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Desde sua iniciação como estrela juvenil da Disney, aos 14 anos, Zendaya não escondia a ambição de construir uma imagem altamente vinculada à moda. Só faltou combinar o script com as maisons do ramo. Por anos, o stylist Law Roach, seu parceiro e “arquiteto visual” nessa empreitada, colecionou “nãos” retumbantes ao pedir às grifes de luxo roupas para a atriz usar em tapetes vermelhos. Mesmo quando Zendaya já era conhecida, as negativas continuaram — a desculpa é que ela seria “too green”, ou muito novata e crua. Os percalços, curiosamente, tiveram efeito contrário: graças à resiliência da estrela e de seu mentor, que passaram a explorar com criatividade itens vintage e grifes alternativas, uma aura de autenticidade diferenciada se criou em torno dela — e o jogo virou. Em 2017, Zendaya enfim emplacou um editorial de capa na Vogue americana. Pouco depois, em 2019, sua guinada adulta definitiva com a série barra-pesada Euphoria, da HBO, a colocou de vez no mapa do estilo. De lá para cá, grifes que a esnobavam vêm fazendo fila para vesti-la e explorar comercialmente sua imagem.

Não é difícil entender o motivo dessa rendição. No sábado 12, a nova edição da Semana de Moda de Nova York virou notícia não exatamente por seus desfiles, mas por uma aparição mesmerizante da atriz. A estrela de superproduções como A Odisseia compareceu ao evento com um modelito Prada de espírito romântico e — eis a razão do furor — um novo corte de cabelo curtíssimo, no estilo joãozinho. Pelo final de semana inteiro, o universo da moda parou para debater mais essa guinada radical da atriz. O fato de um mero corte de cabelo despertar tanta publicidade é sinal inequívoco do lugar que Zendaya ocupa no entretenimento. Aos 30 anos completados em 1º de setembro, ela não é só uma das faces femininas mais poderosas da indústria. Conquistou algo raro e especial: a condição de ícone fashion de Hollywood.

Contam-se nos dedos das mãos as divas do passado que obtiveram o mesmo status, como Audrey Hepburn e Marilyn Monroe. Zendaya acrescenta complexidade contemporânea a esse perfil. Se as antecessoras imortalizaram modelitos e lançaram tendências, ela vai além de ser musa: transforma cada aparição em novo capítulo de uma narrativa mais ampla e meticulosamente construída.
O principal vetor da jornada visual de Zendaya é o diálogo entre suas personagens na tela e a moda. Marco nesse sentido foi sua ida à première de Duna 2, em 2024, com um traje metálico de robô — uma peça do francês Thierry Mugler dos anos 1990 que ela ressignificou com ousadia. Pouco depois, ao lançar Rivais, filme de Luca Guadagnino em que vive uma tenista envolvida num triângulo amoroso, Zendaya não apenas fez sucesso ao exibir-se com modelitos sensuais do esporte: transformou o tenniscore em mania.

A maestria em dissipar fronteiras entre tapete vermelho e desfiles de moda foi levada ao máximo na divulgação de A Odisseia. Com cabelos compridos como os de uma deusa do Olimpo, Zendaya fez dos eventos do filme uma oportunidade de reinventar-se como novo oráculo da moda. Sempre de branco, emulou a altivez de uma escultura grega ao vestir um corpete de silicone e saia de pedraria da Schiaparelli. Diante da Torre Eiffel, protagonizou ainda um ensaio para a Givenchy com vestido criado em 1997 por Alexander McQueen (1969-2010), em outra homenagem esperta a criações do passado.

Vão longe os dias, claro, em que Zendaya era um patinho feio desprezado pelas grifes. Prova disso é o contrato que mantém desde 2023 com a Louis Vuitton, que culminou em sua escolha para a campanha que marcou os 130 anos do logotipo famoso da marca, há poucos meses. Ao longo dessa caminhada, a atriz teve Law Roach como fiel escudeiro e, não raro, até companhia nos tapetes vermelhos, com looks em dobradinha. Embora negue ressentimentos, o stylist confessa que certas grifes que a esnobaram — e cujos nomes não cita — ainda são vetadas pela estrela. Como novo furacão fashion, ela pode tudo — inclusive ser vingativa.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013
Fonte: veja.abril
