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Conhecida por vestir mulheres que não precisam obedecer às convenções para serem elegantes, a estilista italiana Miuccia Prada produziu mais um de seus manifestos fashion na atual temporada de moda europeia: a aposta do sutiã como arma potente do visual feminino. Nos desfiles da Miu Miu, sua marca mais jovem, a peça apareceu em versão esportiva ou como um lenço amarrado ao corpo. A provocação se espalhou pelas passarelas de Paris, Milão e Nova York. Na Valentino, surgiu em seda com alças cruzadas; na Jean Paul Gaultier, em couro estruturado. Loewe, Fendi e Chloé também apresentaram suas versões. A cantora sul-africana Tyla levou a tendência ao tapete vermelho do VMA, com um modelo de estampa de cobra, enquanto Rihanna e Rosalía estão entre as adeptas nas ruas.

Em todos esses casos, a mensagem é clara e inequívoca: o que antes se escondia sob a roupa agora é a própria roupa — e demanda destaque. A ascensão da peça não é, aliás, apenas questão de moda. Historicamente associada à contenção das formas femininas, ela acumulou significados como segurança, autonomia e rebeldia. Agora, ganha força como recurso estético: expõe o corpo, reivindica liberdade e transforma a lingerie em declaração de estilo. “Quando se torna visível, o sutiã deixa de ser apenas uma peça funcional e de adequação do corpo a uma norma e se transforma em signo de afirmação, sensualidade, poder e, muitas vezes, contestação”, diz Jo Souza, professora do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.
A história ajuda a entender essa trajetória. O espartilho dominou a modelagem do corpo feminino durante séculos, até que surgiram alternativas mais leves. Em 1893, a americana Mary Tucek patenteou um modelo precursor do sutiã moderno. Nos anos 1910, Mary Phelps Jacob registrou uma versão criada para não marcar sob o vestido. Nos anos 1950, os sutiãs-bala fizeram sucesso entre estrelas como Marilyn Monroe. Em 1968, o movimento feminista transformou a lingerie em emblema: embora não tenham sido efetivamente queimados, como tanto se fala, sutiãs descartados em um protesto entraram para a história como catalisadores da rebeldia contra os padrões de beleza.

A consagração como peça de moda veio nas décadas seguintes. Madonna popularizou o underwear as outerwear — a roupa de baixo usada como roupa de cima — na turnê Blond Ambition, em 1990. Seu célebre sutiã de cone, criado por Jean Paul Gaultier, virou ícone pop, seguido pelos looks de estrelas como Beyoncé e Gwen Stefani. Em 1996, a Victoria’s Secret lançou seu Fantasy Bra, cravejado de joias e avaliado em 1 milhão de dólares.

O retorno atual se alimenta da nostalgia desses mesmos anos 1990 e 2000 e dialoga com o naked dressing, tendência de roupas que deixam o corpo à mostra. Mas há uma ambiguidade: em meio à popularização das canetas emagrecedoras e à valorização de silhuetas cada vez mais magras, o sutiã exibido como peça principal também põe em evidência corpos que correspondem ao ideal estético do momento. Essa exposição pode representar uma celebração do próprio corpo, mas também impor exigências de juventude e proporção — sobretudo numa era hiperconectada, em que a aparência é compartilhada e avaliada o tempo todo nas redes, destaca Jo Souza. O certo é que o sutiã, mais uma vez, deixou de ser só lingerie para se impor como símbolo comportamental.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017
Fonte: veja.abril
