é comum no mundo do vinho –, mas ele queria mais. Queria ter aquele vinhedo para trabalhar, mesmo já contando com os vinhedos na viña Tabali, que fica a poucos quilômetros dali. Para azar de Muller, um dos quatro proprietários do vinhedo era Agustin Huneeus, considerado um visionário na história do vinho chileno. Huneeus fez carreira na Concha y Toro e foi um dos fundadores da vinícola Veramonte. Neste novo projeto, ele não queria vender as uvas e, menos ainda, a propriedade. Mas para a sorte do enólogo, Huneeus foi voto vencido entre os sócios, quando recebeu a proposta de Lukcis.
E assim começou a história da Talinay. Muller conseguiu convencer Lukcis a comprar a propriedade pelo seu entusiasmo mesmo antes do primeiro vinho ser elaborado. Ele temia que se os primeiros donos provassem um vinho feito com estas uvas jamais venderiam a propriedade, daí a sua pressa. E os argumentos técnicos de Muller mostraram se sábios. A 12 quilômetros do Pacífico, as vinhas de Talinay são moldadas pelo vento frio e pelo solo calcáreo. Com o tempo, foi até preciso colocar barreiras plásticas, além de árvores para proteger as vinhas deste vento constante.

Tela proteroa, utilizada para proteger as vinhas contra o vento Foto: Suzana Barelli
A paisagem revela a carência de água, pelos cacteos, de diversas espécies e formatos, e pelo solo agreste. Para as vinhas, que ocupam 50 hectares da propriedade, foi preciso investir na irrigação. Há um poço subterrâneo – a água foi encontrada a 190 metros de profundidade. É preciso estar atento à salinidade da água para o crescimento das plantas. Uma calicata, como são chamados os buracos cavados no solo, explica porque Mulher tanto quis este terreno: é um subsolo de muito calcáreo, que resulta nas notas minerais de seus vinhos.
“É um vinhedo diferente de tudo que aprendemos na faculdade”, conta Muller. E o resultado mostra-se na taça, com brancos e tintos de notas minerais, com muito frescor e complexidade no paladar. O branco premium vem de uma pequena parcela do vinhedo, chamado de Caliza, eleito o melhor branco chileno em 2025 por James Suckling, por exemplo. Na propriedade, há principalmente sauvignon blanc, chardonnay e pinot noir e, em menor proporção, malbec, cabernet franc e syrah cultivados.
Só um detalhe: não é apenas este vinhedo que faz a riqueza de Limarí. Há outros projetos de destaque nesta região ao norte do Chile, mas de solos diversos. Quebrada Seca é um deles. Mas esta é uma outra história, entre as tantas, dos enólogos desbravadores dos vinhos chilenos.
