Categoria aproxima neurociência, beleza e bem-estar, enquanto skincare lidera as receitas e marcas brasileiras exploram diferentes aplicações do conceito.
A conexão entre pele, sistema nervoso e emoções começa a ganhar maior relevância no desenvolvimento de cosméticos, abrindo espaço para uma categoria que combina desempenho, experiência sensorial e bem-estar. Os chamados neurocosméticos avançam no mercado internacional e começam a conquistar espaço também no Brasil, impulsionados pelo interesse em produtos que ampliam a proposta do cuidado para além dos benefícios estéticos tradicionais.
Segundo a Grand View Research, o mercado global de neurocosméticos movimentou US$ 1,9 bilhão em 2024 e deve alcançar US$ 2,3 bilhões em 2026. A projeção é chegar a US$ 3,1 bilhões em 2030, com crescimento médio anual de 8,5% entre 2025 e 2030.
No Brasil, a categoria gerou aproximadamente US$ 20,4 milhões em 2024 e deve alcançar US$ 28,8 milhões até 2030, com avanço médio anual estimado em 6,1%. O skincare aparece como o maior segmento em receita, enquanto os cuidados capilares apresentam a perspectiva de crescimento mais acelerado no período.
Neurociência amplia possibilidades para o desenvolvimento cosmético
O conceito parte da comunicação entre a pele e o sistema nervoso, área investigada na interseção entre neurociência, dermatologia e psicodermatologia. Na literatura científica, os neurocosméticos são associados à atuação sobre mecanismos neuro-imuno-cutâneos, diferenciando-se de produtos que oferecem apenas uma experiência sensorial agradável.
Essa distinção ganha importância à medida que o termo se populariza. Uma textura diferenciada, uma fragrância relaxante ou uma experiência prazerosa de aplicação não são suficientes, isoladamente, para caracterizar um cosmético como neurocosmético. A proposta precisa estar relacionada aos mecanismos e às evidências que sustentam as alegações apresentadas pelo produto.
No mercado internacional, o crescimento da categoria já estimula investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Empresas de ingredientes e fabricantes de cosméticos vêm explorando ativos e tecnologias associados à interação entre pele, percepção e sistema nervoso, ampliando as possibilidades de aplicação em skincare, haircare, banho, maquiagem e perfumaria.
Marcas brasileiras exploram diferentes caminhos
No Brasil, marcas independentes começam a incorporar conceitos relacionados à neurocosmética por diferentes perspectivas. A Kote, por exemplo, aproxima a proposta do skincare e da formulação. Um dos destaques do portfólio é o Sérum Facial Tri-Mushroom, que combina três tipos de cogumelos, reishi, chaga e cordyceps, com centella asiática e niacinamida.
A Juicie Rio, por sua vez, explora a neurociência olfativa no desenvolvimento de fragrâncias associadas a diferentes sensações. A marca utiliza estudos da área como ponto de partida para produtos relacionados a propostas como energia, autoestima e relaxamento, incorporando a experiência olfativa ao posicionamento e ao ritual de utilização.
Outro exemplo aparece na Belong Be, loja localizada na Oscar Freire, em São Paulo, que identifica maior interesse dos consumidores por produtos associados a conforto, prazer, relaxamento e experiências de autocuidado mais completas. A percepção no ponto de venda indica que o público nem sempre procura especificamente pela expressão “neurocosmético”, mas demonstra interesse pelos benefícios relacionados ao conceito.
Ciência precisa acompanhar as alegações
A expansão da categoria também exige atenção à maneira como os benefícios são comunicados. No Brasil, “neurocosmético” não constitui uma categoria regulatória específica da Anvisa. Os produtos continuam enquadrados nas categorias correspondentes de cosméticos, higiene pessoal e perfumes, seguindo as exigências aplicáveis a cada uma delas.
Isso significa que a incorporação da neurociência ao posicionamento de um cosmético não elimina a necessidade de comprovação das alegações apresentadas. Segurança, eficácia e benefícios comunicados ao consumidor precisam estar respaldados de acordo com o enquadramento do produto.
O cuidado torna-se especialmente relevante diante da expansão do termo para propostas predominantemente sensoriais. A diferenciação entre experiência agradável e atuação relacionada a mecanismos neurocosméticos será determinante para a credibilidade da categoria conforme mais produtos chegarem ao mercado.
Categoria cria novas oportunidades para a indústria de beleza
Para fabricantes, o movimento abre possibilidades que vão desde a pesquisa de novos ativos até o desenvolvimento de fragrâncias, texturas e rituais de aplicação associados ao bem-estar. Para o varejo, cria oportunidades de trabalhar a categoria por meio de experimentação e orientação, traduzindo conceitos científicos para benefícios mais compreensíveis ao consumidor.
