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É incomum uma peça de moda chegar chegando, como quem testa os limites e cai no gosto para empurrar a história. Foi assim, por exemplo, com o pretinho básico de Coco Chanel, que explodiu nos loucos anos 1920, ou a minissaia de Mary Quant e André Courrèges — produtos com a cara de tempos que exigiam mudança, ensaios de revolução. É mais frequente modelos que soam como tendência, despontam aqui e ali e são, a rigor, apenas flashes rápidos mais afeitos a provocar e ganhar notoriedade do que inventar um caminho. O underboob — que pipocou nas redes sociais com algum estardalhaço no ano passado e que agora, em 2026, ecoa no verão do Hemisfério Sul — faz parte desse grupo de ideias que muitas vezes gritam por gritar, fazem barulho e se recolhem, ao ritmo natural das ondas de estilo.

Trata-se, para ir direto ao ponto, de deixar aparecer, entre o espalhafato e a timidez, um pedacinho da parte inferior do seio, detalhe deslocado, quase acidental (não é!), uma nesga de pele para o qual o olhar não foi treinado a ver. Há uma alternativa menos ousada, digamos: o sideboob, a sobrinha lateral, de discrição duvidosa, mas ok. Nos bastidores do Globo de Ouro deste ano, a atriz Jenna Ortega deu as caras (e os poucos sorrisos) com o busto de flanco pedindo para sair e ser fotografado, em lance de marketing.
O movimento atual, releitura do passado (e fique aqui uma homenagem a Christina Aguilera com um lenço amarrado ao corpo no tapete vermelho do MTV Video Music Awards no início dos anos 2000), bebe da postura de Zendaya em uma sucessão de estreias de cinema nos últimos dois anos, e às favas o pudor, e as silhuetas arquitetônicas de Emma Chamberlain em um evento da revista americana GQ em Los Angeles. No Brasil, o passo é ainda especialmente contido, mas convém não ignorá-lo. Uma ou outra personalidade, como Yasmin Brunet, testa o território na moda praia, mas sem alarde, sem contaminação coletiva. E isso não é irrelevante. O biquíni, mais do que qualquer outra peça, depende da sensação de segurança de quem usa: estética, física, emocional e cultural. Não por acaso, em 2025, o recurso apareceu apenas de forma pontual na passarela da Miami Swim Week, em um desfile da marca Strange Bikinis — um recorte isolado, quase experimental, que chamou atenção mais pela coragem criativa do que pela adesão real do mercado.

O estilista Amir Slama, um dos nomes mais experientes da moda praia brasileira, observa o fenômeno com a tranquilidade de quem já viu muitas ondas quebrarem antes da areia. “Há alguns anos os seios à mostra apareceram em alguns desfiles internacionais, em alguns vestidos”, afirma. “Em nossas coleções de praia, por causa de recortes assimétricos, de vez em quando a base do peito acaba ficando à mostra. Mas não creio ser uma tendência.” E mais, porque, como já ensinou o arquiteto alemão Mies van der Rohe (1886-1969), “Deus mora nos detalhes”. Slama lembra que, outro dia mesmo, a influenciadora Livia Nunes pediu um biquíni com recorte underboob, mas, um pouco antes de tê-lo na linha de manufatura, deu-se o recuo, e foi preciso aumentar o tamanho do sutiã. “As mulheres que o experimentaram não se sentiram confortáveis”, diz. Como conforto é tudo, convém fazer a pergunta de sempre: até onde vai?
Os seios sem pudor transitam, ainda (e talvez para sempre), no território instável entre o desejo de transgressão e a realidade do vestir, bem mais modesta. É um detalhe do corpo que insiste em aparecer — mas que ainda pede licença. Um conselho: não procurá-lo por aí, deixar que desponte ao léu, e a saber o que dirão os próximos verões.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979
Fonte: veja.abril
