Garras afiadas: como as estampas animais se reinventam em 2026

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As estampas animais têm história — e convém não lhes virar o rosto, dada a travessia fascinante. Elas remontam ao Egito Antigo, tempo em que espécies como leopardos, gatos e cobras eram vistas como metáforas para divindade e força. Em diversas culturas africanas, como no reino Zulu, algumas peles eram reservadas exclusivamente para reis e líderes espirituais. Durante a Idade Média na Europa, exibir figuras de animais como leões ou águias nas vestimentas era declaração de nobreza e coragem. No século XVIII, fabricantes têxteis em Lyon, na França, começaram a produzir tecidos que imitavam peles extravagantes para atender ao fascínio europeu pelo “exotismo”.

DISCRIÇÃO - A padronagem da Ferragamo (à esq.), diluída em tecidos nobres, e a proposta da Chanel (à dir.): na nova linguagem, miar é melhor que rugir
DISCRIÇÃO - A padronagem da Ferragamo (à esq.), diluída em tecidos nobres, e a proposta da Chanel (à dir.): na nova linguagem, miar é melhor que rugir (AFP; Victor Virgile/Getty Images)

A toada veio sempre assim, como manifesto de alguma postura, até que o século XX cutucou a onça com vara curta — e o que no início era sinônimo de elegância, dialeto para poucos, não tardou para escorregar no ruidoso campo da polêmica ou, dito de outro modo, do caricato e do exagero, como se a pegada da fauna no vestuário tivesse sempre de rugir. “Todo animal print é sexy?”, pergunta a consultora de moda Manu Carvalho, à guisa de provocação. “Não.” Definitivamente, não. Tome-se como exemplo o desenho de oncinha, tão querido e tão odiado. É ícone de corpo ágil, sedução e ataque, por assim dizer. Mas quando dá errado, quando beira a extravagância sem limites, é o caso de fazer como os egípcios e virar de lado.

Há agora, inicialmente nas passarelas, mas também nas ruas, um interessante movimento de resposta para a saturação, porque passou da hora de tudo ter de ser com jeitão de leopardo, do vestido ao sofá. Brotou, enfim, um freio, atrelado à discrição. Não se trata de ignorar o recurso, porque “as figuras da natureza, ancestrais, estão no inconsciente coletivo”, na boa explicação de Manu Carvalho. São, portanto, fáceis de vender. Mas impunha-se algum recuo, muita delicadeza. Os bichos estão aí, mas agora um tanto escondidos, reinventados, com pitadas de modernidade evidente. Os felinos ainda abrem a boca, mas dividem território com zebras de listras imperfeitas, tigres estilizados, cobras gráficas e cervos tímidos — antes restritos a nichos da geração Z e agora incorporados por maisons como Valentino.

DISFARCE - O corte de Tory Burch mal revela a origem do desenho: o moderno como caminho
DISFARCE – O corte de Tory Burch mal revela a origem do desenho: o moderno como caminho (./Divulgação)
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Nesse novo contexto, até a girafa encontra espaço. A atriz britânica Lily Collins apareceu recentemente com uma estampa de girafa nada óbvia, provando que o animal print pode ser, digamos, conceitual. A escolha dialoga com o legado de Roberto Cavalli, pioneiro em transformar estampas de bichos em assinatura de luxo desde os anos 1970, sempre com leitura menos literal e mais sensorial — herança que ressurge agora em versões mais polidas. Na Chanel, sob direção de Matthieu Blazy, o tigre foi redesenhado. Na Ferragamo, surge desbotado em tecidos nobres. Na Tory Burch, conversa com a mulher urbana. Celebridades como Emily Ratajkowski e Hailey Bieber aderiram à tendência como se apenas sussurrassem. Ainda é sexy, quando necessário (e por vezes é) soar a uma fera, mas pode ser apenas sugestivo, como pressupõe o clássico que deseja sobreviver. É melhor miar do que rugir.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

Fonte: veja.abril

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