Conheça a chef que transformou a bala de banana de Antonina em mais de 40 receitas de sucesso

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Com 300 gramas de bala de banana, sal, orégano, bacon e outras cositas más, Karla Manfredini prepara um excelente molho de salada, tendo a iguaria símbolo do Paraná como “a” protagonista. A cozinheira é, de fato, uma guardiã do alimento e não para de usar a criatividade para mantê-lo vivo. A primeira vez que Paladar a conheceu e contou sua história, em outubro do ano passado, eram 18 receitas com a bala registradas. Hoje, ela já soma 46 preparos, dos mais variados tipos.

Karla Manfredini dedica sua vida a preservar a memória e disseminar o conhecimento sobre a bala de banana, este doce tradicional de uma cidade ao norte do Paraná, chamada Antonina. Tudo na cidade gira em torno da duas fábricas locais, como contou a jornalista Luiza Fecarotta em uma reportagem especial. Karla – há seis anos – decidiu deixar a profissão de TI e a cidade natal para também fazer do doce o epicentro da sua vida.

Bala de banana de Antonina Foto: Divulgação

Como a paixão pela bala de banana começou

Karla Manfredini nasceu em uma casa construída por mulheres e que viam na cozinha a forma de garantir o sustento da família. Porém, mesmo com toda essa influência familiar, a gastronomia não a atraiu logo de cara. Karla decidiu formou-se em Tecnologia da Informação. Até que precisou de um novo caminho.

Com quatro filhos, após o término de um casamento, precisou encontrar uma opção para complementar a renda que andava curta para a família extensa. E a gastronomia foi um caminho que – de provisório virou permanente. Dos bicos na cozinha encontrou trabalho como chef da Renault, montadora de carros francesa.

Chef Karla Manfredini na cozinha Foto: Karla Manfredini

Foi lá que ela ficou com vontade de difundir a culinária de seu Estado. Começou a pesquisar e preparar receitas usando ingredientes típicos da região. “Nós temos muitas influências europeias por aqui, porque a colonização foi assim, ucranianos, alemães, italianos, poloneses. Mas nós também temos a nossa cultura e eu queria fomentar isso também com os meus pratos.”

A origem da Bala e o ‘descobrimento’ de Antonina

Imagem aérea dos bananais da região de Antonina Foto: Álvaro Ribeiro / Divulgação

Dentre os sabores pesquisados, Karla lembrou de um bem forte na sua memória. Resgatou o sabor docinho da Bala de Banana e quis conhecer mais sobre a história da balinha que comeu muuuuuuuuito quando menina.

Nesta busca, descobriu as origens da cidade que tinha sido escolhida para abrigar uma fábrica de palmito. Não deu muito certo e, graças a um doceiro do interior do estado, a cidade de Antonina mudou de rumo. De olho na produção de banana do local, bem volumosa, a estrutura fabril foi destinada para fazer o doce. Em pouco tempo, a cidade virou a capital da Bala de Banana.

Essa conexão com a memória afetiva e história tão mágica de Antonina trouxeram um desejo ousado para a cozinheira. Há 6 anos, durante a pandemia, Karla decidiu se mudar de mala e cuia para a cidade. Estava decidida a estar mais próxima da produção da Bala de Banana e poder se conectar com a natureza da cidade, que está localizada em uma faixa pertencente à mata atlântica.

“Eu não nasci antoninense, mas eu renasci antoninense. Eu me redescobri aqui com diversas outras coisas.”

Karla Manfredini

As primeiras receitas com a bala de banana

Ao chegar em definitivo para morar Antonina, Karla se deparou com um questionamento importante: o que ela iria fazer a partir dali? Com os filhos já criados, a mais nova antoniense quis provar seus conhecimentos e criatividade. Passou a elaborar pratos e receitas que teriam as balas de banana como estrela principal.

Virou, então, uma espécie de guardiã do doce e acredita que com as receitas contribui para deixar vivo o alimento que foi reconhecido como um patrimônio cultural e imaterial do Estado do Paraná no ano passado.

Em cada novo preparo, Karla gosta de incentivar a mistura das duas marcas da região para criar uma riqueza maior de sabor, dizendo que tal qual uma mãe “não consegue escolher qual das suas é sua preferida”.

Nas 46 receitas registradas que tem, há receitas de molho de salada com bala de banana, bolo de bala de banana, quentão de bala de banana, farofa de bala de banana e mais uma coleção de formas de preservar a memória do alimento e de quem o consome.

Fachada do restaurante ‘Casa do Mangue’, da chef Karla Manfredini Foto: Álvaro Ribeiro / Divulgação

Passou a ministrar cursos e aulas para passar a frente essas receitas, garantindo que cada vez mais pessoas tivessem acessos a elas. “Eu pensei: ou essas receitas vão ficar num caderno na minha casa dentro da gaveta ou eu vou dividir com o mundo.”

Karla fundou o restaurante ‘Casa do Mangue’ e passou a sediar suas aulas no local. Em paralelo, começou a levantar fundos para um outro projeto e em 2024, lançou o primeiro documentário para contar a história da bala de banana e da cidade de Antonina.

“Eu acho que toda cozinheira, ou pelo menos quase toda, tem um pouco de artista”

Karla Manfredini

O filme chamado “Bala de Banana de Antonina: uma trajetória da terra ao prato” deu rosto e voz para pessoas que, quase sempre, se mantém invisíveis atrás dos processos de fabricação de um doce que marca tantas gerações. “Eu acho que toda cozinheira, ou pelo menos quase toda, tem um pouco de artista.”

Durante o processo de pesquisa e gravação, Karla descobriu um ecossistema de trabalho e convivência entre os produtores e agricultores que a encantou. Um deles é o Alir, motorista de caminhão que há mais de 30 anos tem a importante missão de recolher as bananas das plantações e levá-las para as fábricas.

Olhar para para o futuro da cidade, no entanto, exige encarar os desafios complexos que as mudanças climáticas já impõem ao bioma da Mata Atlântica. O delicado ecossistema dos bananais, situado nas encostas da Serra do Mar, tem sofrido diretamente com a instabilidade do tempo, desde tempestades severas que devastam plantações inteiras até a iminência de fenômenos climáticos extremos na região.

Para a cozinheira, proteger o território e entender as safras não é apenas uma questão econômica, mas um ato de sobrevivência cultural. Afinal, salvaguardar a bala de banana significa, fundamentalmente, preservar as condições da terra que dão vida ao “ouro” da cidade.

Estagiário sob supervisão de Fernanda Aranda





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