Caiado promete cortar na carne, aposta em terras raras e afina discurso contra PT: “Lula é o melhor presidente que o Paraguai já teve”

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O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado entra na disputa à presidência da República pelo PSD contrapondo duas estatísticas. De um lado, alcançou 88% de aprovação por sua gestão à frente do Estado goiano, segundo pesquisa do instituto Quaest de agosto do ano passado, tornando-se o governador mais bem avaliado do Brasil. Por outro lado, pontua somente 3% nas pesquisas de intenção de voto para ser presidente, muito atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL), principal representante da direita neste momento.
Em entrevista ao programa Eleições 2026, do NeoFeed, Caiado colocou outro número na mesa que poderia jogar a seu favor: “50% da população ainda não me conhece”, diz ele, ansioso pelo início oficial da campanha eleitoral em agosto, quando os debates vão começar.
Caiado quer se contrapor ao presidente Lula, o maior rival do campo que ele representa. “Ele não tem um projeto estruturante”, afirma ele, que comprou uma briga com o governo federal ao abrir uma frente de negociação, atrás de um memorando de intenções com os Estados Unidos para a venda de uma mina de terras raras em Goiás.
Enfático nos ataques ao petista (“Se ele ganhar, o dólar sobe em dois minutos… teremos o Dilma 2”), Caiado mantém a fleuma para falar de Flávio Bolsonaro, embora avalie que ele perdeu a chance de ganhar a eleição diante das repercussões do caso Master.
Cinco vezes deputado, uma vez senador e reeleito governador no primeiro turno em 2022, o pré-candidato se mostra confiante dos resultados que alcançou em seu Estado. Houve redução dos índices de criminalidade e melhora das notas do Estado no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb), além de investimento no Centro de Excelência em IA (o CEIA), criado em 2019. “Não vou dizer alguma coisa que não possa ser pesquisada por todos”, garante.
Esta não é sua estreia numa corrida presidencial. Em 1989, com apenas 39 anos, e então líder da União Democrática Ruralista, alcançou apenas 0,6% dos votos naquele pleito. “Faltava-me experiência e cabelos brancos”, reconheceu nesta entrevista.
A seguir, os principais trechos. A entrevista completa você assiste no vídeo acima.
União da direita e Flávio Bolsonaro
“Acho que é normal você ter numa campanha eleitoral um primeiro turno em que você tem partidos lançando os candidatos, dentro daquilo que é a projeção de dois turnos. Você pode dizer: o Lula dessa vez está numa condição privilegiada, porque não tem ninguém disputando com ele. Isso é verdade. Agora, nós também não temos nenhum candidato no primeiro turno que tem o recall do Lula, certo? [Ele] vem de todas as eleições à presidente da República e já foi eleito. Nós precisamos ter o maior número de candidatos para também sermos conhecidos em algumas regiões.
No meu caso, 50% da população não me conhece. Entendo que você tem que analisar o candidato que tem uma boa performance no primeiro turno. Mas o ponto fundamental é ver qual é a via segura para derrotar o PT, que é o adversário único do Brasil. Qual via é capaz de chegar ao segundo turno e ganhar as eleições? Interpretando o que as pesquisas estão mostrando, se eu for para o segundo turno, sou a pessoa que todas as pesquisas mais me aproximam do Lula.
Essa sucessão de pesquisas deixou bem claro que o Flávio perdeu a chance de poder ganhar essa eleição. No segundo turno, ele vai se distanciando do Lula. Se o objetivo é ganhar a eleição do PT, minha candidatura tem, neste momento, um perfil muito mais adequado para poder ir ao enfrentamento com o Lula no segundo turno.”
“No meu caso, 50% da população não me conhece”
Revanchismo na política
“Criou-se no país algo que não é um traço da política brasileira. O PT e o PL conseguiram montar uma situação política onde um se alimenta do outro. Como se fosse um campeonato ali, um jogo de revanche. Um ganhou, depois o PL, depois o PT. Uma eleição é um jogo que tem que mostrar quem tem as melhores condições, quem tem qualificações para assumir a Presidência da República.
Eu não vou aprender a governar na Presidência da República. Eu venho de experiência. Experimentado político, hoje com cinco mandatos de deputado federal, senador e de dois governos do Estado. Saí com aprovação de 88%. Eu governei pacificando, não fomentando discórdia. Se fui eleito com 52% dos votos no primeiro turno, como é que eu saio com 88% da aprovação do Estado? Quem não votou em mim disse: ele entregou até mais do que eu esperava.
Acredito que até 4 de outubro, nós vamos dar conta de mostrar para as pessoas que o que se precisa no país é de um presidente que tem autoridade moral, que saiba como se comportar perante essa desordem institucional que está montada no Brasil. Os poderes totalmente sem prestígio junto ao povo. Esse desencanto, esse descrédito, ao invés de ser analisado como o ponto principal, fica ali anestesiado, naquela tese de uma revanche de 2018, 2022. Fica em anistia ou não anistia, dosimetria ou não, e não se debate saúde, educação, segurança.”
20 anos de PT no Poder
“Eu fiz eleição em 1989. A primeira eleição que teve no Brasil depois do período de redemocratização do país. Então, de lá para cá tem 37 anos, o PT está no governo há 20. Você não tem uma linha de desenvolvimento do país.
As pessoas não querem enxergar a importância desta eleição. E aí é que eu tenho de participar de vários debates. E se o PT ganhar de novo? Com taxa de juros, com violência, corrupção, com o narcotráfico, com a pouca eficiência de resultado de trabalho, com a condição hoje de inviabilizar todo o segmento produtivo no país com o endividamento das famílias.”
Gilberto Kassab vice
“Ele [Kassab] é um importante político no cenário nacional. Nós já marcamos a nossa convenção nacional, dia 26 de julho. Até lá, esse processo será conversado, debatido entre nós. Um candidato de oposição nunca queima esse nome assim na largada. Acho que a gente tem que ser muito sincero aqui com todos que estão nos ouvindo. Será momento difícil que o país vai atravessar. Mas a riqueza do Brasil é tamanha hoje que a capacidade de crescer é enorme. Eu estou num Estado que estava quebrado quando recebi e entrego com R$ 9,8 bilhões em caixa.”
Presidencialismo e “despachantes de emendas”
“Trabalha-se dentro daquilo que o povo vai escolher como programa de governo. Se ele apoiou o meu projeto, meu projeto será implantado. Eu estou no presidencialismo. Não conheço um sistema de governo onde há 594 projetos para o país, de 513 deputados, mais 81 senadores. Você tem um projeto de governo. É de quem ganhou a eleição.  Deputado e senador não podem ser despachantes de emenda.
Conheço o Congresso, sempre fui um parlamentar ativo. Hoje você está votando matéria de emenda à Constituição brasileira com o voto virtual. Você não vai mais a Brasília, não debate nas comissões. Os temas são levados à véspera da eleição, num processo populista irresponsável, sem nenhuma consequência para o equilíbrio fiscal.
Todo governante que não tem capacidade nem coragem de governar é sempre prisioneiro de algum problema ou de algum escândalo. Vai ser uma CPI em cima dele? Então libera mais… é a emenda pessoal impositiva, emenda de bancada e emenda de comissão. Não é pouco. O que é o discricionário do governo está 100% contingenciado. Então, o que que vale um ministro de Estado? Não vale nada! Respeito parlamentares, mas cada um na sua função.”
“Deputado e senador não podem ser despachantes de emenda”
Ajuste fiscal
“Se o Lula ganhar, o dólar dispara em dois minutos. Ninguém investe no Brasil porque não tem segurança jurídica nenhuma. Ele vai continuar gastando mais. O Brasil vai passar por um Dilma 2. A bomba já está estourando no colo do Lula. Meu projeto diante desse colapso do ponto de vista de orçamento. Ninguém faz milagre. O presidente eleito tem que ter autoridade moral para chamar todos os empresários no Brasil, as pessoas que realmente governam os Estados, os representantes de todos os trabalhadores e centrais e dizer: ‘Eu não vou fazer milagre, eu vou fazer o que eu fiz”. Chamei todos os poderes e disse: “Amanhã eu vou cortar 25% do duodécimo [repasse do governador às assembleias e câmaras legislativas).” Não tinha condição de pagar folha de pagamento.
Esse corte na carne eu vou ter que fazer e na hora que eu fizer o empresário vai falar: “Pelo menos eu sei que ele não vai gastar irresponsavelmente um trilhão de reais que se gastou em três anos e meio.” O Lula simplesmente jogou dinheiro para todo lado e não teve resultado em termos de produtividade, de aumento de PIB.
Não tenho o menor receio de assumir a Presidência da República porque eu não tenho caixinha de segredo. A verdade vai estar retratada no meu orçamento. Esse ponto vale muito de quem está sentado a cadeira. O empresariado vai saber. Eu em primeiro lugar, vou cortar na carne para dar o bom exemplo e aí sim eu vou diminuindo. Provavelmente entre tantos incentivos que se tem. Vai se exigindo cada vez mais qualificação dos servidores públicos. E avançando naquilo que nós somos referência.”
“Esse corte na carne eu vou ter que fazer e na hora que eu fizer o empresário vai falar: ‘Pelo menos eu sei que ele não vai gastar irresponsavelmente um trilhão de reais que se gastou em três anos e meio'”
Quem tocará a economia
“Eu vou buscar as melhores pessoas, pode ter certeza disso. Eu governei com cada secretário sendo melhor que eu em cada pasta. Porque eu gosto de sabatinar a pessoa. Eu gosto de cobrar dele todo dia, toda hora. Política partidária quem fala sou eu. Ministro de Estado cumpre tarefa de casa. Deu conta? Deu. Não deu conta? Substituo. Essa é a política que eu levei adiante e saí com 88% de aprovação. Estamos conversando com todo mundo.”
Arcabouço fiscal
“Quantas vezes o arcabouço fiscal foi fraudado? Põe nas políticas do governo e aí cria uma condicionante que não é para estar dentro do arcabouço fiscal. Ele nunca cumpriu uma meta dele. Um governo que vai ultrapassar 80% da dívida, PIB num juro real de 10%, uma situação de endividamento de todas as famílias. Setor de indústria, comércio, produtor rural, área que eu conheço bem, todo mundo endividado. E você vê a Índia, a China, os países asiáticos crescendo. Eu [o Brasil] não tenho terremoto, não tenho vulcão, não tenho problema climático. Tenho toda essa potencialidade, mas não tenho um presidente há 20 anos, que é o tempo que eles estão no poder. O Lula é ou não é o melhor presidente que o Paraguai já teve. Milhares de empregos estão indo para lá.”
Terras raras e exportador de pau-brasil
“O Estado [governo estadual] não tem o poder de concessão de lavra. A concessão é da União. Conheço meus limites. A concessão de exploração foi do governo federal [concedida à mineradora Serra Verde, de Minaçu, no norte de Goiás, que pertence a um fundo americano, e se uniu à companhia Rare Earth este ano com investimento de US$ 2,8 bilhões]. Aí a empresa chegou. Ela precisava de autorização ambiental. Eu acelerei o máximo possível, dentro das regras, mas autorizei.
Aí, no começo de 2024, ela começou a produzir. Aí eu fui tomar pé das coisas. O que está acontecendo? Ela está vendendo o concentrado [de terras raras]. Ela vende uma tonelada por US$ 70. Aí são só dois elementos, só dois, de 17. Vamos botar os mais valorizados, que é o disprósio e o térbio. Aí você vai buscar eles custam US$ 1.000 o quilo. Eu estou vendendo US$ 70  a tonelada, ou seja, mil quilos. Nós continuamos sendo simplesmente um exportador de pau-brasil. Como na época da colônia.
Qual é a peça mais importante da coroa hoje no mundo? Exatamente esses dois minerais, disprósio e térbio. Tem a China e nós. O governo federal não tem até hoje nenhum relatório da potencialidade mineral do Brasil. Ele não sabe a riqueza do nosso subsolo.”
“Nós continuamos sendo simplesmente um exportador de pau-brasil. Como na época da colônia.”
Memorando com os EUA
“Fui ao Japão e aos Estados Unidos e fechamos memorandos em que consta exatamente a transferência de tecnologia para nós. Ao invés de vendermos ela [terra rara] bruta, vendemos ela separada. Veja bem, a pretensão nossa ainda está longe de ser o ideal, porque na verdade, o que nós queríamos é que o Brasil tivesse investido em tecnologia, em inovação. Não fosse um país analógico, como é o governo do Lula, nós já estaríamos hoje em condições de produzir baterias, cabos semicondutores, aparelhos médicos, armas sofisticadas. Nós temos dois minérios no Brasil, minas de potássio e o fósforo, que não são exploradas. E são fundamentais hoje para a agricultura.”
Riquezas além da nossa capacidade
“Em Minas Gerais e Goiás você tem mais de 80% de nióbio do mundo. Vou rediscutir as posições do Brasil no exterior. Veja, nós temos riquezas minerais, além da nossa capacidade agrícola. Está certo que manufaturados, nós perdemos longe dos outros países. Eu estou propondo que não peguemos terras brutas e mandemos para fora. Projeto estruturante com indústrias, independentemente do capital. Pode ser americano, japonês, chinês. Desde que fique aqui, lógico. Com pesquisa, com visão de conhecimento, ou não chegamos a lugar algum.  Para sentar à mesa [de negociação] aqui numa outra condição.”

“O governo nunca botou a mão para estimular a inteligência artificial. Quando eu cheguei em Goiás, nós fizemos uma seleção entre os professores da Universidade Federal de Goiás para montar um curso de Inteligência Artificial. Essa faculdade bateu medicina em nota de corte.
Nós produzimos biometano em Goiás hoje, que não se tinha antigamente. Nós temos inteligência artificial, nós temos hoje o desenvolvimento de terras raras, regionalização de saúde, educação.
Mas e os deputados [quando governar]? Eu sei chamar os deputados, senadores e conversar. Desentendimentos políticos, eles existirão sempre. Agora, isto nunca me bloqueou para dar passos mais avançados no Brasil.”
Segurança pública
“Qual é a maior demanda das pesquisas que são feitas pelo cidadão? Segurança pública. E lá em Goiás tinha aquela tese de que em briga de marido e mulher, não se mete a colher. Eu meto algema. Eu fui o primeiro a botar tornozeleira [em agressores de mulheres, por lei promulgada este ano no Estado].  Goiás é o Estado com o menor percentual de homicídio hoje no Brasil  [Goiás foi o 19º Estado em mortes violentas intencionais em 2024, e o sétimo em feminicídios, em proporção sobre 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025].
Objetivamente, segurança vai ser o primeiro tópico. Passou a Copa, vou apresentar o meu plano de governo. Eu implantarei o sistema de terrorismo [Caiado quer classificar as facções como terroristas] por um motivo só. Porque aí eu terei toda a estrutura das Forças Armadas para fazer exatamente uma operação integrada com os países que quiserem fazer acordo. Vou buscar todos os dez países limítrofes do Brasil, buscar um acordo de cooperação, assim como nós fizemos no Centro-Oeste.
Eu gastei em Goiás, nos meus anos de governo, R$ 17 bilhões em segurança pública. Eu recebi 980 milhões do governo federal, 5% do que eu gastei em sete anos e três meses. Isso mostra para você que segurança nunca foi prioridade do governo federal.”

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Fonte: Neofeed

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