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A moda vive de memória. E poucas casas sabem transformar passado em futuro com tanta naturalidade quanto a Chanel. No Grand Palais, em Paris, o outono/inverno 2026 da maison apareceu como um exercício de tempo: décadas se sobrepondo, códigos históricos sendo reinterpretados e um clássico absoluto servindo de ponto de partida e centro de tudo: o tailleur Chanel.
Entre guindastes coloridos, azuis, vermelhos, amarelos e brancos, erguidos dentro do Grand Palais – cenário que sugeria a moda e um legado em construção – Matthieu Blazy conduziu o público a uma viagem por diferentes épocas, dos anos 1920 aos dias de hoje, revelando como uma mesma estrutura pode gerar infinitas interpretações.
Não por acaso. Gabrielle Coco Chanel (1883-1971) sempre acreditou que a roupa deveria libertar, não aprisionar. “Precisamos de vestidos que rastejam e de vestidos que voam”, disse a criadora em 1950. E assa ambivalência entre simplicidade e espetáculo, entre o cotidiano e a fantasia, atravessa toda a coleção de Blazy. O desfile começou com a modelo Stéphanie Cavalli vestindo um conjunto preto de tricô com saia e jaqueta. O look seguinte, quase idêntico, vinha em branco. O gesto era claro: antes de qualquer ornamento, a Chanel parte do essencial.
Boa parte do bloco inicial explora justamente os códigos básicos do guarda-roupa moderno — muitos deles herdados de peças masculinas ou utilitárias que Coco Chanel incorporou primeiro ao próprio estilo antes de transformá-las em moda global. E, aos poucos, o tempo começa a se dobrar.
A silhueta alongada dos anos 1920 — uma assinatura de Blazy desde sua estreia — surge ainda mais marcada. Cinturas descem, saias e vestidos ganham cintos posicionados abaixo do quadril e o corpo aparece mais esguio, quase gráfico. A imagem é poderosa, com potencial de viralização, mas aqui a intenção é outra; parece falar de depuração. Menos excesso, menos volume exagerado, em que a atenção volta ao corpo e à relação íntima entre quem veste e aquilo que escolhe vestir. Ou seja, um gesto mais pessoal, funcional e muito mais autêntico.
As referências históricas aparecem como ecos. Há conjuntos de saia de cintura baixa que remetem aos loucos anos 1920, vestidos halter inspirados nos anos 1960 e blazers amplos com ombreiras dramáticas que evocam os anos 1980. Entre eles, o clássico tweed da maison surge em tons inesperados — laranja, creme, rosa, amarelo — antes de desembocar em versões futuristas em lurex metálico, com reflexos verdes e prateados.
Em alguns momentos, Blazy parece imaginar Gabrielle Coco Chanel vivendo em 2026. “Quero que minhas roupas sejam uma tela para que as mulheres sejam quem realmente são — e quem querem ser”, afirmou o estilista, antes de apresentar a coleção. Essa ideia de roupa como plataforma e não como fantasia talvez explique a atmosfera que tomou conta da primeira fila. Estrelas como Margot Robbie, Oprah Winfrey e Teyana Taylor assistiam ao desfile vestidas de Chanel, mas ninguém parecia fantasiada.
Há muito tempo uma estreia não provocava tanta adesão à marca. As lojas da maison em Paris, aliás, têm registrado filas e espera de até uma hora desde que a primeira coleção de Blazy chegou às araras. Talvez porque a Chanel sempre foi menos sobre tendência e mais sobre atitude. É exatamente onde se pauta o inverno 2026 de Matthieu Blazy mostra que o verdadeiro poder da casa está em algo raro – a criação de roupas capazes de atravessar décadas e, ainda assim, parecerem profundamente atuais e prontas para acompanhar mulheres reais, em qualquer momento do dia ou da vida.









Fonte: veja.abril
