A pimenta no Brasil: história, cultura e trabalho nos mercados

GastronomiaA pimenta no Brasil: história, cultura e trabalho nos mercados

Na banca de pimentas do Mercado Kinjo Yamato, no centro de São Paulo, Marilice passa os dias cuidando de um produto que exige atenção constante. Pimenta estraga fácil, arde nas mãos e precisa ser escolhida uma a uma. O trabalho é diário, repetitivo e, ainda assim, carregado de história.

A banca existe há cerca de 100 anos. Durante décadas foi tocada por um comerciante japonês, depois passou para o sogro de Marilice, que permaneceu ali por 40 anos. Hoje, ela e o marido comandam o espaço há oito anos, dando continuidade a quase meio século de presença familiar no mercado. “Agora fazemos uma coisa nossa”, resume.

Esse cotidiano ajuda a entender o papel social da pimenta no Brasil: um ingrediente que atravessa séculos, conecta culturas e se mantém vivo no trabalho de feiras, mercados e cozinhas domésticas.

Um ingrediente anterior à colonização

Segundo Elton Belini Rico Galves, docente da área de gastronomia do Senac São Paulo, a pimenta já fazia parte da alimentação e da cultura dos povos originários muito antes da chegada dos europeus. “Falar de pimenta no Brasil é falar de uma história que antecede o século XVI. É falar da nossa cultura”, afirma.

As pimentas do gênero Capsicum foram domesticadas nas Américas e, a partir do Brasil, levadas pelos portugueses para outros continentes. Variedades como a cumari-do-Pará, a malagueta e a biquinho revelam a diversidade do território brasileiro e a forma como diferentes regiões incorporaram o ardor aos seus pratos.

Mais do que tempero, a pimenta também teve funções de conservação de alimentos, usos medicinais e simbólicos. Em muitas culturas indígenas, esteve ligada a rituais, mitos e formas de transmissão de valores.

Do mito ao mercado

Galves cita a pimenta-canaimé, de Roraima, como exemplo de como alimento e simbolismo se misturam. Extremamente ardida, ela carrega o nome de um personagem mítico que pune quem desrespeita a natureza. No prato tradicional damurida, seu uso conecta comida, memória e espiritualidade indígena.

Séculos depois, essa dimensão simbólica se transforma, mas não desaparece. Na banca de Marilice, a pimenta se torna também espaço de troca social. “Cada pessoa que passa aqui traz uma história”, conta. A clientela é diversa: chineses, bolivianos, peruanos, mexicanos e brasileiros. “Os idosos gostam muito da malagueta”, observa.

Ao longo dos anos, ela aprendeu que o brasileiro consome mais pimenta do que se imagina. “Foi uma surpresa. Tem muita gente que não come sem pimenta.”

Resistência ao gosto padronizado

Para o professor, a pimenta pode ser entendida como um elemento de resistência cultural diante da padronização alimentar imposta pela indústria. O cultivo, a venda em feiras e mercados e o uso cotidiano fortalecem economias locais e mantêm vivas práticas tradicionais.

Essa lógica se reflete tanto em projetos comunitários quanto no trabalho diário de bancas como a do Kinjo Yamato. “Cuidar da pimenta é também cuidar da saúde do cliente”, diz Marilice, ao explicar a necessidade de selecionar bem o produto para evitar contaminações e perdas.

O contato constante com a pimenta também marca o corpo de quem trabalha com ela. Marilice conta que, no início, o ardor era difícil de suportar. “A mão queima muito”, diz. Com o tempo, a pele foi ficando calejada, mas o cuidado nunca deixou de ser necessário. Limpar, lavar e selecionar pimentas exige atenção redobrada, já que o produto é sensível ao calor e à umidade. “Você tem que olhar uma por uma”, explica.

Nos últimos anos, a pimenta também passou a ser valorizada pelo discurso gastronômico contemporâneo, com chefs incorporando variedades nativas em pratos autorais. Para Galves, esse movimento ajuda a resgatar ingredientes brasileiros, mas não substitui o papel da pimenta na vida comum.

Um ingrediente que marca o Brasil

Presente em pratos regionais, conservas caseiras, molhos e receitas transmitidas entre gerações, a pimenta ajuda a marcar identidades regionais e modos de vida. Do acarajé ao feijão com molho de malagueta, ela aparece tanto na alta gastronomia quanto na mesa cotidiana.

“A pimenta mostra que o cozinhar pode ser simples e sofisticado ao mesmo tempo”, afirma Galves.

Na banca centenária do mercado, essa história segue em curso. Entre caixas, baldes e mãos calejadas, a pimenta continua sendo o que sempre foi no Brasil: alimento, trabalho e cultura.

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