Com fio e com atitude: por que os fones antigos viraram símbolo de estilo?

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Houve um tempo em que tentar desfazer nós de um fio de fones de ouvido, no fundo da bolsa, parecia o retrato do caos moderno. Hoje, no entanto, em uma era dominada por AirPods minimalistas, cases ultratecnológicos e conexões invisíveis, eles voltaram como uma espécie de nova rebeldia fashion que, literalmente faz questão de aparecer, pendurada para fora do bolso.

Os headphones cabeados, que pareciam condenados ao esquecimento depois da explosão do Bluetooth, vivem um retorno improvável — e altamente estiloso. As vendas cresceram 20% nas primeiras semanas de 2026, impulsionadas por uma geração cansada de carregar bateria para tudo, reconectar dispositivos o tempo inteiro e atualizar gadgets sem parar.

Na moda, o movimento começou antes mesmo de virar tendência comercial. Ainda em 2019, Bella Hadid já aparecia em aeroportos e flagras de street style usando os discretos fios brancos combinados a casacos minimalistas e botas de luxo. Bastou isso para transformar o acessório banal em objeto de desejo. Depois vieram Zoë Kravitz, Zendaya, Paul Mescal, Emily Ratajkowski, Lily-Rose Depp e Kaia Gerber reforçando a estética despretensiosamente cool dos fios aparentes.

Nas redes sociais, o fenômeno rapidamente ganhou outra camada: status. Um tweet viral ironizava que “usar fones sem fio 24 horas por dia é sinal de que você não possui terras”, enquanto fotos de Robert Pattinson e Lily-Rose Depp usando fones antigos circulavam como referência máxima de estilo blasé. O que antes era considerado ultrapassado virou símbolo de autenticidade.

A indústria da moda, claro, percebeu rápido. Campanhas de grifes passaram a incorporar os fones como item fashion. A Balenciaga⁠ colocou os clássicos fios brancos em editoriais de luxo, enquanto a Chanel⁠ lançou sua própria versão de headphones cabeados por cifras dignas de joalheria. O acessório utilitário virou styling.

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Mas talvez o maior charme esteja justamente na simplicidade. Enquanto um AirPods pode custar centenas de dólares e exigir carregador, bateria e sincronização constante, os velhos EarPods seguem funcionando da forma mais direta possível: plugou, ouviu. Sem notificações, sem delay, sem “Bluetooth disconnected”.

Existe também um certo romantismo analógico nessa volta. Assim como câmeras digitais antigas, flip phones, iPods e até fitas cassete, os fones com fio carregam um apelo nostálgico irresistível para a Geração Z. Em um mundo hiperconectado e excessivamente polido, eles parecem humanos. Imperfeitos, emaranhados e muito reais.

E talvez seja exatamente isso que os torne tão desejáveis agora. Porque esses fios aparentes revelam uma pequena resistência silenciosa à lógica da tecnologia que quer tudo invisível, automático e descartável. Um gesto simples, quase banal — mas com uma poderosa estética de manifesto.

 

Fonte: veja.abril

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