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Na primeira fila do desfile de alta-costura da Chanel, em Paris, uma cena quase doméstica chamava a atenção: Fernanda Torres, Nicole Kidman e Tilda Swinton tricotavam, rindo baixo e de mãos dadas — nada tirava o foco daquele momento íntimo, elegante e profundamente simbólico entre as estrelas. Mesmo antes do desfile, já ficava claro que ia além de roupas. Um momento de presença e maturidade, sobre mulheres que já viveram o suficiente para não precisar provar nada a ninguém.
Enquanto isso, alguns metros adiante, Bruna Marquezine roubava flashes com a naturalidade de quem entende o jogo e disputa para ganhar. Jovem, magnética, segura, ela equilibrava o quadro: Chanel é legado, mas também é o agora. É passado, presente e futuro sentados lado a lado. E essa conversa entre gerações não foi acaso, mas sim o fio condutor da primeira coleção de alta-costura de Matthieu Blazy para a maison francesa. Um desfile que apresentou um manifesto: a Chanel que ele imagina é para mulheres de verdade, com vida, histórias acumuladas e personalidade suficiente para ocupar espaço — inclusive depois dos 50.
Mestre das Ilusões
A passarela confirmou. Entre modelos jovens, surgiam mulheres maduras, longe do papel decorativo ou simbólico, que traziam outra densidade e postura às roupas. Blazy entende que libertar a mulher hoje passa também por libertar a moda da obsessão pela juventude automática. Coco Chanel começou esse movimento ao livrar corpos do espartilho no período pós-Primeira Guerra Mundial. E agora, mais de 100 anos depois, ele amplia o gesto ao livrar a marca de seus próprios clichês.
As referências icônicas — camélias, duplos Cs, pérolas óbvias — ficaram em segundo plano. No lugar, leveza, transparência e movimento. O cenário era quase um bosque encantado em tons rosados, pontuado por cogumelos gigantes, mas a coleção falava de pássaros: roupas que pareciam flutuar, feitas de camadas de mousseline que envolviam o corpo como vento. Tailleurs surgiam etéreos, com correntes douradas migrando do forro para o exterior, terminadas em micropérolas que balançavam ao caminhar.
Blazy brincou com ilusões — um de seus truques favoritos. Jeans e regata, símbolos máximos do cotidiano, reapareciam feitos do mesmo tecido impalpável, quase como nuvens. Tweeds tridimensionais eram, na verdade, compostos por pequenos nós de seda. Penas surgiam bordadas, aplicadas, esculpidas, inclusive no vestido final, usado por Bhavitha Mandava: uma noiva nada tradicional, em túnica oversized com bolsos, coberta por centenas de plumas de madrepérola. Havia também os “ravens”, como o estilista chamou seus pequenos vestidos pretos. Porque, como ele mesmo sugere, a vida não é só fantasia. Existe sombra, contraste, cotidiano. E é justamente isso que dá sentido ao sonho.
Mas, talvez, o gesto mais potente da coleção tenha sido invisível aos olhos. Cada modelo carregava, costurada dentro da roupa, uma memória pessoal: uma data, iniciais, uma frase de amor. Um lembrete delicado de que a alta-costura só faz sentido quando se conecta à pessoa que a veste — não ao espetáculo vazio. Ali, tudo se alinhavou: as mulheres 50+ da passarela, as estrelas maduras da primeira fila, Fernanda, Nicole, Tilda — e a certeza de que reconhecer-se na moda é um luxo maior do que qualquer bordado. Chanel, sob Blazy, não olha para trás com nostalgia. Olha para frente com maturidade. E isso, hoje, é revolucionário.
Veja o vídeo de Fernanda, Nicole e Tilda e fotos do desfile da Chanel alta-costura 2026:







Fonte: veja.abril
