iFood “segue rastro” de espionagem corporativa e leva a Keeta para a Justiça

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A guerra declarada entre as empresas de delivery no Brasil, que envolve casos de espionagem corporativa, ganha um novo episódio. Líder do mercado nacional, o iFood impetrou uma ação civil, na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São Paulo, contra a Keeta, pela prática de concorrência desleal.
Além da Keeta, que começou a operar no Brasil em outubro de 2025, a ação do iFood inclui no polo passivo a chinesa Meituan, controladora da empresa e maior empresa de delivery do mundo. A companhia brasileira, liderada por Diego Barreto, pede uma indenização de R$ 1 milhão por danos morais.
O NeoFeed teve acesso à petição inicial, de 20 páginas, protocolada no início da noite de terça-feira, 19 de maio, em que o iFood afirma ter provas de que a Keeta estava por trás das abordagens feitas por consultorias asiáticas a funcionários e ex-funcionários da empresa, oferecendo pagamentos em troca de informações sensíveis do iFood.
“O objetivo das interações não era só obter informações públicas sobre o mercado de delivery no Brasil. As consultorias buscavam reunir diversos dados confidenciais sobre os negócios do iFood, incluindo indicadores econômicos e financeiros, planos de investimento futuros, relacionamento com estabelecimentos parceiros, dentre outros temas”, afirma a empresa, no processo.
O documento protocolado na Justiça traz detalhes destas abordagens, realizadas a partir de março de 2025, com episódios registrados até abril de 2026. A maior parte dessas interações ocorreu via rede social LinkedIn, por meio de mensagens privadas.
Para isso, a companhia seguiu o rastro de várias reuniões “remuneradas” feitas com o então executivo de vendas do iFood, Matheus Santana. A empresa entrou com queixa-crime contra o ex-funcionário e uma ação de busca e apreensão contra os aparelhos eletrônicos dele.
No processo, a companhia diz que o então colaborador realizou cinco reuniões online, entre abril e junho de 2025, a partir de contatos feitos pela consultoria China Insights Consultancy (CIC). Ainda em abril do ano passado, ele foi desligado do iFood. Santana afirma, em mensagens, ainda segundo consta no processo, que recebeu R$ 5 mil pelas conversas.
“Em um grupo de WhatsApp com outros funcionários e ex-funcionários, Matheus narrou extensamente suas interações com a CIC e as requeridas [Keeta e Meituan]. Enviou áudios relatando sua aproximação com a consultoria, divulgou valores pagos pela CIC, encaminhou listas de perguntas sobre os negócios do iFood e incentivou os demais membros do grupo a contatar representantes da CIC para agendar conversas semelhantes”, diz a ação do iFood.
No inquérito, ainda de acordo com o que consta na petição inicial, ele confirmou que tinha feito reuniões pagas, em troca de informações sigilosas. Foram apreendidos dois telefones celulares, um notebook e um disco rígido em posse de Santana que, a partir de análises, confirmaram que as reuniões efetivamente aconteceram.
A companhia diz que conseguiu chegar à Keeta nestas abordagens após ajuizar ação, nos Estados Unidos, contra a plataforma Zoom, cobrando que ela abrisse os e-mails de quem teria participado das reuniões com Santana.
O processo na justiça americana começou em fevereiro deste ano. E, segundo o iFood, as evidências, mostrando a conexão direta com a dona da Keeta, chegaram no dia 30 de abril deste ano.
Reuniões via Zoom
Na resposta, o Zoom revelou, nos documentos repassados, que aos menos sete e-mails tinham vinculação com a concorrente chinesa, identificados pelo domínio @meituan.com. Só que, em vez de nomes, os e-mails tinham números, o que, segundo o iFood, “constitui forte indício de tentativa deliberada de ocultar a identidade e o efetivo envolvimento dos reais representantes das requeridas”.
“Ao final de todo esse processo, foi possível obter prova cabal de que as requeridas efetivamente se reuniram com ao menos um de seus funcionários repetidas vezes para obter informações estratégicas sobre os negócios do iFood, e lhe pagou remuneração vultosa em troca dessas informações”, afirma a empresa, na petição.
A companhia também informa que, em outra conversa, uma representante da consultoria CIC, que participou da reunião com Santana, chamada Fiona Fan, pediu “insights”, também via LinkedIn, de outro funcionário do iFood sobre temas como relacionamento com supermercados, modelo logístico e gestão de entregadores.
No processo, o iFood anexa prints destas conversas, além do relatório detalhado enviado pelo Zoom e das próprias mensagens que Santana trocou com colegas sobre o caso.
Abordagens de outras consultorias também foram relatadas, como a da SixDegress e da chinesa BCC Global, que, segundo a petição, “fez diversas perguntas sobre o plano de investimentos do CEO do iFood, Diego Barreto, e mudanças na sua estrutura organizacional e de negócios”.
A abordagem foi feita por Liangwei Gu, com prints no processo. No LinkedIn, ela informa ser de Hong Kong e diz ser “gerente de projetos de uma empresa global de consultoria de investimentos”, sem informar o nome. O NeoFeed tentou contato via rede social com Gu, mas não houve resposta.
Em outro caso, um representante da GSR, de Hong Kong, abordou três colaboradores do iFood para que dessem uma espécie de “aconselhamento” à Keeta sobre sua entrada no Brasil. A empresa oferecia entre US$ 400 e US$ 500 por hora de conversa. Há um e-mail com esta abordagem, datado de 16 de maio de 2025.
Segundo o que iFood informou na petição inicial, o modus-operandi de abordar os funcionários por meio de várias consultorias tinha como principal objetivo dificultar descobrir quem seriam os reais interessados nesses dados.
A empresa brasileira, que integra o grupo holandês Prosus, afirma ainda que chegou a mandar notificações extra-judiciais a estas consultorias, mas que as práticas não foram sanadas. “As consultorias, ao que tudo indica, são apenas instrumentos substituíveis, usados pelas requeridas para obter informações sobre o iFood, enquanto permanecem no anonimato.”
A ação civil do iFood é assinada pelos advogados Eduardo Secchi Munhoz, João Vicente Lapa de Carvalho, Ana Gonçalves e Caio de Magalhães Brega, do escritório E.Munhoz Advogados.
A concorrência desleal é tipificada pela Lei de Propriedade Industrial (LPI), em seu artigo 195, e inclui casos de espionagem e suborno. A pena prevista é de detenção de três meses a um ano, além de multa. A ação, no entanto, não envolve a esfera criminal.
A companhia usa o artigo 209 da LPI, que garante o direito à indenização pelos possíveis danos práticos. Além do dano moral, o iFood também cobra danos materiais, sem especificar valores, mas solicita apuração detalhada dos lucros cessantes.
A líder do mercado de delivery no país alega a capacidade econômica de Keeta e Meituan, além do volume previsto de R$ 5,6 bilhões em investimentos na operação brasileira, para justificar o pedido de R$ 1 milhão de danos morais às duas.
Na causa, o iFood pede que a Justiça determine que elas sejam obrigadas a parar de abordar funcionários e ex-funcionários, seja de forma direta ou por meio de consultorias, e de buscar informações confidenciais da concorrente, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
A empresa, criada em 2011, em Jundiaí, em São Paulo, revela ter hoje mais de 65 milhões de clientes no Brasil, com mais de 500 mil estabelecimentos e entregadores ativos em sua plataforma digital. O iFood opera em mais de 2 mil municípios e movimenta mais de R$ 8 bilhões por mês.
Levantamento da Getnet mostra que o setor de delivery de alimentos faturou R$ 79 bilhões em 2025, alta de 12,7% sobre o ano anterior. No período, o tíquete médio foi de R$ 66,21 por refeição, 12% acima do apurado no consumo presencial de restaurantes. O volume mensal chegou a 150 milhões de pedidos, aumento de 24%.
Além da Keeta, a 99Food, controlada pela chinesa DiDi, voltou a operar no mercado brasileiro, em junho de 2025. A empresa chegou a atuar a partir de 2019, mas deixou o país em 2023.
Procurado pelo NeoFeed para falar sobre o processo contra a Keeta, o iFood informou, por nota, que “já tomou medidas judiciais e extrajudiciais contra essas práticas de concorrência desleal”.
“A empresa continuará trabalhando para identificar as empresas envolvidas e promover um ambiente ético e de respeito às leis no ecossistema de delivery brasileiro”, completa a nota.
Após a publicação da reportagem, a Keeta enviou a seguinte nota:
“A Keeta defende um mercado aberto e justo e, para isso, está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade com todos os requisitos locais. A empresa reforça que não contrata terceiros para abordar indivíduos em seu nome para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação. A Keeta segue rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e possui políticas internas robustas e transparentes quanto ao uso de dados.
A Polícia Civil abriu uma investigação sobre alegações de ataques coordenados de espionagem contra a Keeta e restaurantes em Santos, após o lançamento da operação na cidade. Pelo menos 8 restaurantes locais foram abordados por indivíduos que se apresentavam como supostos funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo pedidos aceitos e despachados, informações financeiras (métodos de pagamento dos consumidores, práticas de remuneração de entregadores, taxas de comissão e modelos de contratação), processos de integração e treinamento de restaurantes, cardápios, preferências dos consumidores e outros dados sensíveis.
A Keeta reitera seu total compromisso com um ambiente de concorrência livre e justa, baseado nas melhores práticas de mercado, e se coloca à disposição para cooperar com as autoridades sempre que necessário”.

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Fonte: Neofeed

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