Por que filósofos passaram a ocupar espaço nos maiores laboratórios de inteligência artificial do mundo

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Empresas como Anthropic, Google DeepMind, OpenAI e Meta ampliam a contratação de profissionais da Filosofia para enfrentar desafios éticos, morais e conceituais que a engenharia, sozinha, já não consegue responder. A análise é de Lucas Dezerto, especialista em Inteligência Artificial da EPAM Systems.

Durante décadas, a Filosofia foi frequentemente considerada uma área distante do mercado de trabalho e das grandes transformações tecnológicas. No entanto, esse cenário começa a mudar de forma significativa.

Lucas Dezerto
EPAM Systems

Um levantamento divulgado pelo Federal Reserve Bank de Nova York, em fevereiro de 2026, apontou que graduados em Filosofia apresentam atualmente uma taxa de desemprego inferior à registrada entre formados em Ciência da Computação. Paralelamente, empresas responsáveis pelos modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo, como Anthropic, Google DeepMind, OpenAI e Meta, passaram a contratar filósofos para integrar suas equipes de pesquisa e desenvolvimento.

Segundo Lucas Dezerto, especialista em Inteligência Artificial da EPAM Systems, esse movimento reflete uma mudança importante na natureza dos desafios enfrentados pela IA.

As questões mais difíceis deixaram de ser apenas técnicas

Para Lucas Dezerto, à medida que os modelos de inteligência artificial se tornam mais sofisticados, parte dos principais obstáculos deixa de estar relacionada apenas ao desenvolvimento tecnológico.

“As perguntas mais difíceis da inteligência artificial deixaram de ser exclusivamente técnicas. Hoje, muitas delas são filosóficas.”

Segundo o especialista, duas grandes questões passaram a ocupar espaço dentro dos laboratórios.

A primeira diz respeito ao chamado alinhamento (alignment): como ensinar valores humanos para sistemas treinados a partir de enormes volumes de dados.

A segunda envolve um debate ainda mais complexo: se, no futuro, máquinas desenvolverem características que lembrem consciência ou experiência subjetiva, qual seria a responsabilidade ética da sociedade diante desses sistemas.

Ensinar valores a uma máquina é um problema filosófico

Embora frequentemente tratado como um desafio de engenharia, o alinhamento da inteligência artificial envolve questões debatidas pela Filosofia há mais de dois mil anos.

Lucas Dezerto
Epam Systems

Modelos de linguagem aprendem como os seres humanos escrevem, pensam e se comportam a partir de bilhões de exemplos disponíveis em seus conjuntos de treinamento.

Entretanto, isso não responde automaticamente como esses sistemas deveriam agir.

Segundo Lucas Dezerto, esse é um dos pontos centrais da discussão.

“Os próprios seres humanos não chegam a um consenso absoluto sobre aquilo que consideram moralmente correto. Definir quais valores um sistema global deve incorporar é uma decisão ética, filosófica e política, muito mais do que computacional.”

Estudos recentes sobre alinhamento indicam que os modelos atualmente utilizados enfrentam dificuldades justamente porque não existe uma autoridade universal capaz de determinar quais valores representam toda a humanidade.

Filósofos passam a integrar equipes estratégicas

Esse cenário explica por que empresas de inteligência artificial passaram a incorporar filósofos em posições centrais de desenvolvimento.

Na Anthropic, responsável pelo assistente Claude, a filósofa Amanda Askell lidera equipes responsáveis por discutir princípios de comportamento do sistema, dilemas morais e critérios utilizados pelo modelo em situações sensíveis.

A empresa também publicou recentemente um documento detalhando os princípios utilizados na construção do comportamento de seus sistemas, trabalho desenvolvido por equipes multidisciplinares que incluem profissionais da Filosofia.

Outro exemplo citado por Lucas Dezerto é o filósofo Ben Levinstein, que deixou uma posição acadêmica nos Estados Unidos para atuar em pesquisas sobre crenças, verdade e comportamento de modelos de linguagem.

O debate sobre consciência artificial

Outra frente de pesquisa começa a ganhar espaço nos grandes laboratórios.

À medida que os sistemas se tornam mais sofisticados, pesquisadores passaram a discutir se, futuramente, determinadas inteligências artificiais poderiam apresentar algum tipo de experiência subjetiva ou consciência funcional.

Na Anthropic, foi criada uma equipe dedicada exclusivamente ao chamado “bem-estar dos modelos”, responsável por investigar aspectos relacionados ao comportamento dos sistemas.

Já a Google DeepMind incorporou pesquisadores como o filósofo Henry Shevlin para estudar temas ligados à consciência artificial e à preparação institucional para o avanço da Inteligência Artificial Geral (AGI).

Segundo Lucas, isso não significa afirmar que as máquinas sejam conscientes.

“O ponto central não é dizer que a IA sente. A discussão é reconhecer que definir quando uma entidade merece consideração moral não é uma pergunta que possa ser respondida apenas por algoritmos.”

O risco do “ethics washing”

Apesar do crescimento desse movimento, parte da comunidade acadêmica mantém uma postura cautelosa.

Especialistas alertam para o risco do chamado ethics washing, prática na qual empresas utilizariam profissionais da Filosofia apenas para conferir aparência de responsabilidade ética a projetos essencialmente comerciais.

Para Lucas Dezerto, esse debate é legítimo e reforça justamente a necessidade de participação crítica desses profissionais.

“A presença de filósofos não elimina automaticamente os riscos da inteligência artificial. Mas amplia a capacidade de questionar decisões que vão muito além do desenvolvimento técnico.”

A inteligência artificial exige novas competências

Na avaliação do especialista, a evolução da inteligência artificial demonstra que o futuro da tecnologia dependerá cada vez mais da colaboração entre diferentes áreas do conhecimento.

Se durante décadas a Filosofia parecia distante do mercado de tecnologia, hoje ela passa a contribuir diretamente para questões relacionadas à ética, responsabilidade, comportamento e tomada de decisão por sistemas inteligentes.

Segundo Lucas Dezerto, esse movimento evidencia uma mudança importante no perfil das equipes responsáveis pelo desenvolvimento da IA.

“A engenharia continua sendo indispensável. Mas, quando a tecnologia começa a tomar decisões que impactam pessoas, compreender conceitos como ética, consciência, responsabilidade e valores humanos deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade.”

Nesse contexto, a presença crescente de filósofos em empresas como Anthropic, Google DeepMind, OpenAI e Meta sinaliza que o avanço da inteligência artificial não depende apenas de mais poder computacional, mas também da capacidade de responder perguntas que, há séculos, pertencem ao campo da Filosofia.

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