A IA parece destinada a ser transformadora para todos, mas existe um risco real de que ela leve à perda de empregos e à turbulência social. Especialistas da ONU estão focados nesse desafio, para garantir que os benefícios superem as ameaças.
Quer seja um pessimista ou um otimista em relação ao assunto, é impossível ignorar a IA, que penetra em todos os campos da vida pessoal e profissional.
Direitos humanos devem ser respeitados
A ONU tem defendido uma abordagem que coloque as pessoas em primeiro lugar. O secretário-geral, António Guterres, alertou o Conselho de Segurança em 2024 que o destino da humanidade “nunca deve ser deixado nas mãos da ‘caixa preta’ de um algoritmo” e que pessoas devem sempre manter a supervisão e a autoridade sobre as decisões da IA para garantir que os direitos humanos sejam respeitados.
Desde então, o Sistema da ONU tem trabalhado para desenvolver uma forma de governança global ética da IA, com base nas diretrizes e recomendações contidas no Pacto Digital Global. O documento foi adotado em setembro de 2024.
As GPUs são usadas para treinar modelos de IA, realizando operações matemáticas complexas
A educação é fundamental
As Nações Unidas destacam de forma consistente a educação como elemento central para garantir que as pessoas continuem relevantes num futuro impulsionado pela IA. Não se trata apenas de incorporar ferramentas desta tecnologia no sistema educativo, mas de garantir que alunos e educadores tenham conhecimentos sobre a questão.
“O sistema educativo global precisará de 44 milhões de professores até 2030”, afirma Shafika Isaacs, diretora de tecnologia e IA na educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Unesco.
Ela considera um erro argumentar que é preciso investir mais em tecnologias de IA em vez de investir em professores. Para a especialista, a IA pode gerir a transferência de dados, mas não pode gerir o desenvolvimento humano.
Por isso, apontou a educação como “fundamentalmente uma experiência social, humana e cultural, e não um download técnico.”
Abrace a mudança
Muitas pessoas em todo o mundo estão preocupadas em perder os seus empregos por causa da tecnologia. O Fórum Econômico Mundial estimou que, em 2025, cerca de 41% dos empregadores planeavam reduzir a força de trabalho devido à IA.
Ao mesmo tempo, é provável que surjam novas funções que combinam os pontos fortes humanos com as capacidades das máquinas. Embora as máquinas sejam excelentes a reconhecer padrões e tarefas repetitivas, “não são tão boas em criatividade, fazer avaliações, raciocínio ético e interações interpessoais complexas.”
Em colaboração com parceiros de investigação globais, a Organização Internacional do Trabalho, OIT, previu que, embora cerca de um quarto de empregos seja suscetível de ser transformado pela IA, isso não significa necessariamente uma perda líquida de postos de trabalho.
No entanto, a forma como o trabalho é realizado deverá mudar de forma significativa, exigindo trabalhadores altamente adaptáveis e abertos à ideia de aprender constantemente novas competências e formação ao longo da sua vida profissional.
Os sistemas de IA ajudarão na análise de dados, tomada de decisão, automação e otimização.
Tornar a IA acessível a todos
Um grupo de gigantes tecnológicos impulsiona a investigação em IA e o domínio da criação de novas ferramentas. A ONU está preocupada com o fato de, a menos que o acesso à tecnologia seja alargado, aumente a desigualdade entre países e dentro das sociedades.
As estratégias desenvolvidas envolvem promover políticas educativas, econômicas e de governança garantindo que os benefícios da IA sejam amplamente partilhados, não se limitando aos privilegiados ou tecnologicamente avançados.
Priorizar os direitos humanos
A ONU tem enfatizado repetidamente que o desenvolvimento da IA deve respeitar os direitos humanos, a dignidade e a inclusão, e alertou que a automação descontrolada pode aprofundar as divisões sociais.
Em 2021, após extensas consultas com especialistas globais, a Unesco divulgou a Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial. O documento argumenta que os direitos humanos não podem ser considerações éticas opcionais, mas devem ser a base vinculativa dos sistemas de IA.
A proposta defende que as ferramentas que ameaçam a dignidade, a igualdade ou a liberdade devem ser restringidas ou proibidas, e que os governos devem regulamentar e aplicar ativamente essas normas.
Em um centro de dados, os servidores são computadores de alto desempenho que processam e armazenam dados.
Acordo global sobre o caminho a seguir
Um entendimento internacional sobre o rumo que se deveria tomar não é uma questão que um governo nacional, o setor privado ou a sociedade civil possam resolver sozinhos.
As Nações Unidas incentivam à cooperação internacional sob a forma de diálogos sobre governança e ética, plataformas de coordenação apoiadas pela ONU e parcerias entre os setores público e privado para financiar a educação e o desenvolvimento da força de trabalho.
A África pode superar uma divisão crescente?
Para a África, onde a infraestrutura digital, a disponibilidade de dados e as lacunas de competências continuam desiguais, a era da inteligência artificial é um momento de promessa e vulnerabilidade.
A governança de dados, o enviesamento algorítmico, a substituição de empregos e a capacidade regulatória limitada no continente africano estão entre as principais preocupações dos formuladores de políticas.
De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, África representa quase 18% da população mundial, mas menos de 1% da capacidade global de centros de dados.
Isso significa que a região pode tornar-se principalmente um consumidor de tecnologias de IA desenvolvidas noutros lugares, em vez de um produtor que as adapta às necessidades locais.
Do lado positivo, a IA pode ser fundamental para acelerar o desenvolvimento das economias africanas em benefício de todos.
Exemplos positivos do uso da tecnologia para melhorar vidas vão desde sistemas de alerta precoce que ajudam a prever secas no Corno de África até ferramentas de aprendizagem automática que melhoram a vigilância e o diagnóstico de doenças.
A chave para garantir que África colha os potenciais benefícios é o investimento em dados locais, competências e investigação, e sistemas de IA mais inclusivos e multilíngues.
A Comissão Econômica da ONU para África, ECA, salientou que as aplicações de IA na agricultura, saúde, monitorização climática e serviços públicos poderiam ajudar os países a “ultrapassar os caminhos tradicionais de desenvolvimento”.
Fonte: veja.abril
