O fundo que multiplicou 490 vezes em meio à disputa que expôs uma crise de governança no Toky

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No fim de dezembro de 2025, um fundo de investimento recém-constituído registrou uma valorização improvável e chamou a atenção do mercado financeiro.
Criado em 23 de dezembro, o DeLorean Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia declarou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) patrimônio líquido de R$ 36 mil em 29 de dezembro. Dois dias depois, em 31 de dezembro, informou o patrimônio de R$ 17,65 milhões.
Em 48 horas, houve um salto de cerca de 490 vezes, o equivalente a 48.934% de valorização em termos percentuais, segundo dados registrados na autarquia. Essa variação acionou os alarmes automáticos de supervisão e elevou a operação atípica à categoria de suspeita. E a CVM instaurou processo administrativo para investigar, segundo apurou o NeoFeed.
Essa valorização coincide com uma das reestruturações societárias mais complexas do ano passado, envolvendo a conversão de debêntures em ações do Grupo Toky, a holding que controla as marcas de varejo de móveis e artigos de decoração Mobly e Tok&Stok.
Com um balanço carregado por R$ 740 milhões em dívidas, a gestão da companhia promoveu um liability management, que combinou compra de debêntures, aumento de capital e conversão de títulos para reduzir o endividamento e simplificar sua estrutura financeira.
Em novembro de 2025, o conselho de administração do Toky aprovou um aumento de capital de cerca de R$ 25,4 milhões, por meio da emissão de mais de 25,3 milhões de ações ordinárias para viabilizar a conversão de debêntures em ações, reorganizando o capital social da companhia.
Esse montante encerrou a dívida de R$ 75 milhões que a Mobly herdou da Tok&Stok com a Domus, um fornecedor que aceitou um haircut de 60% e se tornou acionista do Toky.
Em 19 de dezembro, a companhia foi a mercado divulgar aviso aos debenturistas detalhando o funcionamento da fórmula e apresentando exemplo da aplicação, conforme documento que o NeoFeed teve acesso.
A conversão foi implementada entre 17 e 31 de dezembro. Em comunicado ao mercado divulgado em 30 de dezembro, o Toky informou que dois fundos (DeLorean FIP e TKM FIP) passaram a deter conjuntamente 19,4% do capital social após a operação, sendo aproximadamente 14,8% atribuídos ao DeLorean – posição acionária confirmada dois dias depois no patrimônio declarado à CVM.
Uma das etapas desse processo, divulgada em 29 de dezembro, envolveu compromissos de lock-up e restrições de transferência que visavam a limitar a pressão de venda técnica sobre ações recém-emitidas.
O Toky anunciou um acordo com a SPX Capital, que detém cerca de 13,1% do capital, para limitar a conversão de debêntures e restringir a venda de ações recebidas após a conversão.
Essa conversão de debêntures estava prevista no acordo feito em novembro de 2024 quando a Mobly adquiriu a Tok&Stok e, sem recurso para pagar dívida existente naquele momento com a SPX, emitiu títulos de dívida com cláusula de conversão. Na época, foi assinado que a SPX receberia R$ 9 por ação, corrigido por CDI+2%, caso esse movimento acontecesse antes de 2035.
Nessa conversão, a SPX recebeu cerca de 8,9 milhões de ações que, a preço de tela de R$ 0,57 do papel TOKY3, valem pouco mais de R$ 5 milhões.
Pessoas próximas à gestora contaram ao NeoFeed que, internamente, o valor da ação, hoje, não é o melhor indicador dado o endividamento do Toky. Se a empresa não conseguir pagar a dívida, essas ações não valem nada. Por isso, o movimento foi feito para sinalizar aos bancos a boa vontade de um credor relevante em manter a rede varejista em operação.
“Uma empresa do varejo que entra em recuperação judicial tem grandes chances de ficar insolvente pelo mau sinal para toda a cadeia de fornecedores”, afirma a fonte.
Em ofício encaminhado em 9 de fevereiro de 2026 à CVM – documento também acessado pelo NeoFeed -, o Grupo Toky informa que os termos da diluição sempre foram os mesmos, que o aditamento preservou direitos e o preço médio final da conversão da dívida em ações foi de R$ 2,32. A conversão permitiu a redução de R$ 153 milhões de dívida da companhia.
No entanto, todo esse movimento foi interpretado no mercado como uma forma de blindar o plano de reestruturação perante a ofensiva da gestora Buriti Investimentos.
É nesse momento que entra o DeLorean FIP. O NeoFeed apurou com pessoas próximas à transação que o veículo foi criado, especificamente, para adquirir a posição da SPX que estava sendo negociada.
“É um fundo de mercado, com vários cotistas e com investidores que estão alinhados com a empresa. O veículo foi criado para fazer a transação”, afirma essa fonte, que é próxima à DSK Capital, responsável pela gestão do fundo.
Embora a reestruturação do grupo varejista não tenha começado com o DeLorean FIP e vinha acontecendo via pacote de medidas corporativas para reduzir o endividamento e reorganizar sua base acionária, o episódio derradeiro, que culminou na entrada expressiva de fundos via conversão no fim de 2025, é o responsável por gerar a investigação da CVM.
“Retornos elevados existem. Reestruturações podem gerar ganhos expressivos. O que chama atenção não é apenas o tamanho do retorno, mas a combinação de fatores, com a criação do fundo dias antes da operação, a concentração integral em um único ativo único e a valorização”, diz uma fonte de mercado ao NeoFeed.
“Além disso, a operação societária é contestada, com denúncia formal ao regulador e ação judicial”, complementa.
O NeoFeed teve acesso a documentos protocolados na CVM pelos conselheiros independentes Daniel Alberini e Márcio Campello e fundos minoritários que questionam a legalidade e a transparência da operação.
Em documento encaminhado à autarquia, Alberini relata “indícios de inconsistência material entre disclosure e execução” e menciona suspeitas de fraude informacional e societária.
Já Márcio Campello, que assumiu a cadeira em 17 de outubro do ano passado, afirma que a modelagem da conversão teria provocado “gigantesca diluição” dos minoritários e sustenta que as premissas apresentadas ao Conselho não se confirmaram na prática. Ambos renunciaram aos assentos no board em janeiro deste ano.
Os conselheiros independentes alegam, também, de que as informações disponibilizadas ao mercado não seriam suficientemente claras ou completas para permitir avaliação adequada dos termos econômico-financeiros da operação.
No documento em resposta às acusações encaminhado à CVM, o Toky argumenta que todo o mecanismo foi amplamente divulgado e que a narrativa de “ultra diluição” desconsidera a estrutura original dos títulos.
“A empresa reduziu seu endividamento com um preço médio de R$ 2,32 enquanto a ação valia, naquele momento, um real. Houve, sim, um ágio de mais de 130%”, afirma um gestor comprado no papel.
No entanto, um investidor institucional chama a atenção para o que diz a CVM 175, uma resolução que fala que administradores e gestores de fundos têm de operar sob regime explícito de responsabilidades quanto à compatibilidade das operações com preços e condições de mercado.
“Nesse caso, as perguntas que ficam são: houve verificação independente de preço? Houve avaliação econômica consistente? Quem formou o valor? Quais controles foram acionados?”, afirma esse investidor.
Na resposta enviada à CVM, o Toky informou que o preço não foi “formado” discricionariamente pela administração nem por qualquer fundo beneficiário. Segundo a carta, “a conversão decorreu de fórmula previamente pactuada na escritura das debêntures e em seu aditamento, baseada em parâmetros objetivos, especialmente preço médio ponderado por volume (VWAP) e critérios contratuais já divulgados ao mercado”.
A companhia afirma ainda que a conversão estava inserida em plano de redução da dívida e que “o processo foi conduzido com observância dos ritos formais, incluindo comunicação aos debenturistas e validação assemblear”.
Além disso, existe o questionamento sobre a validade e o processo de contagem de votos eletrônicos em assembleias que aprovaram partes do pacote societário. Por isso, há o pedido de preservação de registros digitais relacionados ao boletim de voto à distância (BVD).
Em pelo menos um dos relatos, um acionista minoritário alega que seu voto eletrônico, que supostamente é determinante para a aprovação da conversão, teria sido computado de forma indevida. Há o pedido de suspensão dos efeitos da assembleia em ação judicial.
Em comunicado ao mercado sobre a assembleia geral extraordinária (AGE) de 17 de dezembro, o Toky informou ter recebido tutela cautelar pré-arbitral proposta por acionista minoritário alegando que seu voto teria sido computado sem que ele tivesse participado da votação. A empresa declarou que o escriturador confirmou a validade do voto eletrônico e negou irregularidades
Todas essas alegações, segundo os documentos que o NeoFeed teve acesso, também foram mencionadas em petições à CVM, que abriu processo administrativo.
Fontes de mercado consultadas pelo NeoFeed afirmam que converter debêntures em ações de uma companhia podem, sim, gerar uma valorização patrimonial abrupta no veículo que detém essa dívida. No entanto, esse caso é atípico pela proporção do ganho declarado em dois dias, pela concentração em um único evento de reestruturação societária e pela falta de transparência do disclosure da transação.
Procurados, os conselheiros Daniel Alberini e Márcio Campello, o Grupo Toky e a SPX não quiseram se manifestar.

Fonte: Neofeed

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