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Existem momentos que mudam a história. Em 15 de outubro de 1924, o poeta francês André Breton lançou o Manifesto Surrealista, como prefácio de um de seus livros. Assim, no trecho fundamental: “(…) automatismo psíquico puro, pelo qual se propõe expressar, verbalmente, por escrito ou por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado de pensamento na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética e moral”, o mundo nunca mais seria o mesmo, desmontado, bêbado de absinto, como se proposto por um robô de inteligência artificial sem censura. E então conhecemos Salvador Dalí, Max Ernst, Jean Cocteau, Man Ray, Hans Arp e um etc. para lá de malucão.
Um nome, de mãos dadas com aquela turma, ficou sempre um pouco à margem: a estilista italiana Elsa Schiaparelli (1890-1973), personagem de uma magnífica exposição no Victoria and Albert Museum, em Londres, Schiaparelli: Fashion Becomes Art, em cartaz até novembro. São mais de duzentas peças, entre roupas, acessórios, fotografias e pinturas, prontas para iluminar uma carreira revolucionária — e não há aqui nenhum exagero na constatação.

Schiaparelli foi pioneira no uso de materiais incomuns como metal e plástico. Transformou recortes de jornal em tecido antes de John Galliano e o torso de uma mulher em um frasco de perfume antes de Jean Paul Gaultier. A marca ainda existe, e faz sentido em tempos tão bicudos, usada por personalidades como Lady Gaga, com direção criativa de Daniel Roseberry. O nome, contudo, não é tão conhecido quanto o dos homens que ela influenciou, como Yves Saint Laurent e Hubert de Givenchy. Em 1934, convém lembrar, puxando o fio, ela se tornou a primeira estilista a estampar a capa da revista americana Time. Hollywood se rendeu: Marlene Dietrich, Katharine Hepburn, Lauren Bacall e Greta Garbo vestiram suas criações.
Da amizade com Salvador Dalí, destaque-se, é que nasceram os modelos mais extraordinários de sua trajetória — e talvez do século XX. Da parceria entre os dois brotaram o vestido-esqueleto; o chapéu em forma de sapato usado de cabeça para baixo; a bolsa-telefone; e, talvez o mais célebre de todos, o vestido lagosta de 1937. O modelo com o crustáceo pintado por Dalí, em diferentes versões, entrou para a história quando foi usado por Wallis Simpson, a mulher divorciada que levou o rei Edward VIII a abdicar do trono britânico.

Nascida em Roma, em uma família de intelectuais com raízes aristocráticas, parecia destinada a uma vida convencional. Não foi o que aconteceu. Ainda jovem, escandalizou a família ao publicar poemas eróticos inspirados em uma ninfa grega. Como punição, foi enviada para um convento na Suíça — de onde saiu por conta própria, após uma greve de fome. Casou-se em 48 horas com um conde em Londres, mudou-se para Nova York, se separou, criou a filha sozinha e, no início dos anos 1920, instalou-se em Paris, no prólogo dos “anos loucos”.
Ali, em meio ao cotidiano frenético, rivalizou com ninguém menos que Coco Chanel. A disputa entre as duas é um dos capítulos mais ricos da história da moda — e quase uma batalha simbólica entre mundos opostos. Chanel defendia simplicidade, funcionalidade e uma sofisticação silenciosa. Schiaparelli preferia exagero, humor e teatralidade. A francesa se referia à rival como “aquela italiana que faz roupas”. “Schiap”, como era chamada, revidava chamando Chanel de “uma chapeleira que se leva muito a sério”. Chanel construiu um império comercial com peças práticas como o tailleur de tweed e o pretinho básico. Schiaparelli seguiu pelo imaginário com uma moda difícil de usar, mas impossível de ignorar, como revela a mostra londrina. E vale então lembrar uma das frases prediletas da interessantíssima figura do corte, costura e muito mais: “Em tempos difíceis, a moda é sempre ultrajante”.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987
Fonte: veja.abril
