Manhattan ou Dry Martini: a rivalidade eterna entre dois clássicos da coquetelaria

GastronomiaManhattan ou Dry Martini: a rivalidade eterna entre dois clássicos da coquetelaria

Toda família tem uma briga para chamar de sua. Na grande família etílica não poderia ser diferente. Existe uma rivalidade íntima entre dois ícones mundiais da coquetelaria, um fight que divide os próprios bartenders. Trata-se do embate entre o Manhattan e o Dry Martini.

De um lado do balcão, o Manhattan. O primeiro registro deste coquetel aparece em 1884. Em suas primeiras versões, o drinque pedia partes iguais de uísque (bourbon ou rye) e vermute doce. Com o tempo, a receita consolidade (e considerada clássica) passou a pedir duas partes de uísque, uma parte de vermute e alguns dashes de bitter aromático – bem como uma cereja marasquino.

Do outro lado do ringue/balcão, o Dry Martini. O Martini apareceria quatro anos depois do Manhattan, em 1888. Na primeira versão registrada em livro, o Martini pedi partes iguais de Old Tom Gin e vermute – que provavelmente também era o vermute doce. Só com o passar dos anos, o vermute seco surgiria na receita e o Old Tom seria substituído pelo London Dry Gin. E o mais importante, o drinque foi ficando mais seco (com mais gim e menos vermute) com o passar dos anos, transformando-se no Dry Martini que conhecemos hoje (bastante popular na versão 4 partes de gim por 1 de vermute).

Como se vê, apesar de divididos pela bebida base (uísque – Manhattan/ gim-Martini), os dois coquetéis nasceram no mesmo país (EUA), dividem o mesmo formato e são frutos da popularização dos vermutes. Desde o início, os dois se transformaram em protagonistas do setor, alternando períodos de maior sucesso. Como clássicos, nunca saíram de cena (mesmo nos momentos de baixa da coquetelaria) e sempre foram um “gatilho” de provocação: “Você é mais Manhattan ou Dry Martini”?

Os Bartenders

A disputa entre Manhattan e Dry Martini também é uma questão entre os bartenders. Embora o profissional de bar faça o disclaimer dizendo que “os dois são ótimos” sempre existe um preferido. O Paladar fez essa provocação a alguns bartenders da cidade: “e aí, você é mais Manhattan ou Dry Martini? Qual é o melhor”?

O head bartender do Caledonia Whisky & Co., Alison Oliveira, não pensou duas vezes para responder: “O Manhattan é melhor que o Dry Martini por uma questão histórica. O Manhattan veio antes. O Dry é uma variação. Embora o Dry seja icônico, o Manhattan é mais versátil e interessante. Acho o Manhattan mais redondo. Eu prefiro beber e fazer o Manhattan”, disse.

Já o bartender e sócio do Ninho Café Bar, Rafael Câmara, a escolha é pelo Dry Martini. “Com certeza eu prefiro o Dry! Por toda sua versatilidade e histórias que envolvem esse coquetel. Ele funciona muito bem – tanto de dia como de noite. Além disso, existem uma série de variações – e gosto, praticamente, de todas. Prefiro esse perfil mais seco”, afirmou.

Amores líquidos.

Bartenders gostam de criar analogias para os seus coquetéis. Thiago Toalha, por exemplo, com trabalhos recentes no Flora Bar e no The Fresh Goodies (e influenciador digital e criador do quadro Copa Coquetel), faz comparações interessantes entre os dois ‘combatentes’.

“O Dry Martini é maravilhoso, ele vai te conquistando. Você se assusta, mas não vai embora, é quase uma paixão tóxica. Ele é tipo uma pessoa que você não vai com a cara e no fim viram melhores amigos”, disse Toalha. “Porém, entretanto… o Manhattan é aquele date calmo, sem pressa. Você namora ele no balcão durante algum tempo, você sai dali apaixonado, aquecido e chega em casa já com saudades. Ele não somente ganha essa disputa, como para mim é o coquetel que mudou a minha vida na visão de bar. Quando faço um Manhattan o mundo quase para, faço com muito cuidado e carinho todas as etapas”, compara Toalha.

Na mesma linha, mas com outra preferência, vem a bartender Viviane Puerta, fundadora do Aoba Fest. “Fico com o Dry Martini. Para mim, ele não é apenas um coquetel, mas o ápice do minimalismo na coquetelaria. Enquanto o Manhattan é um abraço quente e complexo, sendo um coquetel de conforto; o Martini é clareza e precisão, um drinque de atitude. Ele é melhor porque não permite erros. É o equilíbrio perfeito entre a temperatura e a sutileza dos botânicos. É a elegância em estado líquido. Por isso ele é o meu favorito”, fala Viviane.

No Detalhe

Para o bartender e sócio do The Parlor, Gui Ferrari, o preferido é o Manhattan. “Enxergo que ele oferece um campo muito mais amplo de expressão para o bartender. O Manhattan parte de um destilado envelhecido, seja Bourbon ou Rye. E isso por si só já abre um universo de possibilidades: o tipo de grão, o tempo e o perfil do envelhecimento em barril influenciam diretamente o resultado”, disse Ferrari.“Já o Dry Martini clássico, embora seja um ícone absoluto da coquetelaria, acaba sendo um drinque muito mais dependente do gim. As sutis diferenças entre estilos e botânicos exigem um paladar bastante treinado para serem plenamente percebidas. Além disso, o uso do vermute seco em quantidades mínimas tende a deixar o drinque mais engessado do ponto de vista criativo”, completa.

Já o bartender e sócio do Rego, Luiz Felippe Mascella, tem outro ponto de vista: “Os dois estão na minha família predileta de coquetéis, mas sou muito do Dry. Prefiro algo mais seco, não necessariamente mais alcoólico. É um coquetel que você bebe mais devagar… Já o Manhatan, pelo fato de ser mais adocicado, me perde um pouco”, fala Mascella.

“No mais, o Brasil tem problema de acesso à algumas bebidas. Acho que pelo ‘bum’ do gim no Brasil, fica mais fácil atingir um nível diferenciado no Dry Martini”, completa.

Para o head bartender do Lágrima, Ciro Tupi, a escolha recai sobre o coquetel que ‘virou a chave’ da sua própria carreira: “Eu prefiro o Manhattan pois foi o coquetel que virou a minha chave, que me fez enxergar o que é um coquetel. Achei isso muito fod@#$%&”, confessa.

Colaborou João Pedro Rangel



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