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A costura da moda é frequentemente alinhavada por momentos de ruptura que redefinem a percepção do corpo feminino, e poucos elementos foram tão determinantes nesse processo quanto o decote ombro a ombro. Em 1956, quando Brigitte Bardot surgiu em E Deus Criou a Mulher, o cinema e a estética global sofreram uma transformação imediata. Por meio de um vestido ajustado, com o corte escorrendo pela espalda, a atriz francesa deixaria claro: gestos simples, como a naturalidade do colo exposto, poderiam ser muito, mas muito mais sensuais do que deixar tudo cair, em sinônimo de elegância e liberdade. A influência daquela postura explodiu como bomba atômica, e não por acaso o desenho passou desde então a ser conhecido como “decote Bardot”.
É coincidência interessante demais para ser desdenhada a morte de Bardot, em 28 de dezembro do ano passado, e o simultâneo renascimento da tendência inaugurada por ela, em onda que volta com algum estrondo nas passarelas e nas redes sociais — como sempre, nos dias de hoje. No tapete vermelho do Globo de Ouro, ali onde brilharam as estrelas inesperadas de O Agente Secreto, nomes do topo do topo deram o que falar com a pele à mostra. Ariana Grande foi de Vivienne Westwood. Ayo Edebiri e Selena Gomez, com uma piscadela nostálgica para a Hollywood dos anos 1940 e 1950, escolheram Chanel. Jennifer Lopez, no lançamento do musical O Beijo da Mulher Aranha, em 2025, mandou ver a bordo de um Harris Reed.

Estavam todas, afinal, puxando o fascinante fio da história. A modelagem que revela com sofisticação a clavícula e a “saboneteira” já integrava o vestuário das cortes europeias nos séculos XVIII e XIX, sendo uma escolha recorrente em vestidos de baile que buscavam valorizar a postura e a delicadeza feminina em rituais sociais sob a luz dos salões. Paralelamente aos palácios, pulsava também no vestuário popular, presente em blusas camponesas e na indumentária das comunidades ciganas. Esse dualismo histórico — oscilando entre o aristocrático e o popular, o sofisticado e o livre — é a essência que acompanha o decote até os dias de hoje. Saiu de cena, sim, muitas vezes, dado o pudor das ondas de conservadorismo — que também vão e vêm, em movimentos que não cessam.
O trunfo de Bardot, a rigor — e para isso servem as lendas —, foi conferir rosto, atitude e desejo a uma estrutura que já existia, mas que carecia de vitalidade. Ao transpor o decote para a vida real e para o cenário de veraneio de Saint-Tropez, ela rompeu com o figurino engessado da época, permitindo que o traçado deixasse de ser exclusivo da formalidade noturna para brilhar à luz do dia em tecidos de algodão. O cinema rapidamente capturou essa força horizontal sobre o corpo, por assim dizer, reconstruindo de modo ainda mais sinuoso as silhuetas que haviam ganhado fama e espaço com Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe. “O estilo vela mais o corpo, não deixa tudo tão exposto”, diz o estilista Reinaldo Lourenço. “E traz uma atitude diferente, que evidencia a insinuação de maneira mais interessante.”

Do ponto de vista do cotidiano, para quem não está no holofote das celebridades, cabe um conselho: versátil e democrático, a moda favorece diferentes corpos ao concentrar o olhar na região central, o que ajuda a equilibrar pequenas inseguranças estéticas. Dá para usar? Sim, sem dúvida. Talvez peça um pouquinho de desprendimento, um tanto de valentia, coragem até, mas vale o investimento. O ombro ao ar livre comunica muito mais do que mil palavras.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980
Fonte: veja.abril
