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Pode soar paradoxal, contradição em termos, mas é possível sim ostentar um vestido que simula nudez — os já persistentes naked dresses — e ainda assim passar alguma ideia de recato. É difícil acreditar, mas é o que parecem informar recentes tapetes vermelhos em uma temporada que só termina depois do Oscar, e é de apostar que ali também corpos ao léu desfilarão com elegância, à falta de outra definição melhor. Já não se trata de aparecer por aparecer — embora o choque visual seja sempre inevitável.

A cena que melhor ilustra esse paradoxo aconteceu no Festival de Berlim, há poucos dias, com a cantora britânica Dua Lipa envolta em um vestido transparente de crochê criado por Matthieu Blazy para a Chanel, com decote ombro a ombro, barra de plumas e muito mais — ou seria muito menos. Ela despontou quase nua, mas sofisticada. Sensual, mas delicada. O impacto não vinha apenas da pele visível, mas da textura, da técnica e do desenho de silhueta. Era nudez com acabamento de alta-costura — e, curiosamente, com uma aura quase pudica.
O naked dress 2.0, chamemos assim, mal dissimula o fenomenal esforço das maisons e das celebridades para transformar a transparência em obra de arte. Nota-se, também, o esforço no uso de materiais e de técnicas, de tecidos e tramas, que ajudem a compor o pacote. Não é fácil ter nada para mostrar porque vale o que está por trás. Jennifer Lawrence roubou a cena no Globo de Ouro com um vestido diáfano criado por Sarah Burton para a Givenchy — tule rosado bordado com folhas, leve como névoa. A nudez existia, mas parecia protegida por uma camada poética. Margot Robbie seguiu caminho semelhante, envolta em bordados delicadíssimos da Armani Privé — o bordado etéreo sugeria mais romantismo do que provocação. Jenna Ortega teve papel relevante nessa mudança de percepção ao surgir com um modelo de pedrarias que deixava o torso exposto, mas estruturado como joalheria sobre a pele.

O refinamento brotou, agora mais do que nunca, um tanto como resposta à onda anterior, de três ou quatro anos atrás, quando tecidos com estampas de corpos despontavam com incômoda frequência, apenas pelo espanto. Havia mera ilusão, mas sem charme. Rendia fotos, é claro, e cliques a não mais poder nas redes sociais. Ficou chato. E, então, a inteligência de quem sabe o que faz na moda tratou de oferecer sofisticação. Fala-se das curvas, da pele, sim — mas também do exercício de criação, de raízes históricas.

O primeiro passo, e aí sim em um momento de conservadorismo total, veio em 1962, com Marilyn Monroe, no célebre “parabéns a você” a John F. Kennedy, a bordo de voz melodiosa e do aplaudidíssimo e famosérrimo modelo de Jean Louis, praticamente costurado ao corpo. Houve quem se derretesse de amores, em meio ao escândalo com o peso de chumbo no Madison Square Garden, em Nova York — Kennedy, nunca é demais lembrar, tinha ao lado Jacqueline. Ali, em tempo de pouco desenvolvimento de fios, esculpir em bege Marilyn foi um prodígio.

Aquele momento inspirador nunca mais foi esquecido pelas celebridades e pelos estilistas de hoje. “Já coloquei na passarela uma modelo nua por baixo, mas com transparência pensada e cuidadosamente desenhada”, diz o designer brasileiro Lino Villaventura. “A sensualidade não vem pela nudez proposital, com a intenção de ser agressiva.” Não é, reafirme-se, nudez pela nudez, barata e sem graça. É conceito que atrai olhares, por óbvio, mas oferece o aparentemente impossível ou improvável: estar nua e ainda assim parecer vestida de algum pudor.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984
Fonte: veja.abril
