Quando a Gerdau, líder nacional na produção de aço, anunciou Gustavo Werneck como o novo CEO da companhia, em agosto de 2017 – o primeiro executivo que não pertencia à família fundadora –, a operação americana representava apenas 19,3% do Ebitda da empresa. Naquela época, os resultados do mercado brasileiro dominavam o balanço.
Passados nove anos, o cenário é totalmente inverso. Hoje, os Estados Unidos representam 74,1% do resultado operacional da empresa, quase quatro vezes mais. E o Brasil responde por apenas 20,1% do Ebitda, menos da metade do que correspondia naquela época. Os outros 5,8% correspondem às operações na América do Sul.
Agora, a empresa planeja criar uma “nova Gerdau” no Brasil. E isso inclui equilibrar essa correlação de forças e fazer com que a operação local da companhia represente, no resultado final, praticamente o mesmo peso dos Estados Unidos.
Para isso, o plano é justamente usar o processo de transformação da companhia em solo americano, e que a tornou uma potência na produção de aço. Este movimento fez com que a companhia estivesse, de fato, pronta para as oportunidades que estão surgindo a partir de novos mercados, principalmente em relação a data centers e energia renovável.
“O Brasil do futuro será o que o hoje representa os Estados Unidos para a Gerdau. Nosso plano é de criar uma empresa diferente, otimizando nosso modelo de produção e reorganizando os ativos. Estamos preparando a companhia para este momento”, diz Werneck, em entrevista ao NeoFeed.
As ações em solo americano envolveram focar nas principais operações, vender os ativos de vergalhão, e realizar investimentos que resultassem no aumento da produtividade da unidade de negócios.
Segundo a companhia, nos últimos cinco anos foram aportados US$ 1,2 bilhão nas usinas de Midlothian, Jackson, Whitby, Cartersville e Petersburg, com o claro objetivo de aumentar a eficiência, melhorar o mix dos produtos e otimizar os custos operacionais. “Hoje, a gente está entregando aço para 40 fábricas de semicondutores”, afirma.
Tudo isso já bem antes desse processo de “reindustrialização” americana, implementada na segunda gestão do presidente Donald Trump. Momento, segundo o CEO, bem diferente do brasileiro, em que a indústria vem perdendo espaço.
“Nunca passou pela minha cabeça, em todo esse tempo como CEO, que a gente teria essa diferença tão grande de resultado entre Brasil e Estados Unidos. Mas a gente se preparou muito por lá para colher os frutos, quando viessem os ciclos de maior demanda. Houve muito trabalho. E agora vamos fazer o mesmo no Brasil”, afirma o executivo.
A empresa está na fase final da construção deste plano de “renacionalização”, que deve ser anunciado nos próximos meses. O planejamento, segundo o CEO, é transformacional, e deve levar uma década. O volume de aportes ainda está em fase de estudo.
A mudança inclui justamente uma maior otimização das plantas brasileiras e reavaliação das usinas que hoje não atendem mais às expectativas de produção e de resultados.
“Certamente vamos investir em ativos mais produtivos e ter de fechar capacidades que, do ponto de vista tecnológico, já não atendem mais a esta competição desleal. Este trabalho a gente nunca fez. Nossa revisão será estrutural”, afirma.
Parte desse trabalho já começou. Recentemente, a empresa decidiu fechar a produção de aço na fábrica de Recife, a Açonorte, que foi a primeira operação industrial da companhia, em 1973, desde quando decidiu avançar a fronteira do Rio Grande do Sul.
Com 53 anos e de escala menor, ela agora será parcialmente fechada. Com mais capacidade do que consumo no Nordeste, a decisão foi manter a parte de coleta e processamento de sucata, e encerrar a aciaria e a laminação. Um terço do quadro de funcionários precisou ser desligado.
“Mas isso não significa que o balanço da Gerdau não esteja bom. Pelo contrário. Esse é o benefício de ter uma companhia desalavancada [0,69 vez a relação dívida líquida sobre Ebitda] e ser conservador nas nossas finanças”, explica o CEO. “Vamos precisar ser muito inteligente nas nossas escolhas.”
A ideia é trocar pelo menos duas operações menos rentáveis no Brasil por uma fábrica mais moderna e eficiente. Os locais ainda não foram definidos. Hoje, a companhia tem 10 usinas em operação.
Outra linha de oportunidades para este crescimento está justamente no avanço do segmento de sucata e de mineração, que vai garantir um aumento na rentabilidade da companhia.
No caso da mineração, a expansão da mina de Miguel Burnier, em Ouro Preto, Minas Gerais, já recebeu aportes de R$ 3,2 bilhões, e deve entrar em produção comercial ainda no terceiro trimestre deste ano.
Dessa forma, a mina deve gerar cerca de 5,5 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, por cerca de 40 anos. Com isso, a empresa vai garantir toda sua necessidade de produção, que é de 3,5 milhões ao ano, e com possibilidade de oferecer 2 milhões de toneladas ao mercado.
“Vamos ter um nível de competitividade que nunca tivemos. Nossos ativos minerários são muito bons e enxergamos oportunidade para melhorar nossas margens no Brasil”, afirma o presidente-executivo. As margens na mineração, entre 30% a 40%, são melhores do que o negócio principal da Gerdau, de cerca de 10%.
Fim da linha para exportações
Uma decisão do novo plano, entretanto, já foi tomada, que é de tirar definitivamente a companhia do radar das exportações, a partir da operação nacional. O foco no Brasil vai ser, de fato, ampliar a eficiência e a competitividade no próprio mercado nacional.
“A Gerdau sempre teve um posicionamento de ter sobra na sua capacidade produtiva, e quando não havia demanda local, exportava. Um terço de nossa capacidade era dedicada à exportação. Agora, vivemos uma mudança profunda, principalmente a partir dos juros altos, que faz com que exportar dê menos dinheiro”, explica Rafael Japur, CFO da Gerdau.
Além disso, os preços internacionais estão mais baixos, principalmente a partir do volume alto de exportação por parte dos chineses. Esta combinação de cenário internacional com a questão cambial foi crucial para a tomada de decisão de, a partir de agora, deixar de lado as exportações. Hoje, representa menos de 15%.
“Não temos competitividade para exportar. Já foi. Na atual situação do Brasil, não há condição de pensar em vender para os outros países. Não há margem que justifique isso.” Os produtos brasileiros da Gerdau tinham como destino a Ásia, África, Europa e América Latina.
Na avaliação de Werneck, a operação nacional chegou a este ponto provocada principalmente pelo cenário macroeconômico e pela falta de uma política pública de valorização ao setor industrial, ao longo dos últimos anos.
“O Custo-Brasil é a dificuldade de se competir contra os países que estão na OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. E a gente já carrega uma diferença de pelo menos R$ 1 trilhão, já na largada. E há um imbróglio tributário no país, que traz uma dificuldade enorme de competir”, afirma o CEO.
Ele aponta hoje a enorme disparidade do preço do gás natural cobrado aqui das indústrias, em relação ao valor cobrado pelos americanos. “Aqui a gente paga US$ 16 pelo milhão de BTU do gás natural. Nos Estados Unidos, custa US$ 3. Já largamos com uma dificuldade grande de competir. Somos muito competitivos. Imagine sem esses problemas”, explica.
Reclamar menos e agir mais
Isso posto, o CEO da Gerdau enxerga que a companhia não pode deixar de fazer investimentos, em que pese todo esse cenário contrário. Na prática, ele quer reclamar menos e agir mais para que a Gerdau possa sair ainda maior desta travessia econômica difícil que o país vive.
Ainda assim, ele entende que o governo brasileiro ainda precisa avançar nas políticas de defesa quanto à competição que ele julga desleal, em especial sobre a entrada significativa do aço chinês no Brasil. Hoje, a penetração importada no setor chega perto de 20%.
“Nós precisamos ser defendidos não contra uma competição isonômica, mas sim desleal. Não dá para disputar mercado quando as empresas precisam usar dinheiro próprio ou de banco para financiar a produção. É preciso trazer todo mundo para as condições de igualdade. E isso precisa ser um plano de Estado e não de governo”, afirma Werneck.
Segundo ele, nunca foi colocado em questão a possibilidade de a companhia deixar de operar no Brasil. “Nosso CEP está aqui. Nossa frustração é de fazer investimentos para apenas manter a competitividade. É um misto de alegria, por estar colhendo os frutos nos Estados Unidos, e de tristeza, pelo fato de, no nosso país, a gente não enxergar o avanço da indústria brasileira”, diz Werneck.
Mas ele afirma que, voltar a crescer no Brasil não vai significar deixar de investir nos Estados Unidos. A ideia é exatamente que as duas operações estejam em uma condição saudável de equilíbrio no balanço.
“É fácil fazer negócio nos Estados Unidos. O ambiente é propício, desburocratizado. Crescer lá tem se mostrado uma decisão acertada. Vamos continuar crescendo no mercado americano, mas a gente vai seguir apostando no Brasil”, completa o CEO.
Para Japur, a empresa vem, ao longo dos últimos três anos, já fazendo investimentos no Brasil para conseguir pelo menos garantir seu ritmo de competitividade, com aportes em fábricas e em geração de energia renovável. “Já foram mais de R$ 15 bilhões, quase metade em economia de custos e o resto em produção de aço.”
Ainda assim, há desafios para a companhia, principalmente em mostrar ao mercado financeiro o potencial futuro de crescimento na operação brasileira. Analistas enxergam o avanço da Gerdau no mercado dos Estados Unidos, mas ainda com dificuldades no Brasil.
Relatório divulgado nesta terça-feira, 11 de agosto, pelo Itaú BBA mostra que as iniciativas já adotadas pela empresa devem começar a surtir efeito, mas ainda de forma bem gradativa.
“O Brasil está melhorando marginalmente, mas continua sendo o elo fraco. A entrada em operação gradual de Miguel Burnier deverá reduzir estruturalmente os custos de minério de ferro, enquanto a nova linha Ouro Branco dá acesso a novos segmentos de clientes”, diz o documento, assinado pelos analistas Daniel Sasson, Marcelo Furlan Palhares e João Paulo Helito.
“Além disso, as medidas antidumping já implementadas sobre produtos planos de aço começaram a conter o fluxo de importações. Dito isso, o consumo doméstico provavelmente permanecerá fraco no curto prazo, continuando a limitar o ritmo de recuperação dos preços”, completa o Itaú.
Os analistas revisaram para cima o preço-alvo da companhia, dos atuais R$ 25,23 para R$ 29 em 12 meses, com potencial alta de 15%. Mas rebaixaram a recomendação para neutra.
Além de Brasil e Estados Unidos, a Gerdau também tem fábricas na Argentina, Uruguai, Peru, México e Canadá.
No acumulado de 2026, as ações GGBR4 registram valorização de 17,8%. Em 12 meses, a alta é de 47,7%. A Gerdau tem valor de mercado de R$ 45,6 bilhões.
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Fonte: Neofeed
