Alta Magia não é religião. E também não é superstição.

ColunasAlta Magia não é religião. E também não é superstição.

Sempre que menciono a expressão Alta Magia, percebo que muitas pessoas imaginam imediatamente rituais obscuros, práticas sobrenaturais ou histórias criadas pelo cinema. Outras associam o tema ao ocultismo de maneira pejorativa, como se “oculto” fosse sinônimo de fantasia.

Na minha opinião, ambos os extremos revelam exatamente o mesmo problema: falam sobre algo que nunca estudaram.

Antes de qualquer julgamento, gosto de fazer uma pergunta muito simples.

O que, afinal, significa a palavra “oculto”?

A resposta costuma surpreender.

Oculto significa apenas aquilo que permanece escondido, não compreendido ou ainda não revelado. Nada mais.

Durante séculos, a eletricidade foi um fenômeno oculto. A gravidade foi um mistério. As bactérias eram invisíveis. O inconsciente humano sequer existia como conceito científico.

O fato de determinado conhecimento ainda não ser plenamente compreendido nunca significou, necessariamente, que ele fosse falso.

Foi exatamente por isso que comecei a estudar Alta Magia.

Não para procurar milagres. Nem para encontrar poderes extraordinários. Mas para compreender um dos mais antigos sistemas de investigação sobre a consciência humana.

Na minha compreensão, a Alta Magia não é uma religião.

Religiões possuem dogmas. Dogmas existem para serem aceitos pela fé.

A Alta Magia segue outro caminho.

Ela parte de princípios. E princípios existem para serem estudados, compreendidos e experimentados.

Ao longo de milhares de anos, diferentes escolas iniciáticas desenvolveram um conjunto de conhecimentos sobre símbolos, estados ampliados de consciência, imaginação, vontade, atenção, linguagem, comportamento humano, ritualística, psicologia e transformação interior.

Naturalmente, nem todas essas tradições chegaram até nós livres de exageros ou interpretações fantasiosas. Isso acontece com praticamente qualquer conhecimento antigo.

Mas seria um erro reduzir toda a Alta Magia às caricaturas que se popularizaram.

Quando estudo seus textos clássicos, encontro algo muito diferente.

Encontro método. Encontro estrutura. Encontro princípios que dialogam com filosofia, psicologia, antropologia, história das religiões e simbolismo.

É evidente que a Alta Magia não pode ser confundida com a ciência experimental moderna. Ela não produz conhecimento por meio de laboratórios ou ensaios clínicos.

Seus objetos de investigação são outros. Seu método também é outro.

Por isso, considero mais adequado defini-la como uma ciência tradicional ou um sistema filosófico e iniciático de investigação da consciência.

Ela procura compreender dimensões da experiência humana que nem sempre podem ser reduzidas a instrumentos de medição.

Isso não significa abandonar o pensamento crítico. Muito pelo contrário.

Quanto mais estudo Alta Magia, mais percebo a necessidade de separar tradição de superstição, simbolismo de literalismo e experiência de crença cega.

Talvez esse seja o maior desafio da nossa época.

Vivemos entre dois extremos igualmente limitantes.

De um lado, aqueles que acreditam em tudo. Do outro, aqueles que rejeitam tudo aquilo que ainda não cabe nos modelos científicos atuais.

Nenhum desses extremos produz conhecimento.

A ciência progride porque questiona. A filosofia evolui porque pergunta. A Alta Magia também.

Essa talvez seja sua característica mais interessante.

Ela não exige submissão intelectual.

Exige disciplina. Exige estudo. Exige observação. Exige transformação pessoal.

Não basta acreditar.

É preciso experimentar.

Ao longo da minha trajetória como pesquisador, encontrei muito mais rigor em determinadas escolas iniciáticas do que em inúmeras discussões travadas apenas no campo da opinião.

O verdadeiro iniciado não é aquele que acumula símbolos.

É aquele que desenvolve discernimento.

Aprende a distinguir experiência de fantasia. Conhecimento de superstição. Sabedoria de vaidade.

Talvez seja justamente por isso que a palavra “magia” tenha sido tão mal compreendida.

No imaginário popular, ela passou a significar a suspensão das leis naturais.

Na tradição clássica, porém, ela representa exatamente o contrário: o estudo das leis mais profundas que regem a natureza, a mente e a consciência.

É uma tentativa de compreender a ordem por trás do aparente caos.

Não de substituí-la por milagres.

Foi essa perspectiva que me levou a dedicar anos ao estudo da Alta Magia.

Não porque ela ofereça respostas definitivas.

Mas porque ela faz perguntas que continuam extraordinariamente atuais.

Quem somos?

Qual é a natureza da consciência?

Como pensamentos, símbolos e intenção influenciam nossa maneira de perceber o mundo?

Até onde vai a realidade objetiva e onde começa a experiência subjetiva?

Essas perguntas não pertencem apenas aos magos.

Pertencem também aos filósofos, aos psicólogos, aos neurocientistas e, de certa forma, a todo ser humano que se recusa a viver apenas de respostas prontas.

Talvez seja essa a maior diferença entre dogma e conhecimento.

O dogma encerra a pergunta.

O verdadeiro conhecimento nunca deixa de fazê-la.

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Murillo C. Freitas
Murillo C. Freitas
Murillo C. Freitas é terapeuta, escritor, pesquisador e professor especializado em hipnose não verbal, magnetismo, espiritualidade e estudos da consciência. Com mais de duas décadas dedicadas ao desenvolvimento humano e formações nacionais e internacionais, tornou-se referência na integração entre conhecimentos terapêuticos, científicos e espirituais. Autor de seis livros, aborda em suas obras temas como Kundalini, autoconhecimento, simbolismo e psicologia dos arquétipos. Em seu lançamento mais recente, Lilith – Anjo ou Demônio, propõe uma releitura histórica, psicológica e social de uma das figuras mais controversas da tradição ocidental, incentivando reflexões sobre liberdade, identidade, poder e transformação pessoal.

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