Ler Resumo
“Não há nada mais raro que um homem que lê”, já dizia o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900) — à sua maneira, como sempre, provocativa. Em 2026, a célebre frase ganha uma atualização embalada por certa ironia e vinda de um lugar improvável: a moda. Sim, uma das tendências do momento são os visuais que celebram a literatura. Não há nada mais desejável, depreende-se das passarelas e dos looks de celebridades, que ser (ou ao menos parecer) alguém que lê os clássicos das letras. Em meio à saturação de imagens, filtros e estímulos rápidos da vida digital, o mundo fashion acena com o resgate do glamour associado aos escritores de antigamente, por meio da poetcore — a estética “dos poetas”, que transforma o vestir em narrativa e faz da inteligência um luxo. No caso, simbolizado pelos livros de papel e capa dura — que viraram, quem diria, acessório descolado.

O fenômeno começou a se delinear de forma clara no desfile mais recente da Christian Dior. À frente da maison francesa, o visionário Jonathan Anderson trouxe uma coleção que mais lembrava uma biblioteca em movimento: capas, sobreposições, xadrezes e uma elegância quase silenciosa, como se cada look carregasse uma história ainda por ser escrita ou revelada. A atriz Anya Taylor-Joy, que transita lindamente por todos os mundos da arte, cristalizou o look de xadrez e capa na estreia do estilista e, como se fosse uma personagem saída de um romance, viralizou a poetcore como, antes de tudo, um estado de espírito que mistura referências que vão dos uniformes colegiais antigos ao lado dark do romantismo literário — de autoras como Jane Austen, Emily Dickinson ou Sylvia Plath.
Na prática, isso se traduz em golas altas volumosas, blazers herdados do guarda-roupa masculino, suéteres de tricô, camisas com laços e, sobretudo, muito xadrez — do pied-de-poule ao tartã clássico. A paleta de cores acompanha beges, marrons, verde-floresta, bordô. Tons que evocam outono, bibliotecas antigas e tardes silenciosas. As boinas voltam com força, não como fantasia, mas como assinatura estética. E as sobreposições — tricôs sobre camisas, saias com meias, rendas discretas — constroem essa ideia de profundidade visual que reflete, de certa forma, profundidade intelectual.

É nos acessórios, no entanto, que a tendência anda revelando sua faceta mais interessante — e, talvez, mais simbólica. A Dior lançou versões de sua icônica bolsa Book Tote inspiradas em obras como As Flores do Mal (1857), de Charles Baudelaire, e Drácula (1897), de Bram Stoker. O preço acompanha o status: cerca de 3 000 euros (algo em torno de 18 000 reais). Literatura, aqui, vira objeto de desejo.
Esse diálogo entre moda e livros não é exatamente novo: em 2019, a Chanel transformou sua passarela em biblioteca, e o universo beatnik do escritor americano Jack Kerouac (1922-1969) já havia inspirado uma coleção inteira da própria Dior. Mas agora há algo diferente: o livro deixa de ser apenas uma referência e passa a ser protagonista. Quase como uma nova versão do famigerado “verniz cultural”, a poetcore transformou esse objeto crucial da civilização em fetiche. Nas mãos de celebridades como Dua Lipa, Bella Hadid, Jacob Elordi e Kaia Gerber, ele vira extensão do look e da identidade. Não é qualquer título: são obras de filosofia e literatura densa. Uma escolha que comunica repertório. “Ler é sexy”, disse a modelo Kaia.

Os números mostram que essa moda pegou. Segundo o Pinterest, as buscas por “poet aesthetic” cresceram 175%, enquanto termos como bolsas a tiracolo (+75%), capas (+65%) e gravatas (+85%) dispararam. No TikTok, a hashtag #BookTok já ultrapassa 95 bilhões de visualizações, transformando livros em fenômenos virais e best-sellers inesperados. Há, claro, uma camada de performance nisso tudo. Ler em público, carregar um romance, exibir uma capa reconhecível — tudo comunica uma imagem. Mas reduzir o fenômeno a isso seria simplificar demais. Em um momento de anti-intelectualismo e superficialidade digital, a estética literária funciona quase como resistência. “É um movimento forte porque traz consistência de referências”, afirma o stylist brasileiro Dudu Farias. A literatura é fashion — até a próxima página.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989
Fonte: veja.abril
