Quando o problema não é competência, mas maturidade

ColunasQuando o problema não é competência, mas maturidade

“Estamos formando homens sem peito e esperando deles virtude e iniciativa.”
— C.S. Lewis

Poucas frases escritas no século passado parecem descrever tão bem os tempos atuais.

Quando C.S. Lewis escreveu essas palavras, ele não estava preocupado apenas com educação. Ele estava preocupado com algo mais profundo: a formação do caráter humano.

C. S. Lewis

Sua inquietação continua atual.

Vivemos uma época extraordinariamente desenvolvida em tecnologia, mas curiosamente insegura em relação à própria natureza humana. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, e talvez nunca tenhamos enfrentado tanta dificuldade para responder perguntas fundamentais sobre identidade, propósito, responsabilidade e significado.

Essa crise não acontece apenas no campo cultural. Ela chega às empresas. Aos relacionamentos. À política. À família. E, sobretudo, à formação dos homens.

Durante décadas, nossa sociedade dedicou enorme energia para ensinar competências, mas cada vez menos tempo para cultivar virtudes. Formamos profissionais preparados para operar sistemas complexos, mas frequentemente despreparados para enfrentar sofrimento, rejeição, fracasso ou responsabilidade.

Sabem administrar planilhas.

Mas não sabem administrar a si mesmos.

E toda vez que uma geração perde a capacidade de governar a própria vida, as consequências inevitavelmente aparecem nas instituições que ela constrói.

Nos negócios, isso se manifesta de diversas formas.

Líderes que desejam autoridade, mas evitam responsabilidade.

Empresários que buscam crescimento, mas não suportam adversidade.

Profissionais brilhantes que se desorganizam diante da primeira grande crise.

A questão raramente é técnica. Na maioria das vezes, é humana. Porque liderança nunca foi apenas uma habilidade profissional. Sempre foi uma consequência da maturidade interior.

Os antigos filósofos compreendiam isso com clareza. Antes de governar cidades, era necessário aprender a governar a própria alma. Antes de liderar outros homens, era preciso dominar os próprios impulsos. Antes de transformar o mundo, era necessário construir ordem dentro de si mesmo.

Hoje fazemos o caminho inverso.

Buscamos performance sem disciplina.

Resultados sem sacrifício.

Reconhecimento sem responsabilidade.

E acabamos produzindo uma geração que deseja os frutos, mas rejeita as raízes que os sustentam.

Talvez por isso tantas pessoas estejam cansadas. Não porque lhes falte capacidade. Mas porque lhes faltam referenciais.

Toda grande civilização foi construída por homens que compreenderam uma verdade simples: maturidade não é fazer aquilo que se deseja.

A verdadeira masculinidade nunca esteve associada à agressividade ou à dominação.

Ela sempre esteve ligada à capacidade de proteger, servir, construir e assumir consequências.

Em outras palavras: responsabilidade.

E responsabilidade talvez seja a palavra mais necessária para os próximos anos.

Não apenas para os homens.

Mas para qualquer pessoa que deseje construir algo duradouro.

Empresas sobrevivem através de estratégias. Mercados crescem através da inovação. Mas civilizações permanecem através das virtudes que conseguem transmitir às próximas gerações.

Por isso, quando observamos a crise da masculinidade contemporânea, talvez estejamos olhando para algo muito maior do que uma discussão sobre comportamento.

Estamos olhando para uma pergunta essencial:

Quem estará disposto a assumir o peso de construir o futuro?

Porque toda geração herda problemas.

Mas somente algumas escolhem carregar a responsabilidade de resolvê-los.

Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha
Sidarta Gadelha é empresário e doutorando em Ciências Empresariais e Sociais. Atua na interseção entre comportamento humano, liderança, cultura organizacional e responsabilidade pública. Em sua coluna, reflete sobre decisões, instituições e pessoas, traduzindo temas complexos em ideias simples e aplicáveis ao cotidiano profissional e social.

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