Em 2023, fotos do corpo magro de Ariana Grande viralizaram nas redes sociais. Questionada sobre, ela deu declarações fortes, especialmente sobre o fato de que quem vê foto, não vê bastidores. “O corpo com o qual vocês estão comparando o meu corpo atual era a minha versão mais doente”, disse ela, afirmando que, então, tomava muitos antidepressivos, bebia álcool com frequência e se alimentava mal. “Eu não era saudável”, afirmou. As falas abrandaram a preocupação geral por um tempo, mas não foram mais suficientes diante das imagens de divulgação de seu novo álbum, Petal, lançado na sexta, 31. No videoclipe da canção que dá nome ao disco, a cantora americana usa roupas que destacam seu colo e ombros, que passaram de magros a cadavéricos, com ossos marcados pela pele.
No Instagram, um alerta de comunidade surgiu no post do clipe, oferecendo apoio e ajuda a quem luta contra distúrbios alimentares. A atriz britânica Jameela Jamil viralizou ao afirmar que a imagem de Ariana era “profundamente prejudicial” para jovens fãs e que a equipe dela era “irresponsável”. “Essa pobre mulher possivelmente está morrendo bem na nossa frente”, escreveu a atriz. A repercussão levou Ariana a comunicar que, ao fim de sua turnê atual, que acaba em 1º de setembro, ela dará um tempo da vida pública devido ao “escrutínio público incessante e constante” sobre sua aparência.

A equipe de Ariana, contudo, deveria trocar a palavra escrutínio por preocupação – e não só por ela, mas por muitas outras mulheres. Em tempos de Ozempic e companhia, filtros de aplicativos feitos por inteligência artificial e excessos de procedimentos estéticos, perdeu força a onda do “body positive”, ou positividade corporal, movimento que defendia o orgulho por corpos reais – o que levou até a uma bem-vinda mudança no mercado publicitário, com mais modelos de diversas formas físicas. Enquanto isso, no meio da moda, voltou a ser aclamado o chamado “heroin chic”, aspecto físico no qual a magreza e a palidez eram regra nas passarelas nos anos 1990 – o termo, vejam só, era derivado da droga heroína, por imitar a aparência de dependentes químicos. É importante entender a origem do fenômeno nocivo – e que acomete principalmente as mulheres. Para além de ter se tornado sinônimo de beleza – especialmente por causa dos padrões desmedidos do mundo da moda –, o corpo magro carrega consigo simbologias.


A sociedade que preza pelo esforço desmedido tornou o corpo humano em um instrumento de vigilância social: quem mantém um corpo magro e forte demonstra controle sobre desejos e excessos, comprovando ter disciplina, analisou a socióloga britânica Rosalind Gill em sua obra sobre a valorização da magreza. Já em O Mito da Beleza, a economista Naomi Wolf argumenta que, quando as mulheres conquistaram mais espaço profissional, os padrões de beleza tornaram-se ainda mais rígidos. Logo, quanto maior a autonomia feminina, maior também a pressão estética exercida sobre elas. O tema é complexo e demanda reflexão individual — a ajuda a quem precisa, porém, deve ser coletiva.
*Se você sofre com distúrbios alimentares, busque ajuda profissional.
Fonte: veja.abril
