Nova York – Depois de mais de quatro anos, a Compass abrir o capital na bolsa brasileira. Mas o IPO da companhia da Cosan pode ser considerado um indicativo de que a janela para este tipo de transação esteja novamente aberta.
“Não vejo uma retomada consistente do mercado de capitais no curto prazo”, afirma diz José Berenguer, CEO do Banco XP, em entrevista ao NeoFeed no escritório do grupo no centro financeiro global, que fica no 30º andar da 46th street, conhecida como “litlle Brazil”.
Berenguer falou sobre a estratégia do negócio bancário e se mostrou preocupado com o macro brasileiro. Para o CEO do Banco XP, o Brasil está em um círculo onde os juros altos levam para uma renda fixa dominante e uma Bolsa esvaziada.
Com o crédito caro, o crescimento fica limitado e prejudica o desenvolvimento do País em um momento em que a necessidade de eficiência é uma exigência trazida pela IA, que está mudando a produtividade do setor financeiro.
Na visão do executivo, a combinação de juros elevados, renda fixa “boa demais”, baixa participação da pessoa física na bolsa de valores e um mercado de capitais ainda travado criou um ambiente em que o investidor prefere permanecer parado.
Ao mesmo tempo, enxerga uma transformação profunda chegando ao setor financeiro por meio da inteligência artificial e do open finance. Essas são duas forças que, segundo ele, podem reduzir drasticamente as ineficiências do sistema bancário e mudar a forma como clientes se relacionam com dinheiro, crédito e investimentos.
“Hoje, atendemos 5 milhões de pessoas físicas e quase 90 mil empresas. Achamos que podemos chegar a 300 mil ou 400 mil empresas e mais 20 milhões de pessoas físicas”, diz o CEO do Banco XP.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista:
Após acelerar, a XP adotou uma postura de mercado mais cautelosa. O que mudou?De fato, aceleramos muito rápido em 2020 e 2021. Depois, tivemos que diminuir o ritmo. O mercado não está nenhuma maravilha e decidimos focar no que é realmente importante, sem tentar fazer 200 coisas ao mesmo tempo. Hoje, temos capital sobrando. Nosso índice de Basiléia está perto de 20%, quando o mínimo é 13%. A gente entende que deveria trabalhar perto de 15%. Então, poderíamos acelerar, fazer aquisições, aumentar o balanço.
Faz sentido fazer alguma aquisição?Acreditamos que não. Temos preferido crescer organicamente. Compramos o Modal há alguns anos e, apesar de ter sido um bom negócio, o desafio de integração é enorme: pessoas, tecnologia, cultura. Se você erra a mão e compra um ativo que não encaixa tão bem quanto imaginava, perde o foco. Então, seguimos no nosso ritmo, fazendo as coisas com muito capricho. Nosso cliente é sofisticado. Mesmo na pessoa jurídica, são clientes exigentes. A qualidade do serviço precisa ser impecável. Se eu entrego um cartão de crédito para um cliente investidor e ele vai viajar com a família e o cartão não funciona, acabou. Esse cliente tem opção. Ele aperta um botão e no dia seguinte tem fila de banco querendo atendê-lo. Então, não podemos errar.
O que você enxerga hoje como as principais vantagens competitivas da XP?A principal vantagem é a cultura. Cultura de fazer, de resolver problema do cliente, de estar perto do cliente. Existe muita autonomia para os assessores e para os times internos. A segunda vantagem é a tecnologia. Temos pouco sistema legado. O banco tem seis anos. Os sistemas são, por definição, novos. A terceira vantagem é a estrutura de custo. Temos 17 mil agentes autônomos e cerca de 500 escritórios independentes. Isso cria uma estrutura muito eficiente. Além disso, os assessores estão focados no cliente, sem burocracia, sem agência, sem superintendente regional. Eles estão na trincheira atendendo o cliente.
“Podemos chegar a 300 mil ou 400 mil empresas e mais 20 milhões de pessoas físicas. Ainda temos muita pista para crescer”
E quais são as desvantagens?Do lado das desvantagens, nosso portfólio de produtos na pessoa jurídica ainda está ficando completo. Na pessoa física ele já estava mais maduro. Também queremos expandir nossa estrutura de vendas. Hoje, atendemos 5 milhões de pessoas físicas e quase 90 mil empresas. Achamos que podemos chegar a 300 mil ou 400 mil empresas e mais 20 milhões de pessoas físicas. Ainda temos muita pista para crescer.
Com quem a XP compete?Somos focados em Brasil. Não queremos expansão internacional. Quero dizer, temos estrutura aqui em Nova York, em Miami, para atender o brasileiro e o investidor daqui que está investindo no Brasil. Foco é investidor pessoa física, em cliente sofisticado na pessoa jurídica. Então não vamos competir com Caixa, Bradesco, Nubank ou Itaú. Somos um player de nicho.
Mas a XP pode assumir que também é um grande banco?Cada vez mais somos um player grande. Hoje, devemos ser a sétima maior instituição financeira ou conglomerado financeiro do Brasil. Então é natural que haja comparação com os incumbentes. O investidor tem pressa, mas ele precisa entender o horizonte. Quem compra a ação para vender na semana seguinte provavelmente vai se frustrar. Agora, quem olha os próximos 20 ou 25 anos, acho que temos uma proposta de valor muito interessante. A tese continua sendo crescimento de base de clientes, completude financeira e toda a disrupção que ainda está acontecendo no mercado brasileiro.
O que seria essa disrupção: open finance ou inteligência artificial?O open finance pode mudar o jogo do sistema financeiro. A agenda de open finance no Brasil é extremamente agressiva e poderosa. Quando o cliente autoriza o compartilhamento dos dados – e a maioria autoriza – conseguimos fazer um trabalho muito melhor. Passamos a enxergar toda a vida financeira do cliente, dos ativos às dívidas, passando por aplicações e ineficiências. Conseguimos dizer: “Esse crédito imobiliário está caro, existe alternativa melhor”. Nosso trabalho hoje é muito mais assessoria financeira completa, muitas vezes até sucessório, do que apenas de investimentos. O open finance é uma ferramenta matadora. E agora começa também a portabilidade de crédito. Isso vai reduzir o “profit pool” do sistema financeiro. A XP nasceu em arquitetura aberta. Então, somos muito otimistas com esse cenário.
“O open finance é uma ferramenta matadora. E agora começa também a portabilidade de crédito. Isso vai reduzir o “profit pool” do sistema financeiro”
Por quê?Será menos custo para a sociedade e para o cliente. Ou seja, é um mercado mais eficiente. E o cliente com poder de decisão é música para os nossos ouvidos. Acredito que mudará o ponteiro para o cliente e para o sistema financeiro como um todo. O cliente vai escolher o melhor provedor de preço, de serviço e qualidade de entrega. Com o open finance, ele vai poder comparar de uma forma muito mais fácil e fluida.
E como a inteligência artificial entra nessa estrutura?Vou usar uma parte do discurso do Martin Escobari [copresidente da General Atlantic, investidora da XP]. A inteligência artificial também vai mudar tudo. Hoje, vejo três tipos de empresa. A primeira é a que faz pequenos pilotos de IA. A segunda é a que pega um processo inteiro e fala: “vou reduzir 80% do quadro usando IA”. E a terceira é a empresa que já nasce em IA. A XP está entre o primeiro e o segundo estágio. E é muito difícil fazer essa transição. Agora, imagina IA analisando os dados de open finance do cliente. O sistema pode identificar oportunidades automaticamente, entregar isso para o assessor ou até direto para o cliente. Dados já são importantes hoje. Com IA, eles ficam ainda mais relevantes.
O que vai acontecer com o agente autônomo nesse novo cenário de IA?O profissional de sucesso será aquele que souber usar IA sem perder o contato humano. Você deixaria 100% dos seus investimentos na mão de um robô? Eu acho que não. É a mesma coisa com medicina. A IA pode ajudar muito os médicos, mas ninguém quer abrir mão completamente do fator humano. Na assessoria será igual. O contato pessoal continua sendo essencial. O que muda é que o assessor terá ferramentas muito mais poderosas para conversar com o cliente.
Quanto tempo para essa transformação acontecer?Muito rápido. Se dependesse só de vontade, talvez acelerássemos ainda mais. Mas existe a preocupação com custo, com margem, com reação do mercado. Mesmo assim, acho que isso pode acontecer em curtíssimo prazo. A evolução está sendo muito rápida. A produtividade aumenta muito. Nosso risco é aparecer uma empresa que já nasça completamente estruturada em IA. Isso cria um senso enorme de urgência.
“Nosso risco é aparecer uma empresa que já nasça completamente estruturada em IA. Isso cria um senso enorme de urgência”
Existe resistência à adoção de IA?Existe. Internamente e também entre clientes. Tem gente que fala: “Mas o robô pode alucinar”. E pode mesmo. Eu não confio 100% na ferramenta. Acho que ela precisa ser supervisionada.
A Compass realizou um IPO quebrando um jejum de quatro anos na bolsa brasileira. O mercado de capitais brasileiro reabriu?Não. Ainda não. Essa foi uma operação específica. A renda fixa hoje é boa demais. Não tem produto melhor. Com juros reais próximos de 10%, mais produtos isentos, o investidor não quer correr risco. Você soma isso à guerra, eleição, incerteza fiscal. O investidor prefere ficar parado. Pode acontecer uma operação pontual aqui ou ali, mas não vejo uma retomada consistente do mercado de capitais no curto prazo.
Quanto os produtos incentivados de renda fixa também desequilibraram o mercado?Muito. A pessoa física praticamente saiu da bolsa. Mesmo nas altas recentes, o investidor brasileiro não voltou. Fica muito difícil competir com isso. Para o rentista, vai muito bem. Em fevereiro e março, quando a bolsa deu uma esticada, o número de pessoas físicas operando ficou estável. Quem já tem patrimônio consegue preservar riqueza com enorme eficiência fiscal. Mas quem não tem patrimônio e está endividado sofre muito. Essa dinâmica é cruel.
“A pessoa física praticamente saiu da bolsa. Mesmo nas altas recentes, o investidor brasileiro não voltou. Fica muito difícil competir com isso”
Você parece mais pessimista com o Brasil?Estamos vivendo uma situação curiosa. A taxa de juros está muito alta, o que deveria provocar a queda da inflação. Só que com a injeção de recursos via bolsa família e outros incentivos, como o Desenrola 2.0, a tarefa do Banco Central é mais difícil para cortar o juro. O que me preocupa é: quem aguenta juros nesse nível durante tanto tempo? Você pode ter juros altos por um período para combater inflação. Mas três, quatro anos nisso? Qual negócio aguenta CDI de 15%, mais spread, mais IOF? É muito difícil.
A queda da taxa de juros não está contratada?Não vejo juros despencando tão cedo. Existem muitos problemas estruturais. Ao mesmo tempo, o Brasil tem muitas virtudes: energia limpa, petróleo, agricultura, proteína, mercado consumidor. O país tem tudo para dar certo. Mas precisamos começar a enfrentar os problemas estruturais. Senão vamos continuar crescendo com o freio de mão puxado.
Como gerar ROE com todo esse cenário?É difícil porque você tem de ter um produto, mas não pode asfixiar o cliente. O cheque especial e o crédito pessoal custam o que custam porque no fim o bom pagador é penalizado pela enorme massa de mal pagadores. Tem uma questão financeira que precisa ser discutida, também. Se na alta renda ou no private é possível mudar a precificação, no produto massificado não se consegue diferenciar. É um funcionamento de um business bancário de empréstimos que é muito cruel, muito ineficiente, mas é assim.
O que os investidores estrangeiros dizem hoje sobre o Brasil?O mercado brasileiro parece barato em comparação internacional. Existe interesse. O investidor de curto prazo quer aproveitar esse desconto. O investidor de longo prazo está mais preocupado com eleição e questão fiscal. Mas o Brasil perdeu relevância internacional. Antigamente existiam mesas dedicadas exclusivamente ao Brasil nos grandes fundos globais. Hoje, muitas vezes, o mesmo gestor cobre Brasil e G7. Mesmo assim, se houver normalização da política monetária, o mercado de ações pode voltar com força.
Para você, as grandes preocupações macroeconômicas são guerra e eleição?São fatores importantes, mas eu não posso gerir a companhia torcendo para a guerra acabar ou para determinado candidato vencer. O que controlamos é nossa relação com o cliente, a eficiência do produto, a cultura da empresa, a motivação da equipe. A companhia precisa estar preparada para qualquer cenário. Por isso talvez este não seja o momento de ser extremamente agressivo. Estamos trabalhando muito as fundações para acelerar quando o cenário melhorar.
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Fonte: Neofeed
