Dia dos Namorados: A Coragem de Ser Verdadeiro

ColunasDia dos Namorados: A Coragem de Ser Verdadeiro

Existe uma pergunta que quase nunca fazemos no Dia dos Namorados.

Perguntamos se existe amor. Perguntamos se existe paixão. Perguntamos se existe compatibilidade. Mas quase nunca perguntamos se existe verdade.

E talvez essa seja a pergunta mais importante de todas.

A pesquisadora Brené Brown passou anos estudando o que separa as pessoas que vivem relacionamentos plenos das que se sentem cronicamente vazias dentro deles. A resposta que encontrou foi surpreendente: não era talento, nem beleza, nem sorte. Era vulnerabilidade. Era a disposição de aparecer sem armadura, de se mostrar por inteiro mesmo sem garantia de que o outro ficaria.

Sidarta Gadelha
Pesquisadora Brené Brown.

Com o tempo, aprendi que relacionamentos não terminam apenas por falta de amor. Muitas vezes, eles começam a se desgastar quando as pessoas deixam de se sentir seguras para serem exatamente quem são.

Vivemos em uma época curiosa. Nunca foi tão fácil se conectar e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil se mostrar por inteiro. Escondemos fragilidades para não parecermos fracos. Escondemos histórias para não sermos julgados. Escondemos medos para não parecermos insuficientes.

E assim, pouco a pouco, construímos personagens.

Versões mais aceitas.
Mais convenientes.
Mais seguras.

Mas existe um preço silencioso.

Toda vez que escondemos uma parte de quem somos por medo da reação do outro, deixamos de dar a ele a oportunidade de conhecer quem realmente somos. E nenhuma relação pode florescer plenamente quando é construída sobre versões incompletas das pessoas que a compõem.

Carl Jung escreveu que “o encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se há alguma reação, ambas se transformam”.

Mas o que acontece quando uma das substâncias está disfarçada?

Não há transformação verdadeira. Há apenas performance.

O amor maduro não nasce quando tudo é perfeito. Ele nasce quando a verdade chega primeiro.

Quem ama de verdade não procura um passado impecável. Procura coerência. Procura honestidade. Procura a tranquilidade de olhar para alguém e saber que não existem personagens entre os dois.

Simone de Beauvoir defendia que o amor autêntico só é possível entre duas pessoas que se reconhecem mutuamente como livres. Não como projeções uma da outra. Não como ideais construídos pela imaginação. Mas como seres reais, com história, contradições e imperfeições.

Talvez por isso a confiança seja o patrimônio mais valioso de qualquer relacionamento. Ela não é construída pelos grandes discursos românticos nem pelas promessas feitas em datas especiais. Ela é construída nas pequenas escolhas diárias pela verdade.

A verdade desconfortável.
A verdade imperfeita.
A verdade que, às vezes, nos deixa de mãos vazias e coração exposto.

Porque a vulnerabilidade assusta, mas a dúvida corrói.

Ortega y Gasset, em seus estudos sobre o amor, observava que amar é desenvolver um interesse extraordinário pelo ser real do outro, e não pela imagem que construímos dele. É exatamente aí que mora o risco das máscaras: quando a relação se desenvolve a partir de versões idealizadas, a confiança acaba sustentando um peso para o qual não foi preparada.

Sidarta Gadelha
Ortega y Gasset.

Neste Dia dos Namorados, desejo que os casais encontrem algo ainda mais raro do que a paixão: a liberdade de serem autênticos.

Que possam falar sem medo.
Errar sem máscaras.
Pedir perdão sem orgulho.
E amar sem precisar representar um papel que ninguém pediu, mas que muitos aprendemos a interpretar ao longo da vida.

Dostoiévski colocou na boca do starets Zósima, em Os Irmãos Karamázov, uma das reflexões mais honestas já escritas sobre o amor:

“O amor ativo é uma coisa áspera e assustadora comparado ao amor nos sonhos.”

Amar de verdade não é fácil nem confortável. Exige presença. Exige coragem. Exige que a gente apareça como é, e não como gostaria de ser visto.

No fim das contas, o amor mais bonito não é aquele em que duas pessoas nunca se decepcionam.

É aquele em que duas pessoas escolhem permanecer verdadeiras, mesmo quando a verdade parece mais difícil do que o silêncio. Mesmo quando seria mais fácil sorrir e não dizer nada.

Sidarta Gadelha

Porque o amor pode nascer da admiração.
Pode crescer pela afinidade.
Pode florescer pela convivência.

Mas é a verdade que lhe dá raízes.

E permanecer enraizado em tempos de relações cada vez mais superficiais talvez seja, hoje, o ato de amor mais revolucionário que existe.

Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha é empresário e doutorando em Ciências Empresariais e Sociais. Atua na interseção entre comportamento humano, liderança, cultura organizacional e responsabilidade pública. Em sua coluna, reflete sobre decisões, instituições e pessoas, traduzindo temas complexos em ideias simples e aplicáveis ao cotidiano profissional e social.

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