A guerra do mercado de delivery de refeições no Brasil escalou ao nível máximo de tensão. Acusações mútuas de espionagem corporativa, desvios de informações sigilosas e disputas no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e na Justiça por supostas práticas ilegais e predatórias estão no centro das ações de iFood, 99Food e Keeta.
O episódio mais recente dessa escalada foi um vídeo, publicado pelo CEO do iFood, Diego Barreto, em suas redes sociais, no qual afirma que, desde abril do ano passado, consultorias asiáticas, especialmente da China, têm abordado funcionários do iFood via LinkedIn para buscar dados internos da companhia, em troca de pagamentos.
O modus operandi, de acordo com o executivo, consiste no envio de mensagens de supostos executivos dessas consultorias para equipes de diversas áreas do iFood, principalmente comercial e tecnologia, com perguntas sobre GMV por região e cidade, pedidos diários, valor médio do pedido, entre outros dados considerados sensíveis.
O NeoFeed teve acesso a algumas dessas abordagens via rede social. Segundo a empresa, desde então já foram mais de 170 casos em que os trabalhadores da empresa foram envolvidos, desde o ano passado – uma prática que teria diminuído, segundo Barreto, mas que voltou com força agora.
De acordo com o CEO do iFood, as abordagens passaram a envolver funcionários de outras empresas do grupo holandês Prosus, dona do iFood, justamente em busca de informações sigilosas sobre a empresa brasileira.
“Esse movimento dessas consultorias chinesas coincide com a chegada no Brasil de 99Food e Keeta, que são plataformas da China”, diz o CEO do iFood, em entrevista ao NeoFeed.
“Estou enxergando uma ação coordenada e sistemática para, diariamente, roubar dados do iFood. Este é um processo muito evidente e repetitivo. Eles oferecem cerca de R$ 3 mil ou R$ 4 mil para falar sobre o Brasil, depois oferecem mais para falar sobre a empresa”, afirma.
A Keeta nega qualquer envolvimento neste tipo de abordagem e diz que nunca recebeu qualquer notificação de que a envolvesse nos casos de espionagem. “A empresa defende um mercado aberto e justo e, para isso, está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade com todos os requisitos locais”, diz, em nota enviada ao NeoFeed.
“A Keeta reforça que não contrata terceiros para abordar indivíduos em seu nome para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação”, completa a empresa.
Segundo Barreto, o iFood não tem conseguido mover ação criminal contra essas consultorias, por dificuldade de acionar a Justiça chinesa. “Desisti de buscar na China uma forma de resolver esta questão. Não há como quebrar sigilo destas empresas. Me vejo de mãos atadas para buscar esta reparação.”
O CEO do iFood afirma que há outro problema que envolve o assédio de empresas asiáticas. Segundo ele, ex-funcionários do iFood, que passaram a atuar em empresas concorrentes, teriam levado informações sigilosas.
“Para mim, é péssimo ter de gastar energia com compliance, enquanto poderia estar gastando no desenvolvimento de produtos. E o que a gente tem deixado claro na empresa é que a situação será levada à polícia. Já há casos em investigação e chegamos a demitir funcionários”, afirma Barreto.
Por outro lado, a Keeta também afirma ser alvo de espionagem de suas operações. Segundo a empresa, há investigação da Polícia Civil sobre denúncias de ataques coordenados contra a empresa junto a estabelecimentos na Baixada Santista, no litoral de São Paulo.
“Pelo menos oito restaurantes locais foram abordados por indivíduos que se apresentavam como supostos funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo pedidos aceitos e despachados, informações financeiras, preferências dos consumidores e outros dados sensíveis”, afirma a empresa, em nota.
Barreira de exclusividade e práticas predatórias
Ao lado da espionagem, a briga de delivery envolve também acusações de práticas predatórias e dificuldades para romper a barreira de exclusividade.
Em agosto de 2025, a Keeta foi ao Cade cobrar apuração do órgão contra suposto descumprimento das medidas de controle de mercado. E acusou a compatriota 99Food de práticas anticompetitivas. A Abrasel, que representa bares e restaurantes, pediu para ser parte do processo, por ter relação direta com o mercado.
O Cade abriu um inquérito administrativo para investigar com mais rigor uma possível prática anticompetitiva do mercado no fim de março deste ano. Não há decisão em nenhum dos processos.
Em fevereiro deste ano, a Keeta adiou o início de sua operação no mercado do Rio de Janeiro por tempo indeterminado sob alegação de dificuldades de romper a barreira de exclusividade de iFood e 99Food.
Outro ponto que demonstra a escalada no mercado de delivery envolve também acusação de prática de “preços predatórios”, com utilização de descontos acima das margens do setor.
“Há o uso de volume de dinheiro muito grande gerado na China, que vem para cá e força o mercado a operar a preços extremamente baixos. Volume de desconto a 50% é uma forma de pressão. Preço predatório é diferente de desconto”, afirma o CEO do iFood.
A Keeta também nega qualquer prática anticoncorrencial, no caso dos cupons de desconto. “Como uma marca recém-chegada ao Brasil, utilizamos cupons de forma estratégica para criar a experimentação inicial, mas nosso foco é garantir que o consumidor permaneça pela qualidade, previsibilidade e experiência.”
Um mercado bilionário
O pano de fundo desta guerra está na conquista de espaço em um mercado gigante, em acelerada expansão. Levantamento realizado pela área de inteligência de mercado da GetNet mostra que o setor de delivery de alimentos faturou R$ 79 bilhões em 2025, alta de 12,7% sobre o ano anterior.
No período, o tíquete médio foi de R$ 66,21 por refeição, 12% acima do apurado no consumo presencial de restaurantes. O volume mensal chegou a 150 milhões de pedidos, aumento de 24%.
Segundo estudo de 2023 da Abrasel, o mercado é dominado pelo iFood, que conta com 82% de market share. Mas isso sem levar em conta ainda os novos concorrentes. Um novo estudo deve ser feito nos próximos meses para medir a atual temperatura do mercado.
A questão é que, no meio desta disputa, estão os restaurantes que precisam da renda do serviço de entrega. Pesquisa da Abrasel mostra que, em 2025, os cerca de 1,6 milhão de estabelecimentos faturaram R$ 495 bilhões.
Do volume de estabelecimentos comerciais de alimentação, 68% realizam operações de delivery, sejam próprias ou por aplicativos de outras empresas. O volume de entregas representa entre 20% e 30% da receita. E, para operar, a maior parte precisa assinar contratos de exclusividade com a plataforma.
Segundo Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, este conflito entre as empresas e a guerra por exclusividade é prejudicial para os restaurantes. “É claro que quanto mais plataformas, melhor. O problema é que a exclusividade afeta demais o estabelecimento e fecha o mercado. No caso do delivery, quando o cliente não encontra seu restaurante, você perde a venda”, afirma.
Em fevereiro de 2023, o iFood assinou um Termo de Compromisso de Cessação (TCC) com o Cade e se comprometeu a diminuir o índice de contratos de exclusividade em relação a restaurantes que atendem em sua plataforma de delivery.
Pelo documento estabelecido, a plataforma se obriga a manter o volume total de negócios atrelados a restaurantes exclusivos na plataforma do iFood em um percentual máximo de 25% do GMV total da empresa. “Esta discussão está resolvida no Cade. Ela é cumprida e auditada e nós estamos cumprindo todos os ritos”, diz Barreto.
O iFood hoje tem 60 milhões de usuários ativos, com 460 mil estabelecimentos parceiros em mais de 1.580 cidades. A Keeta diz ter superado cinco milhões de downloads, com mais de 40 mil restaurantes parceiros e conta com uma base de mais de 115 mil entregadores parceiros. A 99Food está em mais de 70 cidades, com meta de chegar a 100 até junho.
Controlada pela DiDi, a 99Food voltou a operar no mercado brasileiro em junho de 2025, em um período de testes em Goiânia. Em agosto, expandiu para a Região Metropolitana de São Paulo. A empresa chegou a atuar no Brasil a partir de 2019, mas deixou a operação de delivery em 2023.
A Keeta, que tem como dona a também chinesa Meituan, considerada a maior empresa de delivery do mundo, entrou no Brasil em outubro do ano passado, com uma operação-piloto em Santos e São Vicente. Em dezembro, passou a realizar atendimento na cidade de São Paulo e na Região Metropolitana.
Procurada pelo NeoFeed, a 99Food não respondeu aos questionamentos sobre os casos levantados pelo iFood e Keeta. O Cade também não se manifestou.
Fonte: Neofeed
