Para o headhunter Fábio Salomon, o maior erro das empresas não está apenas em escolher o profissional certo, mas em falhar na integração após a contratação
Quando um processo seletivo chega ao fim e o candidato aceita a proposta, é comum que empresas e gestores tenham a sensação de missão cumprida. No entanto, segundo o headhunter e especialista em recrutamento executivo Fábio Salomon, esse é justamente o momento em que uma contratação bem-sucedida começa a ser colocada à prova.
Com mais de duas décadas de experiência recrutando executivos para posições estratégicas, Salomon afirma que muitas das contratações consideradas “fracassadas” nunca tiveram, de fato, a oportunidade de se consolidar.
“As falhas de contratação mais caras que já vi não foram contratações ruins. Foram boas contratações que nunca chegaram a acontecer de verdade. O profissional certo, escolhido pelos motivos certos, que seis meses depois pede para sair ou é convidado a sair, sem que ninguém entenda direito o que aconteceu.”
Na avaliação do especialista, a explicação costuma estar em um período frequentemente subestimado pelas organizações: o onboarding.
Muito além do primeiro dia de trabalho
Embora o termo tenha se popularizado no ambiente corporativo, Fábio Salomon observa que muitas empresas ainda tratam o onboarding como uma etapa burocrática, limitada à entrega de documentos, apresentação institucional e processos administrativos.
Para ele, essa visão está distante do verdadeiro propósito da integração.
“Onboarding virou uma daquelas palavras que as empresas usam sem nem sempre saber o que significa. Para muita gente, é o kit de boas-vindas, o crachá, o formulário de dados e a apresentação de PowerPoint no primeiro dia. Isso é a superfície.”
Segundo Salomon, o processo de integração é muito mais profundo e consiste na inserção planejada do profissional na cultura, nos valores e nas expectativas da organização, um trabalho que pode durar semanas ou até meses.
“A versão burocrática entrega informação. A versão estratégica entrega pertencimento. Uma explica onde fica o banheiro e como bater o ponto. A outra faz o profissional entender por que aquele trabalho importa, como as decisões são tomadas ali dentro e o que a casa espera dele nos próximos noventa dias.”
Na prática, ele explica que empresas que investem nessa etapa conseguem acelerar a produtividade dos novos colaboradores, reduzir índices de rotatividade e fortalecer a própria cultura organizacional.
Lideranças exigem integração ainda mais estruturada
Quando a contratação envolve cargos executivos, a importância do onboarding cresce ainda mais. De acordo com Fábio Salomon, líderes normalmente chegam às organizações com a missão de promover mudanças, mas muitas vezes enfrentam resistência por desconhecerem a dinâmica interna da empresa.
“Um líder que aterrissa sem sustentação enfrenta essa resistência sozinho. Não conhece os códigos informais, não sabe quem realmente decide, não entende por que uma iniciativa óbvia esbarra sempre no mesmo lugar.”
Segundo ele, mesmo profissionais tecnicamente preparados podem enfrentar dificuldades nos primeiros meses caso não recebam o suporte necessário para compreender a cultura e as relações internas da organização.
“Quando isso acontece, todo o investimento do processo seletivo evapora, e a conta é altíssima.”
Por isso, Salomon defende que o período entre a aceitação da proposta e os primeiros 90 dias de atuação deve receber a mesma atenção dedicada à busca pelo candidato ideal.
O que diferencia um onboarding eficiente
Na visão do especialista, um bom processo de integração começa antes mesmo do primeiro dia de trabalho.
“O contato na fase de pré-embarque, com informações práticas e um aceno de que a chegada é esperada, já reduz a ansiedade e sinaliza organização.”
Depois da chegada, três fatores tornam-se fundamentais para aumentar as chances de sucesso da contratação: clareza sobre expectativas e metas, a presença de um mentor ou padrinho capaz de orientar o novo profissional e um acompanhamento contínuo, baseado em conversas periódicas e feedbacks nos dois sentidos.
“Nada disso exige tecnologia sofisticada ou orçamento alto. Exige intenção. A maior parte dos onboardings fracassa não por falta de recurso, mas por falta de dono.”
A responsabilidade também é do profissional
Embora boa parte da responsabilidade recaia sobre as empresas, Fábio Salomon ressalta que o onboarding é uma construção compartilhada.
Na avaliação do especialista, profissionais que conseguem acelerar sua adaptação costumam assumir uma postura ativa desde os primeiros dias.
“Quem chega bem não espera passivamente ser apresentado à cultura. Observa, pergunta, mapeia quem é quem, entende como as coisas realmente funcionam antes de sair propondo mudanças. Escuta antes de falar. Constrói relações antes de precisar delas.”
Segundo ele, esse comportamento costuma diferenciar aqueles que rapidamente conquistam credibilidade dos que permanecem, por muito tempo, sendo vistos como visitantes dentro da organização.
Ao final, Salomon reforça que contratar o candidato ideal representa apenas parte do desafio.
“Contratar bem é difícil e caro. Mas a contratação certa, sozinha, não garante nada. O que transforma uma boa escolha em um bom resultado é o que acontece depois que o candidato diz sim. É aí que a empresa decide se ganhou um talento ou apenas preencheu uma vaga.”
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Fábio Salomon é headhunter e Managing Partner da BRAVA Executive Search, com atuação especializada no recrutamento estratégico de executivos para posições de alta liderança nas áreas jurídica, compliance e relações governamentais. Também é sócio da Aliá Mentoring Jurídico, palestrante, articulista e apresentador do podcast Café com Sal, onde debate liderança, gestão de carreiras e os desafios do mercado executivo.
