Na banca de pimentas do Mercado Kinjo Yamato, no centro de São Paulo, Marilice passa os dias cuidando de um produto que exige atenção constante. Pimenta estraga fácil, arde nas mãos e precisa ser escolhida uma a uma. O trabalho é diário, repetitivo e, ainda assim, carregado de história.
A banca existe há cerca de 100 anos. Durante décadas foi tocada por um comerciante japonês, depois passou para o sogro de Marilice, que permaneceu ali por 40 anos. Hoje, ela e o marido comandam o espaço há oito anos, dando continuidade a quase meio século de presença familiar no mercado. “Agora fazemos uma coisa nossa”, resume.
Esse cotidiano ajuda a entender o papel social da pimenta no Brasil: um ingrediente que atravessa séculos, conecta culturas e se mantém vivo no trabalho de feiras, mercados e cozinhas domésticas.
José Carlos dono da Banca das Pimentas Foto: Felipe Meireles
Um ingrediente anterior à colonização
Segundo Elton Belini Rico Galves, docente da área de gastronomia do Senac São Paulo, a pimenta já fazia parte da alimentação e da cultura dos povos originários muito antes da chegada dos europeus. “Falar de pimenta no Brasil é falar de uma história que antecede o século XVI. É falar da nossa cultura”, afirma.
As pimentas do gênero Capsicum foram domesticadas nas Américas e, a partir do Brasil, levadas pelos portugueses para outros continentes. Variedades como a cumari-do-Pará, a malagueta e a biquinho revelam a diversidade do território brasileiro e a forma como diferentes regiões incorporaram o ardor aos seus pratos.
Mais do que tempero, a pimenta também teve funções de conservação de alimentos, usos medicinais e simbólicos. Em muitas culturas indígenas, esteve ligada a rituais, mitos e formas de transmissão de valores.
Do mito ao mercado
Pimentas malaguetas da Banca das pimentas no mercado Kinjo Yamato Foto: Felipe Meireles
Galves cita a pimenta-canaimé, de Roraima, como exemplo de como alimento e simbolismo se misturam. Extremamente ardida, ela carrega o nome de um personagem mítico que pune quem desrespeita a natureza. No prato tradicional damurida, seu uso conecta comida, memória e espiritualidade indígena.
Séculos depois, essa dimensão simbólica se transforma, mas não desaparece. Na banca de Marilice, a pimenta se torna também espaço de troca social. “Cada pessoa que passa aqui traz uma história”, conta. A clientela é diversa: chineses, bolivianos, peruanos, mexicanos e brasileiros. “Os idosos gostam muito da malagueta”, observa.
Ao longo dos anos, ela aprendeu que o brasileiro consome mais pimenta do que se imagina. “Foi uma surpresa. Tem muita gente que não come sem pimenta.”
Resistência ao gosto padronizado
Para o professor, a pimenta pode ser entendida como um elemento de resistência cultural diante da padronização alimentar imposta pela indústria. O cultivo, a venda em feiras e mercados e o uso cotidiano fortalecem economias locais e mantêm vivas práticas tradicionais.
Essa lógica se reflete tanto em projetos comunitários quanto no trabalho diário de bancas como a do Kinjo Yamato. “Cuidar da pimenta é também cuidar da saúde do cliente”, diz Marilice, ao explicar a necessidade de selecionar bem o produto para evitar contaminações e perdas.
O contato constante com a pimenta também marca o corpo de quem trabalha com ela. Marilice conta que, no início, o ardor era difícil de suportar. “A mão queima muito”, diz. Com o tempo, a pele foi ficando calejada, mas o cuidado nunca deixou de ser necessário. Limpar, lavar e selecionar pimentas exige atenção redobrada, já que o produto é sensível ao calor e à umidade. “Você tem que olhar uma por uma”, explica.
Nos últimos anos, a pimenta também passou a ser valorizada pelo discurso gastronômico contemporâneo, com chefs incorporando variedades nativas em pratos autorais. Para Galves, esse movimento ajuda a resgatar ingredientes brasileiros, mas não substitui o papel da pimenta na vida comum.
Um ingrediente que marca o Brasil

Pimenta dedo de moça Foto: João Pedro Rangel
Presente em pratos regionais, conservas caseiras, molhos e receitas transmitidas entre gerações, a pimenta ajuda a marcar identidades regionais e modos de vida. Do acarajé ao feijão com molho de malagueta, ela aparece tanto na alta gastronomia quanto na mesa cotidiana.
“A pimenta mostra que o cozinhar pode ser simples e sofisticado ao mesmo tempo”, afirma Galves.
Na banca centenária do mercado, essa história segue em curso. Entre caixas, baldes e mãos calejadas, a pimenta continua sendo o que sempre foi no Brasil: alimento, trabalho e cultura.
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Pimentas Foto: Laura/ Adobe Stock
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