Ler Resumo
Aos 16 anos, nos anos 1940, quando calças compridas ainda eram vistas com desconfiança para mulheres, Laura Cardoso decidiu incorporá-las ao guarda-roupa — e causou estranhamento pelas ruas do Bixiga, em São Paulo.
A razão estava longe de ser uma provocação fashion. Laura simplesmente achava as calças mais confortáveis. O problema é que, naquela época, uma adolescente de calças não passava despercebida. Segundo relatos da própria atriz, os vizinhos olhavam atravessado quando ela circulava pelo bairro usando a peça, que ainda carregava para as mulheres um forte simbolismo de transgressão.
Hoje, a cena parece banal. Mas, nos anos 1940, vestir calças compridas era quase um manifesto de independência. A peça começava a conquistar espaço no guarda-roupa feminino, impulsionada por mulheres que ajudaram a romper a associação entre feminilidade e saias e vestidos. Laura, sem discurso feminista ou intenção de fazer história, porém, simplesmente escolheu aquilo que considerava melhor para si.
E há algo de muito contemporâneo nessa história. A atriz não usou a moda para se encaixar em uma tendência — usou a roupa porque gostava dela. Décadas antes de o conforto virar uma das palavras mais importantes do vocabulário fashion, ela já tinha entendido que estilo também pode nascer de uma escolha prática.
Anos depois, a menina que caminhava de calças pelo Bixiga se tornaria uma das grandes damas da dramaturgia brasileira, atravessando gerações sem perder a própria identidade. Mas, talvez, seu primeiro flerte com a moda tenha sido esse: colocar uma peça considerada masculina, sair de casa e não pedir licença para ninguém.
Laura Cardoso morreu nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 98 anos. E deixa, entre tantas personagens inesquecíveis, uma pequena história de moda que diz muito sobre ela: aos 16, simplesmente colocou uma calça porque era mais confortável. E, sem querer, ajudou a mostrar que algumas revoluções começam assim — com uma roupa escolhida simplesmente porque faz sentido para quem a veste.

Fonte: veja.abril
