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Há tempos em que a moda deixa de acompanhar o tempo e passa a contá-lo. Nesta temporada de alta-costura em Paris, Dior e Chanel olharam para o amor como quem folheia um livro de contos de fadas: um romance sem pressa, em que a delicadeza tem valor, a fantasia encontra a realidade e cada vestido parece guardar uma promessa de felicidade. Em tempos tão acelerados, ambas as maisons apostaram na beleza de sonhar.
A Dior abriu esse capítulo pelas mãos de Jonathan Anderson, que vive uma semana simbólica. Dias depois de assinar o vestido de noiva de Taylor Swift — ainda mantido em segredo —, o estilista apresentou, no Musée Rodin, uma coleção que faz do romantismo um exercício de forma e emoção. Inspirado na escultora americana Lynda Benglis, Anderson encontrou um ponto de encontro entre a força da matéria e a delicadeza dos afetos.
A histórica jaqueta Bar, criada por Christian Dior em 1947 como símbolo da feminilidade do pós-guerra, reaparece mais macia, envolvida por franjas verde-folha, babados e transparências. Vestidos de cetim escorrem pelo corpo como personagens das pinturas pré-rafaelitas, enquanto as pregas reproduzem o movimento orgânico da natureza, transformando tecido em poesia. Até os acessórios seguem essa narrativa: bolsas adornadas por laços, sapatos bordados com flores e chapéus texturizados parecem pertencer a um jardim encantado.
O encerramento era inevitável. Um vestido de noiva de renda, de ombros à mostra e longa cauda, lembrava que a alta-costura continua sendo o lugar onde os sonhos insistem em sobreviver. Não por acaso, desde o século XIX, poucas imagens carregam tanto simbolismo quanto a da noiva: a representação de um futuro imaginado, da esperança e da possibilidade de um novo começo.
Na Chanel, o romance não aparece como conto de fadas, mas como transformação. Matthieu Blazy encontrou em uma frase de Gabrielle Chanel — “seja lagarta durante o dia e borboleta à noite” — a metáfora perfeita para construir sua narrativa na alta-costura da maison. É uma coleção sobre o tempo, sobre a espera e sobre a beleza de se tornar outra versão de si mesmo.
O tradicional tailleur Chanel atravessa décadas em tecidos que unem tweed, tricôs e novas fibras, preservando sua essência enquanto ganha leveza. Aos poucos, o dia se dissolve na noite. As silhuetas tornam-se fluidas, os brilhos aparecem como asas iluminadas e vestidos quase etéreos parecem prontos para um baile. As joias em esmalte e madrepérola iridescente, as botas em tons suaves e as bolsas que transitam entre o utilitário e o lúdico reforçam essa ideia de metamorfose.
A imagem da borboleta, aliás, atravessa séculos como símbolo de renascimento, amor e transformação. Na mitologia grega, a palavra psyché significa ao mesmo tempo alma e borboleta. Talvez por isso Blazy tenha escolhido esse voo para inaugurar um novo capítulo da Chanel: porque algumas mudanças não acontecem de repente; elas amadurecem em silêncio, até encontrarem o momento certo de abrir as asas.
Embora contem histórias diferentes, Dior e Chanel chegaram ao mesmo destino. Uma encontrou o amor nos jardins e nas princesas contemporâneas; a outra, nas metamorfoses da vida. Juntas, lembram que o romantismo nunca saiu de moda — apenas aguardava a estação certa para voltar a florescer. Essa é a maior mensagem da alta-costura de hoje: as coisas mais bonitas não acontecem com pressa. Elas chegam quando o tempo, enfim, decide vestir o coração.
Veja os looks:
Dior alta-costura inverno 2026-2027




Chanel alta-costura inverno 2026-2027




Fonte: veja.abril
