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Tem algo de mágico — e muito consciente — no jeito como Miley Cyrus anda revisitando sua Hannah Montana, sem necessariamente soar presa a ela. Isso porque ela não está tentando fazer um revival e nem entrou só em uma onda nostálgica. De um lado, sim, tem o brilho quase adolescente dos paetês, o loiro com franja, a memória afetiva de uma geração inteira, mas do outro, aparece uma mulher de 2026 que pisa firme em couro, linhas retas, atitude quase distópica, como se tivesse atravessado um portal direto para “Matrix”. E no meio disso, o mais interessante: forma-se uma narrativa de estilo orgânica, que simplesmente acontece.
No tapete vermelho do iHeartRadio, o gesto foi claro. Sai o glitter, entra o sobretudo de couro estruturado, a silhueta enxuta, o olhar esfumaçado com uma dose de grunge. Ainda assim, a Hannah continua ali, mas é só uma camada. Miley entendeu, de forma bastante inteligente, que nostalgia não é figurino, mas sentimento. E sentimento, quando bem usado, vira assinatura.
Talvez por isso seus looks recentes tenham essa força meio hipnótica. Há ironia no t-shirt com a própria imagem dos anos 2000 sob um vestido metálico; há desejo no couro usado como segunda pele; há memória, mas também ruptura. Ela brinca com o passado sem ficar se justificando. E, nesse jogo, encontra um lugar de quem usa a moda para contar uma história que ainda está sendo escrita.
O impacto ali é sobre liberdade. Sobre poder circular entre versões de si mesma sem precisar escolher uma só. Como ela mesma disse ao revisitar Hannah: “às vezes, é justamente o personagem que revela quem você é de verdade”. Miley, hoje, parece confortável nesse entrelugar onde o pop encontra o futurista, e o passado deixa de ser abrigo para virar impulso. No melhor dos mundos, estilo não é sobre voltar, mas sobre saber ir e vir. E Miley já entendeu o caminho.


Fonte: veja.abril
