Ela foi direto ao ponto, com a elegância e firmeza com que desenhava. “A moda é como arquitetura, trata-se de proporções”, definiu Coco Chanel (1883-1971), e muito mais não precisaria ser dito sobre as duas atividades. Demorou, contudo, para que os cortes a vestir mulheres e homens conquistassem o devido respeito. Com a honrosa exceção de algumas poucas exibições em endereços americanos e europeus, poucas mesmo, foi apenas no início deste ano que o lendário Louvre abrigou a pioneira mostra Louvre Couture — Objets d’Art, Objets de Mode, em passo celebrado. Houve aplausos, é ideia que fez história, mas era preciso uma costura a mais, e ela finalmente foi anunciada.
Em 2026, o Metropolitan de Nova York inaugurará as galerias Condé M. Nast, espaço que eleva, enfim, o estilo ao status de obra-prima, tirando o pó dos acervos técnicos subterrâneos, onde até agora ficavam peças escondidas. A exposição inaugural, intitulada Costume Art, foi concebida pelo curador Andrew Bolton, incentivado por Anna Wintour, a ex-todo-poderosa e todo-influente diretora de redação da revista Vogue americana, eternizada nas telas, como diaba a vestir Prada, pela inigualável Meryl Streep. Cerca de 200 peças selecionadas dialogarão com duas centenas de obras de arte, abrangendo um arco temporal de cinco milênios. Bolton organizou o percurso alinhavando, com rara inteligência, o modo como os corpos femininos foram sendo vistos ao longo dos tempos, desde a Antiguidade clássica aos dias de hoje, incluindo gestantes e anatomias que, por preconceito, nunca foram o cânone.

O reconhecimento institucional, o desembarque no Met, é um poderoso marco cultural. “A saída do porão para uma galeria com o mesmo peso de outras artes é um movimento necessário”, diz Brunno Almeida Maia, pesquisador da USP. A mudança de status é também impulsionada pelo imenso poder de sedução cultural que a moda exerce, amplificado globalmente pelo espetáculo do Met Gala, liderado por Wintour, que transformou o evento em vitrine de influência incontestável. “A visibilidade dos desfiles da noite de gala é a porta de entrada para o museu, atalho para um espaço permanente”, disse ela.
O que se verá é forte e bonito, revelaram os croquis anunciados na semana passada. Um vestido Delphos de Fortuny, dos anos 1920, será vizinho de uma estatueta de Nike grega, explorando o drapeado e a ideia de movimento congelado. Uma criação bulbosa e arquitetônica da Comme des Garçons de 2017 conversa com a perturbadora escultura La Poupée, de Hans Bellmer, desafiando noções convencionais de forma e anatomia. Um vestido nude estruturado de alta-costura, da Givenchy, por Riccardo Tisci, de 2010, que sugere uma segunda pele, flerta deliberadamente com as representações da nudez no quadro The Naked Body, de Albrecht Dürer. As justaposições revelam uma longa e rica genealogia estética, demonstrando como a alta-costura pode ser a assinatura inconfundível de um designer, tal como a pincelada é gesto de um mestre pintor.

Estima-se um gasto total de 50 milhões de dólares na empreitada, dinheiro amealhado com leilões e doações, em outro ineditismo — até agora, o material de moda não tinha verba específica e dependia de estratagemas específicos para vir à luz. Agora, não mais. Entrará no orçamento anual do Met, com a devida pompa e circunstância. Não parece haver dúvida, moda é arte, ponto. Ter exibições de trajes durante períodos muito curtos foi sempre uma pena. As novas galerias mudarão o tom da prosa. “Era como ter uma temporada curta na Broadway quando se tem um grande sucesso”, disse Wintour. Não será mais assim, em justíssima ode à beleza.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972
Fonte: veja.abril
