Reunião produtiva não é aquela em que todo mundo fala

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Por Ronan Mairesse, especialista em comportamento humano aplicado à performance

Reunião não começa quando o relógio marca. Ela começa antes, no ambiente que foi construído para aquelas pessoas pensarem juntas.

Quando falo em ambiente, falo de duas coisas. A primeira é física: ruído, interrupções, notificações, desconfortos que disputam a atenção.

E tem uma distração mais perigosa, aquela legitimada pelo próprio líder. Já participei de reunião em que, enquanto alguém trazia um problema importante, líderes respondiam o WhatsApp, abriam e-mails, atendiam demandas e até cobravam resultados de quem nem estava na sala. O corpo estava na reunião, mas o cérebro estava espalhado pela empresa inteira.

Do ponto de vista da neurociência, isso tem custo. A gente não pensa duas coisas complexas ao mesmo tempo, alterna o foco, e cada troca cobra um pedágio de energia mental. E comportamento também comunica prioridade. Se o líder pega o celular enquanto alguém fala, ele não está só dividindo a atenção, está ensinando ao grupo, mesmo sem dizer, qual é o valor daquela reunião. Por isso, uma regra simples: se é importante o suficiente para juntar várias pessoas, é importante o suficiente para receber tua atenção inteira.

A segunda dimensão do ambiente é psicológica. Já estive em salas confortáveis, com pauta organizada e gente competente, mas quase ninguém falava. Aprendi a perguntar: é silêncio por falta de ideia ou por medo do custo de falar?

Ronan Mairesse

Quando o líder ironiza uma ideia ou expõe quem errou, treina o grupo a se proteger. A energia vai para a autopreservação, não vai para pensar junto. É por isso que segurança psicológica não é passar a mão na cabeça, é permitir discordância sem retaliação. Líderes maduros não precisam de gente que concorda com tudo, precisam de gente que ajude a enxergar o que sozinhos talvez não veriam.

Quando o líder dá a resposta antes da pergunta, parte da equipe começa a calcular qual resposta é mais segura, e não mais qual resolve o problema. Por isso, quando quero ouvir de verdade, pergunto primeiro, escuto, confronto informações e só depois apresento minha leitura. Quanto maior a autoridade, maior o cuidado para não encerrar uma conversa que deveria estar apenas começando.

E há uma camada ainda menos visível, que a psicanálise dos grupos ajuda a ver. Às vezes, o grupo não está discutindo o problema, está evitando o desconforto que ele provoca. Já vi equipes inteiras passarem quarenta minutos culpando outro setor para não encarar uma pergunta difícil sobre a própria responsabilidade. Uma reunião madura sustenta essa pergunta.

E, no fim, tudo precisa virar decisão. Gosto de separar informação, discussão e decisão. Nem toda informação precisa ser discutida por uma hora, e nenhuma decisão deveria ficar escondida no meio da conversa. No final de cada tópico, alguém precisa conseguir dizer claramente o que foi decidido, quem é responsável e até quando.

“Precisamos melhorar o atendimento” não é decisão operacional. “Até sexta, José vai apresentar três mudanças no fluxo para reduzir o tempo de resposta ao cliente.” Agora temos ação.

Quando uma reunião está terminando, gosto de quatro perguntas: o que decidimos? O que será feito? Quem é responsável? Até quando? Reuniões não são apenas compromissos na agenda, são ambientes de tomada de decisão, coordenação humana e construção de responsabilidade.

Cada reunião mistura cérebros, histórias, emoções e percepções diferentes sobre a mesma realidade. Liderar uma reunião não é passar por todos os itens da pauta, é dirigir a atenção coletiva para o que realmente importa.

Depois de acompanhar tantas equipes, continuo acreditando em algo simples. Uma boa reunião não é medida pelo tempo que durou nem pelo número de pessoas que falou. É medida pela clareza que produziu. Se as pessoas entram com um problema e saem com uma decisão, um responsável, um prazo e compreensão do próximo passo, a reunião cumpriu sua função. Se todos falaram durante horas e ninguém sabe o que fazer amanhã de manhã, tivemos apenas uma conversa cara.

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Ronan Mairesse, autor, mentor e palestrante, especialista em performance humana aplicada a resultados de liderança e gestão de equipes.

Instagram: @RonanMairesse
LinkedIn: RonanMairesse

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