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“Entregar moda por meio de uma plataforma gigantesca é eletrizante.” A frase dita pelo estilista John Galliano na semana passada indica ventos de mudança — e contém certo sabor irônico. Por décadas, afinal, seu nome foi sinônimo de luxo inacessível, de desfiles que mais pareciam óperas visuais, de roupas que povoavam vitrines e museus — mas não armários comuns. Agora, o criador britânico que ajudou a moldar o imaginário contemporâneo atravessa a rua mais movimentada da indústria: a que liga a alta-costura à fast fashion. A parceria de Galliano com a rede Zara, anunciada como projeto criativo de dois anos, marca o retorno do “enfant terrible da moda” ao ateliê — dessa vez, ao alcance de muito mais mãos.
Segundo a marca espanhola, ele reinterpretará criações clássicas da Zara por meio de uma série de coleções, trabalhando com peças de temporadas passadas, desconstruindo-as e transformando-as em novas roupas e acessórios, que começam a chegar às lojas em setembro. A novidade é um reposicionamento para ambas as partes — e reflete uma transformação silenciosa, mas profunda. Isso porque o luxo, outrora de valor inquestionável, enfrenta desgaste: preços inflacionados, desejo mais difuso, consumidores mais críticos. A alta-costura continua sedutora, mas o acesso a ela tornou-se parte essencial da equação.

Por isso, nomes históricos recalculam rotas: estilistas consagrados migram para grandes redes, atraídos por escala, estabilidade e relevância. Dinheiro conta também, é claro. O movimento se iniciou há alguns anos, mas ganhou tração em tempos recentes. A lista das estrelas que emprestam seu nome a cadeias mundiais de moda pop não para de crescer. Clare Waight Keller assumiu a direção criativa da Uniqlo. Zac Posen migrou para a Gap. Jonathan Saunders foi para a & Other Stories, do grupo H&M. Nenhuma dessas parcerias, porém, reveste-se de tanto significado quanto a chegada de Galliano à Zara. Com engrenagem ágil e alcance em dezenas de países, a empresa oferece algo que nem a mais prestigiada maison garante hoje: acesso a uma audiência global.
Nem tudo são flores, claro. A entrada de um mestre da alta-costura na fast fashion carrega tensões inevitáveis. Há quem veja risco de diluição e de perda da aura que sempre cercou seu trabalho. Mas há o argumento oposto: democratizar não é empobrecer e, sim, expandir. Permitir que mais pessoas tenham contato com uma linguagem refinada pode ser, em si, um gesto revolucionário. E há ainda a questão da coerência. Galliano, figura tão genial quanto indomável — criativo até o limite, temperamental, por vezes controverso —, já viveu auge, queda e reabilitação na indústria. Sua trajetória, marcada por picos de brilhantismo e episódios turbulentos, como as falas racistas e antissemitas que levaram à sua demissão da Dior, em 2011, ajuda a explicar por que cada novo movimento dele reverbera além da roupa. Depois de deixar a Maison Margiela, em 2024, afastou-se do ritmo frenético da moda, descrevendo o período como uma reconexão com o instinto — “como respirar corretamente”. Talvez isso lhe permita olhar a indústria com mais liberdade nessa nova fase que inicia na Zara, aos 65 anos.

Se antes a moda se organizava em hierarquias rígidas — alta-costura no topo, fast fashion na base —, a parceria é um sinal de que essas camadas começam a se misturar. A colaboração entre Galliano e a rede espanhola expõe dilemas desse mercado na atualidade: a criatividade precisa dialogar com a realidade; e o luxo, para sobreviver, precisa ser compartilhado. Parafraseando o título daquele filme de sucesso sobre os bastidores da moda, o diabo hoje não veste somente Prada: ele precisa estar aberto a modelitos que caibam no bolso das massas.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988
Fonte: veja.abril
